Trajetória de Maria Mercedes Féa

Em registros, ela nascera em Canelli, recanto ainda hoje com 10 mil habitantes cercada de colinas no norte italiano (DEMO ISTAT). Nada indica uma figura paterna em sua vida (ou por orfandade, ou por divórcio dos pais), mas cresceu em uma família de classe média baixa, tendo concluído na Itália o ensino secundário, correspondendo ao atual Ensino Médio.

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Em dezembro de 1926, aos 20, embarcou rumo à Argentina onde iria morar com a mãe e irmãos. Nesta idade, provavelmente quando adolescente já teria se enamorado por algum jovem, mas provavelmente nenhuma relação tão súbita quanto teria a seguir, o que indicaria que talvez seria seu primeiro, último e único homem. No navio a vapor, é cortejada por Giuseppe Pistone que vivera dois bons anos às custas da herança do pai. Italiano da mesma pequena cidade dela, graceja no primeiro encontro e até troca a passagem dela para ser seu par – de terceira para segunda classe.

Comemoram o reveillón na Argentina, antes dele partir com razão de resolver pendências. Na verdade, foi preso por estelionato. Mês seguinte a procura e teria dado uma medalha de São Januário, reatando o romance. Nem a mãe, nem os irmãos de Maria aprovavam o casal, há indícios de que a irmã teria feito de tudo para evitar um casamento. Em uma época que os direitos femininos eram cerceados, o matrimônio era sinônimo de ascensão social às mulheres e sonho de consumo. De nada adiantou investidas contrárias, em fevereiro de 28, aos 22, ela casou-se com o rapaz de 31. Logo seguiram em lua-de-mel pela Itália. Em maio, retornaram à Argentina com ela já grávida há um mês.

02Entre agosto e setembro, decidiram se mudar ao Brasil, pois Giuseppe argumentara conhecer um parente distante que poderia lhe empregar. Maria era registrada como moça dedicada e prendada, acompanhante fiel de seu esposo. Na capital paulista, ele se tornou vendedor de salames num comércio de vinhos do familiar, justificando o emprego enquanto esperava a herança de seu pai – já consumada. Na verdade, planejava dar um golpe no tal primo.

Enquanto isso, Maria bordava um lenço com a dona do apartamento onde moravam, Maria Oliveira. A senhoria relataria depois para a polícia que Maria era histriônica com a voz imperceptível do marido ao acusá-la de traições ou ciúmes doentio. Maria percebera o golpe a ser dado pelo cônjuge e enviou uma carta à sogra.

01“Dois dias antes do crime, Maria Féa escreveu para a sogra. ‘Tenho sabido de muita coisa incorreta que o José tem feito. Soube que o senhor Pistone (o primo) te escreveu pedindo 150 mil liras que José fez acreditar possuir em tuas mãos (…) Mas nós sabemos que ele não tem mais nada a receber. O senhor Pistone mandou-me chamar e perguntou por que motivo José não ia trabalhar. O que posso esperar desse homem que não tem juízo nem capricho?'” (SANCHES).

No dia 4 de outubro do mesmo ano, a senhoria do apartamento fazia reparos na janela do apartamento perto de Maria. Giuseppe chegou antes do almoço em casa, 11h30, e após uma longa discussão, baque do corpo de sua mulher estrangulado no chão e silêncio. Ele ainda passaria a noite com o corpo na cama. Mais tarde, Giuseppe justificaria o ato por um suposto adultério.

“Para levar a mulher ao almoço, como sempre, Pistone chegou descontraidamente. Até abrir a porta. Deu de cara com um estranho na cama com sua mulher. O desconhecido foi mais rápido que ele, sentando na sua frente. Maria, sem que lhe fosse feita qualquer pergunta, gritava que nada tivera com aquele sujeito. Mas não explicava claramente o que ele fazia tão bem acomodado junto dela” (JÚNIOR). Mancharia a reputação da vítima indicando um conhecido seu da rua, um auxiliar de alfaiate que ela jamais conhecera. É que na época, casos extraconjugais inocentavam crimes de feminicídio.

01Passou dois dias até que ele comprou uma mala de couro, desnudou o corpo da cintura pra baixo, cortou as pernas de sua esposa de 1,66 m com uma navalha e fechá-la junto de roupas, tecidos e quinquilharias. Em Santos, “Arrastava uma malcheirosa mala-baú e explicava, a quem estranhasse o odor, que levava queijos e salames”.

“Seu objetivo, decidido poucas horas depois da chegada: despachar a mala no navio Massilia, com destino a Bordeaux, na França, para ser entregue a um fictício Ferrero Francesco” (GOMES). No dia 7, o odor forte e o peso de até 60 quilos da bagagem fez com que um carpinteiro abrisse a mala e, rodeado de pessoas, observasse junto da polícia o corpo da vítima que expeliu no mesmo dia o feto natimorto de seis meses, uma menina. No dia 8, Giuseppe foi preso e se notabilizou n’O Crime da Mala’.

Desde então, uma multidão de mulheres gestantes, solteiras, e principalmente noivas visitaram o túmulo de Maria em Santos. Véus e vestidos, perfumes, flores e placas em agradecimento às graças alcançadas em seu nome. A sua popularidade se deu a ponto de que, em 70, centenas celebravam missa anual em seu tributo, e nos anos 80, a Prefeitura ergueu uma capela onde ela jaz.

Seções

Introdução
1. Trajetória de Maria Mercedes Féa
1.1 Pesquisa sobre culto popular à Maria Féa – Capítulo 3 (link externo)

2. Consequências do machismo
2.1 Pesquisas sobre machismo no Brasil (link externo)
2.2 Vítimas de ‘vingança pornô’ (link externo)
2.3 Relatos da campanha ‘meu amigo secreto’ (link externo)
2.4 Relatos da campanha ‘meu primeiro assédio’ (link externo)
2.5 Casos de assédio em Santos (link externo)

3. Garantias graduais de direitos às mulheres
3.1 Guia de leis brasileiras dos Direitos da Mulher (link externo)
4. Violências contra a mulher: feminicídio e crimes íntimos
4.1 Casos famosos de feminicídio no Brasil
4.2 Casos de feminicídio no Brasil (link externo)
4.3 Casos recentes de feminicídio na Baixada Santista
4.4 Obras artísticas sobre feminicídio e machismo (link externo)

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Referências

DEMO ISTAT. Estudos demográficos da Itália. 2014. Acesso em: <http://demo.istat.it/pop2014/index.html&gt;.
JÚNIOR, Armando Stelutto. Notícias Populares. Um crime de meio século. 1978. Acesso em: <http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0081d.htm&gt;.
SANCHES, Valdir. Revista Época. A verdade da mala. 3 out 2008. Acesso em: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI14026-15223-2,00-A+VERDADE+DA+MALA.html>.

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