Opinião: O outro olhar à ditadura com ‘O Berro da Ovelha Negra’

Uma senhora pedindo silêncio ao ladrão por estar vendo novela. Uma máquina com seu dedo gigante esmagando um trabalhador. E um torturador praticando sadismo com sua mulher. No auge da ditadura militar, quaisquer traços contra os valores da pátria ou seriam dignos de crime de Estado, ou de serem publicados no jornal de cartuns Ovelha Negra. E uma parte desta alma errante está no livro ‘O Berro da Ovelha Negra’, de Osvaldo DaCosta, pelo Ateliê das Palavras.

O título é um tratado de 147 páginas sobre o humor gráfico, pois enquanto pesquisa acadêmica, o mestre em Comunicação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul, DaCosta alimenta o leitor de conceitos desde o tracejado dos nossos antepassados na antiguidade até o conceito grego dos quatro elementos que equilibram nosso corpo.

02“O filósofo Aristóteles atribui aos seres humanos a condição de ‘o homem é o único animal que ri'”, cita o autor no livro e, a todo instante, busca alargar nossos lábios com os sarcasmos bolados no humor gráfico. Assim, ele inicia a obra definindo a origem da caricatura, do charge, do cartum e dos quadrinhos. O Pasquim, Bondinho, Opinião e outros periódicos durante a ditadura também ganham destaque nas páginas.

As dezenas de referências endossam a pesquisa, como um prato cheio a inspirar novos escritores sobre o tema (ao meu ver, esse o maior mérito do livro). Principalmente pela generosidade de se atentar a apenas um dos diversos veículos de humor, mas não menos importante. Idealizado por Geandré, o Ovelha Negra consistia em dois terços de desenhos, recebendo centenas de imagens de artistas de todo o Brasil, como Nani, Laerte e os irmãos Caruso.

03Está tudo contemplado nas análises e conversas de DaCosta e Geandré. O planejamento do editor do jornal em plena cozinha até a busca de anunciantes e circulação dos jornais. A mudança dos logotipos feita, entre outros, por Henfil, é uma das curiosidades bem-vindas no registro deste livro exemplar. Só a descrição minuciosa interpretada cada imagem gera certa apatia, no entanto, para qualquer pesquisa é necessário contextualizá-las. E não perder o contexto de revisitar o bom humor nos jornais (em extinção) do País.

*Lincoln Spada

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s