Opinião: O amadurecimento do repertório teatral em ‘Meu Deus…’

A maior virtude do teatro é instigar o público tanto para o diálogo durante o jogo lúdico, quanto para o debate e a reflexão após o espetáculo. E esta vocação se faz presente durante toda a nova peça da Cia Trilha de Teatro e Grupo Tescom, ‘Meu Deus…’, em cartaz atualmente no Tescom, justamente pelo acerto no ritmo alucinante do espetáculo e pela temática, que une na perspectiva de jovens a crise de valores das principais instituições sociais: a família e a religião.

‘Meu Deus…’ é aquele teatro realizado no momento certo, na hora certa. Trata-se de uma temática mais em voga na atualidade, quando temos discussões acaloradas de hoje em dia sobre a intolerância religiosa e as consequências do esfarelamento das famílias e de modelos de ensino às novas gerações – vide as pautas de terrorismo e fanatismo religioso, do Estatuto da Família e da Escola sem Partido que permeiam de Brasília até o jantar em nossos lares.

Com uma dramaturgia de Ronaldo Fernandes embasada em questionamentos filosóficos, que seguem de Nietzsche (Deus morreu?) a Baumant (sociedade líquida?), esses discursos caem como uma luva nas mãos do quinteto jovem elencado na peça, que abordam cenas sobre gravidez precoce, identidade sexual, doenças sexuais, uso de drogas ilícitas, entre outros assuntos.

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Ao mesmo tempo, essas questões de Ale, Eli, Edu, Isa e Val correspondem às mesmas de outras juventudes desde os anos 70, o que pelo figurino acertado do espetáculo, de tons subjetivos e levemente retrô, torna a peça como atemporal. Ao meu ver, esse espaço e tempo indeterminados do espetáculo é um tanto orgânico às cenas, até porque se trata de um processo teatral em que o diretor Ronaldo, jovem há mais tempo, conversa diretamente com os jovens mais recentes. Percebe-se pela eclética trilha musical, perene há gerações.

Múltiplas interpretações

Para a plateia em si, recomendo estar acompanhado. Bem acompanhado, até de seus filhos adolescentes. Apesar de serem temas secos, há uma fluidez presente que não ataca o olhar nem de um fervoroso ex-coordenador de juventude católica (neste caso, eu). Mais do que outras obras teatrais, nessa por abranger um universo subjetivo, de papo cabeça e permeado de referências, é preciso que o espectador interaja com a companhia.

Em um palco dividido entre atores e público, toda a cena exige nossa atenção e, rica em detalhes, é colocada à prova dos holofotes laterais – aliás, algo que pode ser dosado em relação à disposição da plateia que fica no centro do palco. Na estreia, estive com outros dois amigos, jovens, jornalistas. Um trio admirado pela narrativa e estética, mas cada um compreendendo a obra em seu respectivo repertório, o que rende múltiplas opiniões, todas corretas ao meu ver.

5Por exemplo, um entendeu que, no entremear de cenas, os passos acelerados e os papos monossilábicos dos personagens se referia à atual juventude entretida em Messenger e Whattsapp. Outro já observou que os sons de vento e a maquiagem do elenco significasse que talvez todos já estivessem num plano sobrenatural.

Se um interpretou a peça como Ale (Marcus Di Bello) como o narrador (afinal, eram suas interlocuções que desenvolviam a trama), outro observou que o ápice seria a performance pra lá de divina de Val (Dafne Carina), e ainda outro que pensava que o teatro estava no entorno do drama da personagem Eli (Flávia Simões), na angústia de um teste de HIV.

Maturidade do repertório do grupo

Ou seja, ‘Meu Deus…’ sugere um amplo leque de possibilidades, com o elenco completado por Paola Caruso e Felippe Alves, em tramas paralelas sobre o uso de drogas ilícitas – cada um com seu devido destaque no palco. Aliás, o que não falta são destaques neste espetáculo que indaga sobre onde estaria a orientação e a personificação do divino num mundo de mazelas em que vivemos.

Uma maturidade em cena tão profunda que pode ser um empecilho para a companhia em futuras produções. Para quem acompanha o cenário teatral, a estética bem entrosada da companhia se dá por elementos que já foram experimentados no repertório de cada um envolvido no palco e na produção artística desde 2013.

Como um resultado cênico bem estruturado com referências de vários núcleos criativos da cidade – que de fato é. E caso a próxima produção não venha a ser uma trilogia das releituras contemporâneas de Ronaldo Fernandes iniciada em ‘Nó na Garganta’, os novos processos terão que ser reinventados para garantir novas vivências e narrativas junto ao público.

Serviço

A primeira temporada de ‘Meu Deus…’ segue até 14 de agosto, com sessões às sextas-feiras e sábados às 21h e aos domingos às 20h, no Tescom (Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 195/Santos). A peça tem ingressos a R$ 20.

*Lincoln Spada

 

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