Entrevista: ‘Sem cultura e educação, não existirá democracia’, diz Matheus Nachtergaele

Com larga trajetória no teatro, TV e cinema, Matheus Nachtergaele fará o espetáculo de abertura ‘Processo de Conscerto de Desejo’ no FESTA 58 – Festival Santista de Teatro. A sessão gratuita será nesta quinta-feira, às 21 horas, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100/Santos), onde o público poderá retirar os ingressos antecipadamente a partir das 13 horas.

Em sua programação, o FESTA 58 terá início desde às 19 horas, com a ocupação artística de diversos grupos da Baixada Santista e do estado de São Paulo na Praça dos Andradas, Teatro Guarany, Vila do Teatro e Centro Cultural Cadeia Velha. Realizado pelo Movimento Teatral da Baixada Santista e com apoio da Prefeitura, Governo Estadual e Sesc Santos, o evento contará com mais de 40 atividades gratuitas voltadas à população até o dia 7 de setembro.

Em entrevista à assessoria do festival, Matheus Nachtergaele relata sobre a montagem de sua peça, a sua carreira nos palcos e nas telas, e sobre o papel da cultura na democracia que vivemos, aliás, tema do FESTA 58 este ano. A seguir, a entrevista na íntegra e para saber mais sobre o festival: festa58.wordpress.com.

5No monólogo ‘Processo de Conscerto do Desejo’, você está junto ao palco com sua mãe a partir dos poemas dela em que interpreta, como também nas canções que ela tinha predileção. Como um tributo a ela, um resgate pessoal ou uma forma de levar ao público a sua história, como você define este espetáculo?

Defino esse recital como uma celebração sacro-profana de dar sentido às tragédias da vida da gente. Ao mostrar a poesia da minha mãe, mostro meu pranto e também meu orgulho por ter sobrevivido à dor de seu precoce suicídio e de ser filho de uma artista de verdade.

Certamente você levou um longo período para amadurecer este espetáculo e até mesmo para se colocar como intérprete dos versos de sua mãe. Noutras vezes, você citou que imaginava uma atriz para esse papel. Qual foi o fato ou o momento em que você assume a missão de subir ao palco nesse monólogo?

Eu teria, um dia, que mostrar os poemas para as pessoas de alguma forma. Em julho de 2015, fui convidado pelo Festival de Teatro de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais a apresentar um monólogo ou algo parecido. Foi a deixa para tomar coragem e ler em público os textos. A emoção da plateia me ensinou, naquele dia, que deveria amadurecer o apresentado e criar um espetáculo.

2Por se tratar dos escritos de sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele, você foi mais exigente no decorrer da montagem desta peça? E a partir da criação e dos ensaios, você chegou a mudar ou reafirmar a leitura que tinha sobre ela enquanto pessoa e autora?

Concebi, dirigi e atuo no espetáculo. Primeiro procurei traçar alguma curva dramática com os poucos poemas que ela deixou. Depois, junto com meus músicos, escolhi as músicas que tingem de emoção a peça e mostram os gostos de minha mãe. As músicas clássicas do repertório mundial tocadas por Luã Belik e Henrique Rohrmann foram escolhidas por nós, no processo. Ainda ajusto coisas, inverto a ordem de poemas e inauguro canções conforme a peça vai amadurecendo. Cada dia é um novo dia, para nós do Conscerto do Desejo!

Na repercussão positiva desta peça, duas características cênicas chamam a atenção. Como você justifica tanto a presença dos músicos, quanto as tintas amarelas que cobrem seu corpo em cena?

Minha mãe tocava violão muito bem, cantava muito bem, e achei bonito colocar isso dentro do retrato poético que faço dela. Poesia, quando bem dita, a música assim, bem, tudo se encaixou. Trata-se de um tipo de Teatro-Dança com a palavra como protagonista. O amarelo em meu corpo é a luz que pretendo jogar sobre as trevas da morte.

3Você sempre fala com muito carinho de Maria Cecília e de que seus poemas o encantaram a ponto de mergulhar mais no mundo da literatura e das artes. A seu ver, este monólogo marca um fim ou reinício de ciclo na sua pesquisa artística e autoral em relação a figuras maternas ou o tema do suicídio, como no premiado ‘A Festa da Menina Morta’?

Sim, espero que sim! E me orgulho muito dos dois trabalhos. A morte da mãe foi explorada por mim de várias formas, e hoje é pura poesia. Me sinto mais livre, agora.

A sua carreira é plural do drama à comédia, de ator de teatro a cineasta, da televisão (‘Da Cor do Pecado’, ‘Sassaricando’, entre outros) e filmes com Chico Assis (com ele, uma parceria retomada pela sexta vez mais recentemente em ‘Big Jato’). O que o move na escolha de seus projetos artísticos?

A vocação dos projetos! Adoro me unir a pessoas que admiro e dizer, seja da forma que for, algo que considere bonito. É bonito rir e chorar do drama humano. E adoro alegrar as pessoas. É preciso alegrar as pessoas.

Aliás, na maioria dos seus trabalhos, você sempre é bem avaliado pelo público e crítica, que sempre esperam vê-lo amadurecer cada vez mais. Isso faz com que na escolha dos seus projetos futuros, você tenha medo do fracasso? E onde o público poderá encontrá-lo nas próximas produções?

Estou na vida, como todos, aprendendo com os erros, procurando não repeti-los e tentando ser mais feliz. Tenho medo do fracasso e da dor, claro. Mas olha, já fracassei muitas vezes, e outras vezes fui mais bem sucedido nos meus projetos, então sei que a caminhada é que importa. O fracasso e o sucesso passam, né? Segue o aprendizado.

Não é a sua primeira vez em Santos, mas não sei se já conhece o Teatro Guarany. Trata-se de um teatro-escola municipal reaberto em 2008, e que foi ainda no século 19 como o principal palco na Cidade de movimentos e intelectuais abolicionistas e republicanos. Nos dias de hoje, como você observa o papel dos movimentos culturais na democracia em que vivemos?

Sem cultura e educação não existirá democracia. Todos temos que pensar juntos nosso destino como brasileiros e seres humanos. Todos. Tô me sentindo muito honrado por poder mostrar esse trabalho tão delicado para a plateia de Santos, nesse teatro tão lindo!

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