Repercussão: Políticos e jornalistas abordam caso de censura policial ao teatro em Santos

Por Lincoln Spada

Constantemente as festas e apresentações artísticas na Praça dos Andradas têm sido palco de atuações da Polícia Militar com apoio da Guarda Municipal. Se na festa ‘A Praça é Nossa’, quatro mil pessoas resistiram em continuar a ação, neste domingo, o ator Caio Martinez Pacheco, diretor teatral de ‘Blitz – O império que nunca dorme’, da Trupe Olho da Rua, foi algemado e a apresentação em temporada na Praça há mais de um ano foi censurada pelos agentes públicos.

Elenco e plateia presente denunciou o ato de censura ao espetáculo contemplado pelo próprio Governo Estadual, pois até a intervenção era de que a PM alegava como causa “o tom da peça” satírica às repressões policiais, às 18h20. Apenas no B.O. emitido às 22h57 no 1º D.P. de Santos havia como razão a presença de bandeiras invertidas. O caso ganhou repercussão nacional e políticos já se posicionaram nesta segunda-feira (dia 30).

Em nota, a Secretaria de Estado da Cultura aborda sobre o financiamento via ProAC – Programa de Ação Cultural do espetáculo. “Projetos contemplados são escolhidos por comissões independentes, não havendo qualquer tipo de restrição estética ou de pensamento aos projetos que pleiteiam programas de fomento”.

Nesta manhã, o governador Geraldo Alckmin, disse ao G1 Santos a partir do que ouviu sobre o B.O. do caso: “Claro que a atitude deles [atores] foi de muito mau gosto. Você virar de ponta-cabeça a bandeira brasileira, ridicularizar quem está trabalhando, colocando até sua vida em risco para defender a sociedade, é de muito mau gosto. Agora, liberdade de expressão é liberdade de expressão. Goste ou não goste, é um direito das pessoas”.

Secult e Conselho de Cultura

Para o jornal A Tribuna, o secretário da Cultura de Santos, Fabião Nunes interpreta que toda manifestação cultural tem que ser livre. “Se é uma crítica ou não, a gente não vai fazer curadoria, cerceamento de liberdade” e que “acredita no trabalho dos artistas e tem esse diálogo pleno com os coletivos e movimentos”.

Pelas redes sociais, o assessor técnico da Secult e ex-secretário adjunto da pasta, Vinícius Cesar Sergio afirmou já ter assistido ao espetáculo. “Lamentável o ocorrido ontem com a Trupe e principalmente com Caio Martinez Pacheco com a liberdade de expressão e do pensamento. O fato da crítica bem humorada à PM ser em praça pública e dar acesso direto a uma abordagem desproporcional, reforça o contexto da peça. Uma manifestação legítima, como as muitas outras críticas as corporações feitas em charges, canais da internet e da TV”.

O Conselho de Cultura de Santos emitirá uma nota em prol à liberdade de expressão. Vice-presidente do Conselho de Cultura de Santos, o produtor cultural Jamir Lopes manifestou solidariedade aos artistas. “Atores não são Bandidos!! Todos temos Direitos Culturais e pleno Direito a qualquer manifestação pública. Estas atitudes truculentas e absurda da PM num estado democrático, somente reforçam as criticas e a temática da própria peça teatral Blitz”.

Poder Executivo

Por sua vez, a Prefeitura de Santos informou à imprensa que não houve comunicação prévia sobre a apresentação, mas enfatizou que “a intervenção da PM foi de iniciativa própria”. Sobre a autorização para apresentações em logradouros públicos, informou que está tratando do tema deste o início de outubro.

Reeleito, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa não abordou sobre o caso de censura. O silêncio ao assunto também está nas redes sociais de ex-prefeitos de Santos – e deputados estaduais e federais eleitos na região. Neste período, o coordenador da Câmara Temática de Cultura do Conselho de Desenvolvimento Metropolitano na Baixada Santista, Welington Borges manifestou “todo apoio ao amigo Caio Martinez Pacheco”, destacando o vídeo da censura policial.

Welington Borges é secretário de cultura de Cubatão. Por lá, a prefeita Márcia Rosa também republicou reportagens que destacam o direito à liberdade de expressão, manifestando apoio ao grupo teatral. Ainda na Baixada Santista, o secretário de cultura de São Vicente, Amauri Alves, postou o vídeo de denúncia do grupo teatral sobre a intervenção policial na Praça dos Andradas.

Poder Legislativo

No dia seguinte à intervenção policial, não houve quórum para a sessão na Câmara de Vereadores de Santos. Nas redes sociais, apenas um dos 21 vereadores se posicionou sobre o caso até a manhã desta terça-feira (dia 1º). Encerrando seu mandato no Legislativo, o vereador Evaldo Stanislau (Rede).

“Em Santos o jovem ator Caio Martinez Pacheco é preso porque comete o “crime” da livre expressão! Eu digo não ao arbítrio! Vamos apurar com rigor e resistir. Não podemos abrir mão dos nossos direitos e da democracia”. Noutra nota, “A ação da PM foi de uma inteligência inversamente proporcional à força empreendida na ação. Resultado? A peça de alcance local hoje é tema de debate no Brasil. E da violência (do mau) policial o debate ampliou-se para a volta da arbitrariedade e da censura”.

Já o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) enviou nota: “Em mais uma demonstração de intolerância e despreparo, a Polícia Militar de São Paulo interrompeu neste domingo a apresentação de uma peça de teatro, em Santos, cujo enredo tratava da violência institucional que é cometida contra população. Segundo os policiais, que chegaram a algemar e agredir o ator e diretor do evento, ele “desrespeitava o país”.

Ele evidenciou que a liberdade de expressão é um direito constitucional. “O responsável por esse absurdo deveria imediatamente ter sido autuado pelo desvio de função. Se aceitarmos que o conteúdo de peças de teatro precisam passar pelo crivo do Batalhão na área, então seria preciso discutir a utilidade do poder judiciário. Uma vez que se autorize camburões para levar artistas, a figura de um juiz de direito, me parece, se torna desnecessária. Portanto, esse é claramente um limite que nos separa da barbárie”.

Políticos: Cultura liberta

Na última eleição, oito prefeituráveis concorreram em Santos. Destes, apenas três se posicionaram publicamente – todos em favor dos artistas. Hélio Hallite (PRTB) respondeu em comentários o apoio e solidariedade ao movimento teatral.

Carina Vitral (PCdoB) afirmou “Em uma ação no mínimo descabida, desnecessária e sem propósito. A quem interessa a não ocupação dos espaços públicos pela população através da cultura e arte?”. E Débora Camilo (PSOL) observou: “Querem saber o motivo de tanta repressão? Simplesmente porque a cultura liberta. Todo apoio para aquelas e aqueles que, pela arte, enfrentam o sistema”.

Jornalistas: Liberdade de expressão

Nas mídias, o colunista da Folha de São Paulo, Gregorio Duvivier publicou apoio aos artistas: “Não acabou. Tem que acabar. #CensuraNuncaMais”. Na região, o jornalista e diretor técnico da Fundação Arquivo e Memória de Santos, Sergio Williams fez uma clara defesa ao ator detido, Caio Martinez Pacheco. “Triste diante das cenas vistas na Praça dos Andradas neste final de semana. A arte é uma das formas de expressão que nos permite criticar setores da sociedade que cometem erros. A Polícia Militar, como qualquer órgão, tem bons e maus exemplos. Devemos respeita-la, mas também temos a prerrogativa de critica-la, quando isso for pertinente”.

“Em um Estado Democrático, a livre expressão das ideias é fundamental, seja na forma escrita, falada, cantada ou encenada. Os integrantes do grupo Trupe da Rua tão somente exerciam sua arte, sem violência. Ninguém é obrigado a gostar, mas é preciso respeitar, principalmente a livre expressão das ideias. Tanto é que o espetáculo Blitz tem o apoio financeiro do Governo do Estado de São Paulo, por meio do Proac. E, para obter este apoio, tiveram de apresentar o roteiro, que foi entendido como arte, cultura”.

Na CBN Santos, o editor Oswaldo Sílva Júnior lamentou os atos ocorridos na Praça dos Andradas, questionando, “O governo atacando o próprio governo?”, “A liberdade de expressão está sendo atacada nesse caso?”, “Lamentável, lamentável mesmo. Até porque a população sabe como foi duro conquistar esse direito à liberdade de expressão”.

O repórter do Diário do Litoral, Carlos Ratton, seguiu o mesmo tom: “Nós, jornalistas, temos que prestar apoio a classe teatral de Santos e lutar para que a liberdade artística e de expressão seja mantida. Caso contrário, seremos expectadores dos tempos de trevas que não queremos mais”. Aliás, Ratton mediou com a Trupe Olho da Rua e o presidente regional do Sindicato dos Jornalistas, Glauco Braga, uma coletiva de imprensa na tarde da última segunda-feira.

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