Artistas e vereadores se unem para que Cadeia Velha seja centro de artes integradas

Por Lincoln Spada

Logo na primeira sessão, os vereadores de Santos fizeram uníssono à comunidade artística em se opor ao recuo no projeto de uso da Cadeia Velha da Cidade. Em sessão com galerias lotadas pela população e diferentes coletivos, 18 parlamentares assinaram um requerimento para a Comissão Especial de Vereadores (CEV) a fim de assegurar a função cultural do centro estadual.

O documento foi apresentado na última segunda-feira (dia 6), pelo vereador Chico do Settaport (PT). Em relação à Cadeia Velha, ele destaca que: “enterrar esse passado (…) soma-se ao processo de sucateamento da cultura (…), é uma decisão que coloca em evidência o descaso e a falta de compromisso do Governo Estadual, que reduziu drasticamente o investimento nas oficinas culturais”.

> Confira aqui o requerimento

Embora oposicionista, a sua fala ganhou adesão da maioria dos vereadores, e outros endossaram abertamente a sua voz, no uso da tribuna, como a correligionária Telma de Souza, a presidente da comissão parlamentar relacionada à cultura, Audrey Kleys (PP) e o correligionário do titular da Secretaria da Cultura, Benedito Furtado (PSB).

Atualmente, a proposta de abrir uma CEV está em análise na Comissão de Justiça, Redação e Legislação Participativa, presidida por Manoel Constantino (PSDB), que também subscreveu o pedido de Chico. Assim, o petista presidiria a CEV que, por mais que o prédio seja estadual, pressiona a garantia de espaços e participação dos artistas de Santos e região no patrimônio.

Oficina Pagu ou Cadeia Velha?

Já que a Cadeia Velha foi a sede da Oficina Cultural Pagu desde os anos 90, é compreensivo que, nas falas dos parlamentares, a sobrevivência das oficinas equivale à garantia do prédio reformado em R$ 10,6 mi como centro cultural. Mas vale lembrar que a OC Pagu era uma das unidades regionais das Oficinas Culturais do Estado de SP, programa via convênio da Secretaria de Estado da Cultura com a OS Poiesis até 2018.

Desde dezembro, o governo e a organização desativaram todas as unidades do interior e litoral por reduzirem verbas. Em média, a OC Pagu tinha o valor de R$ 1,4 mi anual na Cadeia Velha, mesmo com baixo investimento para programação artística. Para recuperar a unidade regional neste ano, a CEV deve pressionar uma nova verba a ponto da Poiesis rever o interesse de assumir o prédio e recontratar sua equipe.

Prefeitura, Agem ou Guri

Com o anúncio de revisar as Oficinas Culturais, encerrando com as 10 sedes regionais de São Paulo, entre elas, a Pagu, desde meados de dezembro a Cadeia Velha se encontra fechada. O Governo de SP consultou municipalizar o centro, mas a Prefeitura reduziu verba e equipe da Secretaria da Cultura de Santos, além de que estão previstos quatro novos centros culturais em bairros vulneráveis.

Noutro mês a fim de garantir o uso cultural, a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) anunciou a mudança do Projeto Guri para o prédio no Centro de Santos, deslocando as aulas musicais de 300 crianças e adolescentes que estudavam até então na Zona Noroeste. Ainda, recuou do compromisso público neste triênio do prédio ser um centro de artes integradas, para ensaios, debates e produções dos coletivos da Baixada Santista.

Aliás, o prédio será transferido da SEC para à autarquia estadual Agência Metropolitana da Baixada Santista – Agem, que mantém sede alugada na Vila Mathias. Além disso, o equipamento só funcionará no expediente da agência, de segunda a sexta-feira até às 18 horas, impedindo a participação dos artistas. A diretoria da Agem já se reuniu duas vezes com os secretários de Cultura da região para novas possibilidades em prol dos artistas.

A desconfiança dos artistas locais é de que a Agem e as reuniões de secretários de Cultura da região não têm histórico positivo para os coletivos. Contam-se nos dedos as ações viabilizadas por esses órgãos: desde 1994, apresentações de orquestras e bandas públicas fora da região em sessões pagas no Sesc Santos; em 2009, um fórum regional de cultura em que se discutiu uma circulação artística que jamais saiu do papel; em 2016, um encontro de gestores e museólogos em que não foram apresentados os projetos para modernizar museus.

Repercussão dos artistas

Nas últimas reuniões, a Agem busca a ampliação do expediente e de salas para coletivos culturais, como o salão Plínio Marcos e duas celas de artes cênicas prontas para essa finalidade. A agência também já acenou que dialogará com os artistas locais e de que fará o agendamento dos espaços, provavelmente sendo esse o papel do assessor do órgão, Cláudio Fernandes. Por sua vez, os artistas locais resistem à ideia nas redes sociais e veículos de imprensa.

“É pouco, quase nada! A Cadeia Velha pertence aos movimentos culturais da região! Tem a história e a memória artística. Não precisamos de puxadinhos oficiais para as nossas artes”, diz a diretora teatral Miriam Vieira. Também diretor e ator, Márcio Souza destacou nas redes sociais: “Francamente, é no mínimo ridículo!”. Já a atriz Raquel Rollo destaca: “Duas celas para a demanda que os artistas de vários segmentos tem não dá conta de atender as necessidades e suprir a falta de espaço que temos na cidade e região”.

“Não conversaram com a sociedade civil. Se fecham em reuniões inócuas na Agem para repetir o que já estava posto. Jogaram o diálogo no lixo. Isso é criminoso. Isso é um remendo muito mal feito. É chamar as pessoas de idiotas. O espaço é um centro cultural dada a vocação e identidade da construção do espaço durante anos de uma política pública que funcionava e atendia nove cidades. A reforma era para ter potencializado isso, como prometido na época do fechamento, e não retroceder”, é contundente o ator e produtor cultural, Júnior Brassalotti.

“Dá pra ceder uma sala pequena lá em cima pra Agem. Quantos funcionários são? Nós, artistas somos muitos”, anotou o cineasta Dino Menezes. Por sua vez, a diretora teatral Paula D’Albuquerque questionou: “Como a cultura da Baixada pode estar comemorando mais uma perda?”. O ator e dançarino Julio Mad evidenciou: “Não temos o que comemorar, pois é uma vergonha o Sadek fechar um centro cultural”.

Ex-coordenadora da Oficina Pagu, Naira Alonso escreve: “O Estado assumiu o compromisso de após a reforma a Cadeia Velha continuaria a funcionar como um Centro de Cultura Plural pois essa é a sua vocação, construída ao longo de décadas. Situações financeiras adversas, nesses mais de 30 anos, foram enfrentadas num esforço conjunto. Agora, arbitrariamente, o Estado volta atrás e vai na contramão da história”. O diretor e ator Caio Martinez Pacheco, da Trupe Olho da Rua, reafirma que a Cadeia não pode perder a referência de ser um centro cultural pelo seu caráter histórico, museológico durante seus 35 anos. “Não fomos informados dessa reunião.

Diretor e ator Caio Martinez Pacheco diz: “A sociedade santista tem que continuar propondo ações culturais na Cadeia e exigir que as verbas que venham do Estado sejam para contemplar oficinas culturais”. Já o diretor teatral Lourimar Vieira apela: “Várias iniciaram suas carreiras nesse importante equipamento público de cultura. Por isso, sou a favor de sua ocupação pelos artistas da região. Por favor, dirigentes públicos, um pouco mais de respeito com a história desse equipamento e com a dos artistas que lá se formaram. Respeitem a vontade dos artistas”.

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