Opinião: ‘Lágrimas de Laura’ e a sua força dramatúrgica

Por Lincoln Spada | Foto: Maurice Pirotte

“É preciso parir a avó Laura”. Nasce ‘Lágrimas de Laura’, peça protagonizada por Priscila Ribeiro, que nos convence a viajar épocas tão somente com uma cadeira colonial e um espelho emoldurado na vertical, levemente coberto com uma toalha de renda. Um manifesto: a força do teatro está na dramaturgia assinada pela atriz.

A obra compreende na matriarca envelhecendo diante da narradora. Reflexões sobre corpo, força e servidão atravessam todo o enredo, entremeado de cenas singelas. A porta-bandeira durante o hino da X-9 e a agraciada durante o ritmo das orixás. Maior dor para a plateia vem da saudade, do banzo, interpretado entre personagens que podem ser a avó, a neta, outra, mas também as demais mulheres negras.

A obra nos aproxima a compreender a história da senhora que ensina a lidar com a dor engolindo o choro. A artista lida bem entre a relação com o espelho e o público, ecoando sentenças, como “eu acho que o afeto é um hábito”. O desafio da diretora Juliana do Espírito Santo é ampliar o espaço cênico ou a movimentação da atriz, a fim também de potencializar mais a sua expressão vocal.

Não à toa é marcante quando o palco se torna num rito de canções e bençãos de arruda. Último ato, é uma verdadeira homenagem ao público em geral – em especial às mulheres negras presentes. Sem detalhar, a peça é uma moldura coerente a dar visibilidade a quem é silenciada diariamente.

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