Opinião: Monólogo ‘Não Ela’ é um tratamento de choque preciso para plateias

Por Lincoln Spada | Foto: Lairton Carvalho

Chega ao 34º dia “o procedimento que despe o passado obsceno de uma mulher para a plenitude de sua existência”. E o monólogo ‘Não Ela – Experimento Vênus Pudica’ logo nos leva à freudiana pulsão de morte. Fruto da autenticidade de Letícia Tavares no trabalho mais potente da atriz que já vi em Plínio Marcos, García Lorca e musical infantil.

Em um jogo de luzes e sombras, a peça de plásticos infinitos é um tratamento de choque para a plateia. Nas fileiras, algumas mulheres consentiram com a personagem, em lágrimas ao tentar recordar a cicatriz cesariana. Lá se vão memórias do primeiro banho e das incertezas de quem sente na pele a cultura maternal vigente.

Entre homens, a cena de um striptease é sucedida por expressões de repulsa interna. A atriz relata uma série de assédios desde criança por um primo ou um segurança de mercado, até fazer oral por quem lhe prometera amor eterno. “As coisas foram acontecendo sem me permitir a sentir” repercute como síntese das experiências de afeto de boa parte das mulheres.

O processo de (des)construção do papel da mulher na sociedade corta toda a montagem: pulverizada de dualidades. Ora a virgem santa, ora a femme fatale. E a artista ocupa e decupa cada lugar-tempo do teatro, com direito a fôlegos, como hablar amores. Enfim, é uma carga emocional da personagem que extravasa a ponto de nos atar até o fim. À ela, cabe aninhar, temer ou admirar?

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