Opinião: Quando um anjo janta conosco em ‘Nostalgia do Amor Ausente’

Por Lincoln Spada | Foto: Lairton Carvalho

A expectativa de reencontrar quem ama é um prato de angústia e poética. E a atriz Pri Calazans janta conosco tais fenômenos em ‘Nostalgia do Amor Ausente’. Baseada no conto homônimo do gaúcho Walmor Santos, a 830 quilômetros do Teatro Braz Cubas, a peça aborda a distância de dois anjos amantes. Ou melhor, almas gêmeas.

A melancolia está entre cigarros, a cadeira vazia, a luz noir de um ventilador de teto sob o holofote. Ali, Lúcifer narra a separação divina com Gabriel: exilado por ter sido mais amado que o Pai. A releitura de fatos bíblicos – Éden e Quaresma – são ambientes para interpretações sutis sobre casais desfeitos e, na dramaturgia, o estigma e a reclusão de homossexuais.

No palco, uma ironia implícita (o anjo caído como uma mulher) é uma descontrução dos padrões barrocos (atriz e retrato do amado são negros). A sutileza não é do romantismo ipsis litteris do conto teatralizado, pois a força vem do repertório, colorido pelo piano de Marcelo Marinho. Ponto da diretora, Déia Oliveira.

O brega e o biscoito fino se entrelaçam no palco. ‘Era pra ser’, de Bethânia, ‘Siga seu rumo’, de Pimpinela, ‘Vá pro inferno com seu amor’, de Milionário e José Rico, ‘Não’, de Tim Bernardes. Todas as melodias enaltecem o potencial de Pri em cena, que brilha quando performática. Se cenas da prosa até ofertam senso de perdão ao anti-herói, é o musical que nos aplaca em dores existenciais.

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