Opinião: Um fantástico balé do cotidiano em ‘Resíduos’

Por Lincoln Spada | Foto: Bruna Quevedo

Salgadinhos, pétalas e um samba-canção de outras gerações. As dimensões da caixa preta se emboloram no cruzamento do que o trio de atores descarta no decorrer de ‘Resíduos’. A não-palavra do elenco é substituída por um fantástico balé do cotidiano. Não que sons ilustram a maioria da peça, mas se cadencia um ritmo nos passos dos artistas.

A individualidade no vai e vem de cada ator tarda os clímaxs: pontualmente quando trio ou duplas. Sozinhos, Felippe Alves, Marcus Di Bello e Paola Caruso retratam nossas intimidades, como uma ida ao cinema ou um desleixo no quarto. Cabe aqui memórias da plateia ou uma reflexão sobre a quantidade de lixo diário que geramos.

Juntos em cena, a sustentabilidade é sobreposta pelo imaginário da plateia. Um êxodo representado quando uma deixa a mala, outro abre os pertences. Noutrora, a falta de entrosamento refletida quando revezam suco e bolachas. O ápice é a subjetividade do cortejo dos atores enfileirando cadeiras a um contragosto de Paola a se assentar.

Também há risos do público, durante áudios icônicos de novela. O jogo lúdico de emergir o imaginário comum é o forte da peça dirigida por Dario Felix. O resultado da dramaturgia coletiva é uma evolução de abstrair estéticas e pautas de elenco (‘Meu Deus…’) e direção (‘Sleep Mode’). Uma interpretação inspirada dos versos de Drummond: “Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim?”.

 

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