Arquivo da categoria: Críticas

Cultura perde representatividade na próxima Câmara de Santos

Por Lincoln Spada

Os segmentos de cultura de Santos perdem a maioria de seus representantes na próxima gestão na Câmara de Vereadores (2017 a 2020). Se a atual legislatura tinha quatro membros apoiando o setor, os artistas e coletivos devem ter inicialmente o respaldo de apenas dois parlamentares nesses anos futuros: ambos da oposição, Telma de Souza e Chico (PT).

Desde a saída em 2012 do ex-vereador e ex-secretário da Cultura, Reinaldo Martins, os grupos artísticos e festivais tradicionais da cidade se tornaram pautas de projetos de lei e emendas de quatro parlamentares. Futuro vice-prefeito, Sandoval Soares (PSDB) enviou verbas à Secult e criou a Semana da Cultura Caiçara. Prefeiturável na última eleição, Marcelo Del Bosco (PPS) no atual mandato homenageou o Tescom, promoveu audiências e encaminhou projetos sobre políticas culturais.

Não alcançando a reeleição para o Castelinho, Douglas Gonçalves (DEM) e Professor Igor (PSB) foram os vereadores que mais enviaram verbas para eventos dos artistas locais. Entre suas ações, Douglas já destinou recursos ao Festa – Festival Santista de Teatro e criou a Semana Municipal do Jazz. Por sua vez, Igor também colaborou com emendas para o FESTA, o Fescete – Festival de Cenas Teatrais de Santos e o Curta Santos – Festival de Cinema de Santos, além de corpos estáveis do município.

Outros candidatos

Sim, outros vereadores encaminharam emendas para a área da cultura, em geral, para as ações promovidas pela própria Secult. Cacá Teixeira (PSDB) colaborou com a Orquestra Sinfônica e a Escola Livre de Dança; Ademir Pestana (PSDB) para projetos de artes urbanas e capoeira; Sadao Nakai (PSDB) para o departamento de eventos culturais; Professor Kenny (PSDB) e Adilson Júnior (PTB) destinaram recursos respectivamente para a Associação TamTam e Instituto Arte no Dique. Todos esses citados foram reeleitos.

Demais vereadores colaboraram em menor proporção ou pontualmente com o setor cultural. Por exemplo, da atual comissão permanente de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia (Professor Igor, Murilo Barletta e Sérgio Santana), apenas Santana (PR) continuará no Legislativo. Com pouca atuação na área cultural, Sérgio Santana aprovou nos últimos quatro anos o Dia do Teatro, o Dia da Música Gospel e a Semana Cultural do Artista Especial.

Nestas eleições, uma dezena de novos candidatos se apresentaram como representantes do setor cultural. Um grupo que envolvia poeta, músicos, arte-educadora, diretora teatral, servidora pública, entre outros simpatizantes. Em partidos distintos, nenhum conseguiu se eleger – mas, juntos, não teriam votos suficientes à quociente eleitoral. O músico Maurão (PSOL) e o próprio Reinaldo Martins (PT) foram os vices em chapas respectivamente das prefeituráveis do PSOL e do PCdoB, perdendo para o atual prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB).

Perspectiva dos novos vereadores

Com a despedida dos quatros atuais vereadores na Câmara de Santos que mais colaboraram com as demandas da sociedade civil, o histórico da nova composição no Castelinho aponta que somente dois parlamentares estejam mais relacionados às demandas dos artistas locais. A ex-prefeita Telma de Souza (PT) sempre foi uma das maiores colaboradoras com festivais e grupos artísticos nestas últimas décadas, e estava afastada de cargos eletivos desde 2014, quando saiu do papel de deputada estadual. E mesmo estreando no Legislativo, Chico do Settaport (PT) já tem em sua fundação trabalhos próximos à cultura, como projetos de comunicação e economia criativa.

Rodrigo Savazoni: Memórias da Tarrafa Literária (Parte 1)

Por Rodrigo Savazoni*

Na coxia do Teatro Guarany, um pouco antes de subirmos ao palco, conheci o escritor Pepetela e sua esposa Filomena. Tivemos uma conversa amistosa e lhes revelei que em meu index afetivo ‘Geração da Utopia’, de Pepetela, era um duplo de ‘A Condição Humana’, de André Malraux.

Um pouco pelo estilo, porque são romances políticos, gênero pouco explorado no Brasil, mas sobretudo por retratarem o sonho e seu fim a partir de um olhar de dentro da luta social.

0Perguntei a ele se Malraux foi uma influência e ele disse: “sem dúvida”. Rememorou que o leu em francês quando viveu em Argel, antes de ingressar na guerrilha e, posteriormente, no governo de Angola. Pepetela citou então o aforismo de Malraux: “o século XXI será espiritual. Ou não será”.

Disse que, tomado pelo agnosticismo que marca as esquerdas, especialmente a comunista, não compreendeu o que o escritor francês e ex-ministro de De Gaulle dizia. Mas naquela coxia, disse que agora tudo fazia muito mais sentido.

A questão é que Malraux, nesse artigo de 1955, em que trata do século que estaria por vir (este em que agora vivemos), reclamava justamente aquilo que espiritualidade pode evocar em nós: tolerância e compreensão.

Em sua visão de maturidade, ele que lutara nas brigadas internacionais da Guerra Civil Espanhola e ao lado dos anti-colonialistas na Indochina, passou a ver que “o principal adversário da tolerância não é agnosticismo, mas o maniqueísmo”.

Para mim, faz muito sentido pensar a espiritualidade como essa dimensão que nos leva além de nós (transcender) e, por isso, então, compreender e tolerar o outro. Nesse movimento, a alteridade nos ajuda a combater o maniqueísmo, essa expressão binária redutora que nos torna vis, sem que percebamos.

*Escritor, jornalista e realizador multimídia. Como autor, escreveu ‘Os Novos Bárbaros – A aventura política do Fora do Eixo’, ‘Poemas a uma mão’, ‘Culturadigital.com.br’, e escreveu artigos para outras publicações.

Opinião: Só Alfredo, Kayo e Marcelo debatem com o Conselho de Cultura em SV

A roda de conversa sobre cultura com os prefeituráveis de São Vicente contou com a presença de Alfredo Martins (PT/13), Kayo Amado (Rede/18) e Marcelo Omena (PCO/29), no último dia 13, na Associação Comercial de São Vicente. O evento foi realizado pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais de São Vicente (CMPC-SV). Somente os candidatos Fernando Bispo (PR/22) e Paulinho Alfaiate (SD/77) justificaram as ausências, os demais haviam confirmado o comparecimento.

“É importante lembrar que este encontro temático com os prefeituráveis é a primeira iniciativa na história da cidade em poder discutir sobre políticas culturais durante o período eleitoral, e revela o empenho da sociedade civil em dialogar com os candidatos para esta partilha de opiniões e perspectivas sobre a cultura vicentina”, explica a presidente do CMPC-SV, Ivy Freitas.

Com cerca de 70 participantes, o evento contou com a assinatura de pacto dos candidatos com as cartas do 4º Fórum Vicentino de Cultura e do movimento artístico que demanda que o Mercado Municipal seja centro cultural, como também rodadas de perguntas direcionadas aos prefeituráveis, com direito a réplica e tréplica entre os presentes. Ao todo, foram 18 perguntas – sendo 12 refernete ao Plano Municipal de Cultura, e outras seis sobre as dúvidas da plateia presente.

Fala dos candidatos

Questionado sobre o aumento da dotação orçamentária e outros recursos para o Fundo Pró-Cultura, Kayo Amado defendeu a destinação de parte do ISS para complementar atividades culturais e fortalecer o orçamento e editais. “A cultura pulsa de baixo para cima. Precisamos valorizar os grupos existentes em regiões descentralizadas e ter uma interlocução com a classe artística para pautar políticas públicas assertivas para o setor”, afirmou.

Alfredo Martins defendeu durante toda a sua fala a necessidade de organizar as contas do município. “Esse é o grande desafio. Somente após arrumarmos a casa é que teremos um orçamento real para pautar propostas do segmento”. O candidato destacou também a manutenção das ações já desenvolvidas para Secretaria de Cultura e o acerto do quadro de funcionários da pasta.

Já para Marcelo Omena, a Prefeitura precisa ser vista como uma empresa e gerida como tal: “Valorizamos a arte gratuita, mas precisamos gerar recursos através dos espetáculos também. A cultura precisa ser autossustentável e paga com a própria cultura”. O registro dessas falas está no Diário do Litoral.

Avaliação da roda de conversa

De todos os prefeituráveis, já se mostram como “vencedores” do encontro quem participou dele: Alfredo Martins, Kayo Amado e Marcelo Omena. Cada um preparado ao seu modo sobre o Plano Municipal de Cultura. Só que sobre as políticas do setor, nenhum deles se comprometeu com causas específicas nos questionamentos: o artesanato nas praças; o Parque Vila de SV, o Cine 3D ou o CEU do Humaitá como Poder Público ou OSs; projetos para música autoral; o ruído dos artistas de rua com os fiscais do comércio que os confundem com ambulantes.

Por sua vez, cada candidato também apresentou perspectivas distintas às políticas culturais. Embasado na crise financeira, Alfredo Martins citou sobre cortes de comissionados e verbas. Mas hoje a Secult mal chega a 25 membros, sendo quase a metade de cargos de confiança, sem falar que precisa ter mais efetivo de técnicos para gerir o Cine 3D e o CEU das Artes no Humaitá, ambos hoje em obras. Estimado em menos de 1% do orçamento municipal, as verbas da Secult foram ainda mais reduzidas: não passa de 0,3%.

Quando questionado sobre a polêmica da instalação da estátua de Iemanjá ou da ocupação atual do artesanato nas praças, Kayo Amado não contextualizou ou prometeu agir na regulamentação dessas manifestações, mas de buscar o maior entendimento no diálogo. Já Marcelo Omena falou deu um tom de privilegiar o entretenimento em vez da arte no projeto de uso do inacabado Teatro Municipal, em detrimento do real cenário das expressões artísticas da Cidade.

De modo geral, os dois prefeituráveis que argumentaram melhor e ressaltaram sobre o diálogo com a população foram Alfredo Martins e Kayo Amado. Este se mostrou mais interessado e afim de conversar com os artistas, citou nomes dos grupos e artistas da cidade, citou jornais e estava mais aberto em uvir a comunidade em seu discurso. Por sua vez, Alfredo falou muito do histórico da cidade, da passagem deles pelo Poder Público, mas ressaltou a questão da crise financeira e do orçamento, o que impediria para ele oferecer melhorias à cultura. No entanto, ressaltou estar com o pé na realidade econômica do município.

*Lincoln Spada

Opinião: Pelo direito dos artistas de rua em Santos e Região

Artista de rua é um trabalho. E como trabalho, não é uma esmola, nem ameaça social, sequer símbolo de desacato ou subversão. Apesar dessa frase ser óbvia, parte da população sentencia noutra ordem.

Na última quinzena, as redes sociais abordaram o relato de dois artistas circenses Pablo Bailoni e Révi (que pesquisam e trabalho na área há anos) que tiveram em seu exercício do trabalho desde seus malabares até uma bicicleta detida pela Guarda Municipal em Santos. “Neste dia 25, nós artistas de rua, sofremos uma ação truculenta da Guarda Municipal. A gente tava fazendo nosso trabalho na rua e foi impedido de trabalhar”, comenta Pablo em depoimento pela página Santos Invisível. “A gente quer ter o direito de trabalhar”.

Questionada pelo blog, a Guarda responde que “há queixas com relação a presença de malabares, nos cruzamentos de semáforos, na cidade. Na maioria das vezes, como no fato acontecido, os artistas estavam solicitando dinheiro aos motoristas, o que é proibido por lei”.

A GM ainda mantém os pertences do par de artistas e informou que poderia ser retirado no almoxarifado municipal. No entanto, há uma multa a ser paga, pois segundo a entidade, a ação no semáforo fere com o Código Brasileiro de Trânsito. A legislação vigente proíbe todo ato que possa constituir perigo ou obstáculos para o trânsito e na lei municipal que artistas sejam remunerados na rua.

De acordo com a lei municipal (3531/68), a exploração ou utilização de publicidade e propaganda em logradouros públicos depende da licença prévia da Prefeitura – permitindo, portanto, panfletagens comerciais no trânsito. “A Guarda recebe instrução para efetuar qualquer tipo de abordagem correlata a função, pois trabalha-se no cumprimento da legislação vigente”.

No último dia 31, essa mesma cena se repetiu, mas em relação a um grupo de dança de rua da cidade. “Algo precisa ser feito, pois não merecemos mais sermos humilhados por esses senhores que ao menos conseguem conversar com a pessoa. Nós trabalhamos com a arte, levando ela como forma de salvação para jovens que nem ao menos tem a oportunidade de conhecer uma cultura de outro pais”, denunciou Julio Mad nas redes sociais.

Logo, esse tipo de situação aos artistas de rua não é um caso excepcional, nem Santos é uma cidade excepcional na Baixada Santista. Mas é mais do que necessário que os gestores públicos de maneira integrada sensibilizem tanto a população, quanto seu quadro de funcionários de que o artista de rua também deve ter seus direitos assegurados quanto ao ir e vir.

E de que seja possível a divulgação de seus trabalho, claro que evitando obstrução de vias ou da lei do silêncio. É necessária esta garantia de direitos desde o artesão hippie até o estatuísta, desde o músico na praça até o grupo de capoeira no bulevar.

Afinal, a criação da obra artística não é puro hobby ou lazer, mas o ganha-pão desta população. Alternativas não faltam para serem discutidas com a comunidade. Em São Paulo e Belo Horizonte, decretaram sobre os horários de atuação das manifestações artísticas nas vias, sem licença prévia.

Nas capitais europeias, artistas estrangeiros precisam se cadastrar em órgãos públicos. Mas nem quando repreendidos tem seus materiais de trabalho levados pelos fiscais sujeitos a algum tipo de multa.

Entendendo a vocação turística da Baixada Santista, é essencial que a região seja mais acolhedora e mais viva culturalmente. A arte sempre inova e cativa espaços públicos. Em tempos eleitorais, é preciso que os gestores sejam ainda mais sensíveis a esse tema. Mais do que evitar a discriminação, temos que ter um diálogo permanente com os artistas de rua.

*Lincoln Spada

Opinião: O amadurecimento do repertório teatral em ‘Meu Deus…’

A maior virtude do teatro é instigar o público tanto para o diálogo durante o jogo lúdico, quanto para o debate e a reflexão após o espetáculo. E esta vocação se faz presente durante toda a nova peça da Cia Trilha de Teatro e Grupo Tescom, ‘Meu Deus…’, em cartaz atualmente no Tescom, justamente pelo acerto no ritmo alucinante do espetáculo e pela temática, que une na perspectiva de jovens a crise de valores das principais instituições sociais: a família e a religião.

‘Meu Deus…’ é aquele teatro realizado no momento certo, na hora certa. Trata-se de uma temática mais em voga na atualidade, quando temos discussões acaloradas de hoje em dia sobre a intolerância religiosa e as consequências do esfarelamento das famílias e de modelos de ensino às novas gerações – vide as pautas de terrorismo e fanatismo religioso, do Estatuto da Família e da Escola sem Partido que permeiam de Brasília até o jantar em nossos lares.

Com uma dramaturgia de Ronaldo Fernandes embasada em questionamentos filosóficos, que seguem de Nietzsche (Deus morreu?) a Baumant (sociedade líquida?), esses discursos caem como uma luva nas mãos do quinteto jovem elencado na peça, que abordam cenas sobre gravidez precoce, identidade sexual, doenças sexuais, uso de drogas ilícitas, entre outros assuntos.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ao mesmo tempo, essas questões de Ale, Eli, Edu, Isa e Val correspondem às mesmas de outras juventudes desde os anos 70, o que pelo figurino acertado do espetáculo, de tons subjetivos e levemente retrô, torna a peça como atemporal. Ao meu ver, esse espaço e tempo indeterminados do espetáculo é um tanto orgânico às cenas, até porque se trata de um processo teatral em que o diretor Ronaldo, jovem há mais tempo, conversa diretamente com os jovens mais recentes. Percebe-se pela eclética trilha musical, perene há gerações.

Múltiplas interpretações

Para a plateia em si, recomendo estar acompanhado. Bem acompanhado, até de seus filhos adolescentes. Apesar de serem temas secos, há uma fluidez presente que não ataca o olhar nem de um fervoroso ex-coordenador de juventude católica (neste caso, eu). Mais do que outras obras teatrais, nessa por abranger um universo subjetivo, de papo cabeça e permeado de referências, é preciso que o espectador interaja com a companhia.

Em um palco dividido entre atores e público, toda a cena exige nossa atenção e, rica em detalhes, é colocada à prova dos holofotes laterais – aliás, algo que pode ser dosado em relação à disposição da plateia que fica no centro do palco. Na estreia, estive com outros dois amigos, jovens, jornalistas. Um trio admirado pela narrativa e estética, mas cada um compreendendo a obra em seu respectivo repertório, o que rende múltiplas opiniões, todas corretas ao meu ver.

5Por exemplo, um entendeu que, no entremear de cenas, os passos acelerados e os papos monossilábicos dos personagens se referia à atual juventude entretida em Messenger e Whattsapp. Outro já observou que os sons de vento e a maquiagem do elenco significasse que talvez todos já estivessem num plano sobrenatural.

Se um interpretou a peça como Ale (Marcus Di Bello) como o narrador (afinal, eram suas interlocuções que desenvolviam a trama), outro observou que o ápice seria a performance pra lá de divina de Val (Dafne Carina), e ainda outro que pensava que o teatro estava no entorno do drama da personagem Eli (Flávia Simões), na angústia de um teste de HIV.

Maturidade do repertório do grupo

Ou seja, ‘Meu Deus…’ sugere um amplo leque de possibilidades, com o elenco completado por Paola Caruso e Felippe Alves, em tramas paralelas sobre o uso de drogas ilícitas – cada um com seu devido destaque no palco. Aliás, o que não falta são destaques neste espetáculo que indaga sobre onde estaria a orientação e a personificação do divino num mundo de mazelas em que vivemos.

Uma maturidade em cena tão profunda que pode ser um empecilho para a companhia em futuras produções. Para quem acompanha o cenário teatral, a estética bem entrosada da companhia se dá por elementos que já foram experimentados no repertório de cada um envolvido no palco e na produção artística desde 2013.

Como um resultado cênico bem estruturado com referências de vários núcleos criativos da cidade – que de fato é. E caso a próxima produção não venha a ser uma trilogia das releituras contemporâneas de Ronaldo Fernandes iniciada em ‘Nó na Garganta’, os novos processos terão que ser reinventados para garantir novas vivências e narrativas junto ao público.

Serviço

A primeira temporada de ‘Meu Deus…’ segue até 14 de agosto, com sessões às sextas-feiras e sábados às 21h e aos domingos às 20h, no Tescom (Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 195/Santos). A peça tem ingressos a R$ 20.

*Lincoln Spada

 

Relatório: Jornais da Baixada Santista dedicam 4% do conteúdo a artistas locais

O repórter esportivo da Baixada Santista vai ao treinos, jogos, faz análise, entrevistas e a imprensa até patrocina os eventos esportivos na região (do futebol ao atletismo, do tênis ao surf). A cobertura é tão intensa que você deve saber o nome do estádio do Santos, o nome do vereador que já foi nadador, os surfistas que ganharam o mundo e até com quem o Neymar beijou na última semana. Não à toa a Grande Rio homenageou a cidade de Santos dando mais destaque aos Meninos da Vila.

O repórter policial também vai às delegacias. Quem escreve sobre política, acompanha audiências e sessões da Câmara. O repórter que cobre Porto, Sindicato ou Indústrias também estão junto aos setores. Mas como a imprensa regional cobre a cultura local? Enfim, um relatório desenvolvido pela iniciativa do jornalista Lincoln Spada mostra que os principais veículos da Baixada Santista dedicam apenas 4% do seu conteúdo para divulgar ações culturais produzidas por artistas da região.

> Relação histórica do jornalismo e cultura na Baixada Santista
> Metodologia do relatório: veículos e período escolhidos
> Análises: Mídia impressa | Mídia online | Mídia de TV

Ao todo, foram quantificadas as coberturas de 12 veículos (mídia impressa, online e TV) entre 5 e 12 de maio de 2016. “A ideia do levantamento não é de questionar a qualidade dos veículos ou de seus conteúdos, mas de que a imprensa regional está cada vez mais afastada dos artistas locais”, diz. Desde os anos 50, com a jornalista Patrícia Galvão, o desenvolvimento das artes (cênicas) na região era intrínseco à qualidade do jornalismo da Baixada Santista. Ambas as partes viviam numa simbiose de reflexões no vai-e-vem da ribalta.

Para citar alguns, surgiram críticos famosos, como Carmelinda Guimarães, no jornal A Tribuna, e Roberto Peres, no extinto Diário de Santos. A primeira fez Doutorado em Teatro, ministrando em universidades. O outro até alcançou a direção da primeira escola pública de teatro da Baixada Santista, a Escola de Artes Cênicas Wilson Geraldo. Ao mesmo tempo, o poeta Narciso de Andrade e Plínio também assumiam espaços n’A Tribuna e Jornal da Orla.

Causas e consequências

Hoje, o relatório aponta que a maior parte das reportagens se tratam de uma agenda de atrações. Além da falta de cadernos ou seções permanentes sobre artes, a imprensa também ocupa boa parte do espaço com atrações na capital e produções do eixo Rio-São Paulo. E quando ocorre uma reportagem de cultura local, geralmente é ligada à instituição – seja por um patrocinador do jornal, por um repórter ou colunista que faz assessoria ao artista, etc.

“Sempre há exceções. Mas, no geral, existe uma falta tanto de estímulo dos donos de veículos em investir na cobertura do setor, criando seções específicas, como também dos próprios repórteres em buscarem formação, frequentarem os eventos e conhecerem os artistas da Região”, comenta o jornalista. “Quanto menos a imprensa conhece um tema, menos potencial de visibilidade, de transparência, de investimentos, de criação, etc”.

As matérias de cultura também são de proximidade geográfica do jornal: já que os veículos se concentram no Centro de Santos, Gonzaga e Boqueirão, boa parte das matérias regionais são da agenda destes bairros. As consequências é que sem uma imprensa presente, falta-se a cobertura regional do setor e contribui para uma certa invisibilidade.

Invisibilidade de artistas e eventos não promovidos por seus veículos, patrocinadores ou colaboradores; invisibilidade dos demais espaços culturais da Baixada Santista – reduzindo o potencial de plateias; invisibilidade de análises críticas – reduzindo o potencial de qualidade das obras artísticas; invisibilidade até de reportagens sobre a política cultural – reduzindo a transparência em orçamentos, gestores, programas, planejamentos, etc.

*Lincoln Spada

 

Análise: Virada Cultural em Santos ainda cumpre o seu papel?

A Virada Cultural Paulista ainda cumpre o seu papel em Santos? Toda política pública, por ser uma ação pública, costuma ser analisada por todos. Entre hoje e segunda-feira, todos os jornais da Baixada Santista estarão voltados ao evento que costuma reunir cerca de 30 mil pessoas – um dos três maiores eventos de multidão na Baixada Santista, sendo acompanhado pela ação esportiva dos 10 Km do Grupo A Tribuna e pelo evento beneficente e social da Ação do Coração. Mas as pautas estarão voltadas aos shows, comentários dos artistas e de um público, que marcará presença em selfies nas redes sociais.

Será que há uma avaliação da comunidade, da imprensa e dos gestores antes e depois do evento para ver se atingiu o objetivo? Será que este é o único papel de uma das principais itinerâncias de eventos do Governo Estadual? Não era na época de sua criação. O programa foi uma marca da gestão Serra (PSDB) na Prefeitura de São Paulo em 2005, e depois como governador em 2007, servindo de referência para ações de governos de Minas Gerais e Paraná. A ação era baseada nos circuitos artísticos de Paris, chamadas ‘noites claras’, em referência à agenda musical madrugada adentro.

A efervescência cultural estimulada pelo governo de São Paulo era com foco na revitalização do centro da capital paulista, uma ação permanente integrada com outras áreas para reestruturar o desenvolvimento na região. Na mesma época, Santos começava o programa Alegra Centro, com o mesmo objetivo de captar comerciantes e investidores da área. Logo, a Virada Cultural atingia o objetivo de servir de chamariz para atrair novas casas de baladas e bares. Uma década depois, boa parte das atrações noturnas de Santos já se encontram na região.

Como foi na capital?

Na capital, a Virada Cultural é assumida pela Prefeitura com verba de R$ 15 milhões e atingindo 4 milhões de pessoas. Na ponta do lápis, o benefício seria de que uma programação custaria R$ 4 por espectador. À medida que foi revitalizando o centro, agora os palcos são distribuidos em outros bairros, como atraindo também a perspectiva de investidores e abertura de comércios e palcos na descentralização da cidade.

Por lá, o evento foi num final de semana comum, o que motivaria um fluxo de turistas apenas para acompanhar exclusivamente a programação, além da própria comunidade. Você deve conhecer algum amigo que subiu a serra para ver um dos shows. Ao mesmo tempo, a programação foi feita por uma curadoria com artistas e agentes da cidade, propiciando que a maior parte dos palcos fossem de artistas da capital, fortalecendo a cena local.

Como será em Santos?

Em todas as outras cidades, a Virada Cultural é um programa do Governo de SP em parceria com prefeituras e entidades. A Secretaria de Estado da Cultura destina cerca de R$ 5 milhões, e cada uma das mais de 20 cidades financia palcos e auditórios para os shows, um custo médio de R$ 2 milhões. Ao todo, 1 milhão de pessoas acompanha o evento, um custo benefício inferior se comparado ao da capital (um ingresso valeria quase o dobro, R$ 7). Mas também não se trata de uma questão econômica, pois o fomento a arte é necessário.

A lógica é de que o evento que, noutros anos, já agregou mais de dez espaços na Orla e Centro de Santos, com mais de 60 atrações, hoje resiste em quatro núcleos: Guarany e Praça Mauá, além de ações esporádicas no Sesc e no Museu do Café. Na verdade, a programação também é mais espaçada nos palcos principais. Efeitos da crise econômica, sim. Mas será que hoje é o centro que precisa ser mais revitalizado na cidade, tendo morros (com a Praça Guadalajara), Zona Noroeste e até a Vila Nova como focos da atual gestão? E em nível regional, será que é Santos a cidade que precisa ser mais revitalizada com fomento às artes?

Aí vem outra questão. Se na virada à paulistana, a programação é escolhida pelos artistas da cidade e privilegia em promover os artistas locais, nas viradas estaduais, é o ao contrário. Já que a agenda não é feita em conjunto com a Prefeitura, a curadoria costuma também promover a maior parte da agenda como intercâmbio dos grupos da capital e artistas de renome. Atualmente, são 21 atrações. Apenas tês delas pertencem à produção regional (Preta Rara, Banda Bula e Clube do Choro), ainda um número equivalente de grandes artistas que estarão no evento e tem uma carreira autossustentável (Maria Gadu, Alceu Valença e Angela Ro Ro).

Nada contra os artistas de renome, são eles quem vão atrair o público para acompanhar o restante das agendas, mas será que não seria mais equilibrada a agenda se a curadoria fosse conjunta? Não à toa, a Virada Cultural criou uma disputa (saudável) do movimento cultural fazer uma programação alternativa de Virada Ilegal. Mais um sinal para pensar se o evento não precisa experimentar novos modelos para atingir estes objetivos na cidade.

*Lincoln Spada