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Crítica: Em ‘Blitz’, teatro de rua provoca o senso crítico em tempos sombrios

Por Revista Relevo e Simone Carleto | Fotos de Dino Menezes (capa) e Rodrigo Montaldi

Simone Carleto á artista pedagoga, pesquisadora teatral e coordenadora da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos; doutoranda no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Em setembro de 2015, ela assistiu ao espetáculo ‘Blitz – O império que nunca dorme’, peça recentemente censurada pela PM na mesma Praça dos Andradas. Segue a crítica teatral na íntegra.

a9O espetáculo Blitz, da Trupe Olho da Rua, uma das companhias que fazem parte do Movimento Teatral da Baixada Santista, organizador do Festa 57, foi apresentado em 5 de setembro, sábado, já que no dia anterior, para o qual estava previsto na programação, houve chuva que impossibilitou a montagem. Em espaço aberto, desta vez na Praça dos Andradas, entre o Teatro Guarany e a Vila do Teatro, espaço de ocupação de grupos do Movimento, foram colocados os elementos que seriam utilizados em cena.

Bonecos de tecido preto foram colocados como almofadas, formando uma semi-arena, convencionando o espaço de representação com andaime de um lado, instrumentos para a trilha sonora que seria executada ao vido do outro e, ao meio, arquivos e microfones que foram utilizados com funções diversas durante o espetáculo.

A palavra blitz deriva da palavra alemã blitzkrieg, que em português significa relâmpago. Assim, o espetáculo é iniciado com uma intervenção na avenida que ladeia a praça e a Vila, tendo como inspiração crítica formal esse tipo de abordagem repentina de fiscalização realizada pela(s) polícia(s).

a91A temática abordada é a questão da (in)segurança pública, e de como ela é criada, tendo como ponto de vista a busca do estranhamento de procedimentos normatizados socialmente. Atores e atrizes com “roupa de guerra” assumem seu papel de sujeitos históricos na cidade de Santos, estado de São Paulo, Brasil, América Latina. Portanto, em condição periférica, tomam atitude bastante evidente no sentido de lutar por justiça social: ‘Nossos mortos têm voz’.

No que diz respeito à temática, a obra trata da história da segurança pública no País, apresentando evidências de um estado que se configura burocrático, violento, com inúmeras contradições. Assim, é estabelecida narrativa em quadros independentes, que reiteram a ideia da presença do autoritarismo a das formas de coação dos indivíduos.

A estrutura épica e tratamento cômico atribuem ao espetáculo a possibilidade de interlocução com o público e principalmente com jovens, que vivenciam a realidade das cidades (infelizmente, o que o Grupo retrata é bastante comum na maior parte delas). Desse modo, a Trupe utilizou recursos estruturais da linguagem midiática, como é o caso da televisão (programas de auditório, telejornais, programa infantil) e da mídia impressa (jornal, revista, cartazes), deflagrando discursos naturalizados, de modo absolutamente ácido.

Foto: Rodrigo Montaldi

Tomando a crise como elemento constitutivo do processo de decisão a partir da necessidade de transformação, a narrativa coloca em questão e em relação pressupostos ideológicos, como o enfoque da formação escolar e, por exemplo, a presença de atividades “culturais” a serviço da propagação de preconceitos e arbitrariedades. Para elaboração de argumentos coerentes que atribuam sentido para a atuação político-social, diversas situações são sobrepostas para que o público possa refletir.

A frase ‘Quem não vive para servir, não serve para viver’ é proferida pela personagem que apresenta um funcionário público. Este, distante da aquisição de consciência crítica, revela-se vítima do sistema, porém utiliza argumentos inculcados pela formação religiosa. A paz, defendida por Mahatma Gandhi, autor da frase citada, é termo banalizado na boca de muitos líderes governamentais, religiosos e civis da atualidade, como mais um produto de abstração, em que se lança ao vento uma pomba morta esperando que essa possa voar.

a8Expedientes do teatro popular e de outras linguagens artísticas são utilizados pela Trupe Olho da Rua para provocar o senso crítico em tempos sombrios como o que estamos vivendo. Alguns dos exemplos da criatividade do Grupo são: fábula da Chapeuzinho Vermelho adaptada e com a estrutura textual de boletim de ocorrência; comediante da “moda” com “piadas’’ preconceituosas com relação aos trabalhadores; acompanhados de refrigerante de cola, coxinha e sensacionalismo.

Além do grafite sendo feito simultaneamente ao espetáculo, nos tapumes em frente ao prédio histórico, chamando também a atenção para o espaço público que a comunidade espera ser reaberto. A ação cultural do coletivo se complementa com o bate-papo que aconteceu depois da apresentação, e que se caracteriza em parte fundamental do Festival, ligada à oportunidade de julgamento do público, parceiro essencial na busca de atitudes que possam alterar a (des)ordem social.

Ocupação cultural: “A gente precisa resistir, porque a Praça é Nossa”

Por Lincoln Spada

Realizada na Praça dos Andradas, a terceira edição da festa ao ar livre ‘A Praça é Nossa’ quase foi abreviada. A Guarda Municipal e a Polícia Militar tentaram impedir o evento temático ‘Dia das Bruxas’, atividade gratuita idealizada por alunos da Escola de Artes Cênicas, do Teatro Guarany (situado na própria praça), no último sábado. Os agentes públicos permaneceram no local no decorrer da madrugada.

Nas redes sociais, frequentadores alegam que os agentes públicos tentaram impedir a manifestação artística na rua, por não ter autorização prévia da Prefeitura. “Já por volta da meia-noite, a PM proibiu a festa por falta de respaldo para instalar equipamentos na praça”. Em vídeo, estudantes e artistas solicitam às centenas presentes: “Não desistam, não vão embora (…). A gente precisa resistir e mostrar para eles [agentes públicos] que a praça é do povo e que ‘A Praça é Nossa'”.

Mensagens de evitar desordem, atos de violência, depredação pública ou de poluição no local foram repetidas tanto na página do evento no Facebook, quanto nos vídeos que circulam pela Internet. A alternativa encontrada foi transferir os equipamentos de som para o telhado da fachada da Vila do Teatro, numa das esquinas da praça. “Daí, teve policiais que reclamaram porque havia quem atrapalhasse o fluxo de veículos. Então pressionaram pelo fim do evento”, comentou um aluno da EAC.

Outro artista anota uma solicitação de um Guarda Municipal, que, por conta do acúmulo de pessoas, as festas ao ar livre passassem a ser realizadas em espaço fechado, na Arena Santos. Sem se identificar, um organizador cita que a PM fez eventuais ameaças aos responsáveis para cessar a festividade, mas nem a Guarda ou a PM cometeram abordagens violentas ou abusivas contra os presentes. A resistência foi considerada um sucesso pelo público – estimado em até 4 mil pessoas, mais que o dobro da edição de setembro.

“Parabéns aos organizadores, que mesmo com todos os obstáculos não desistiram da festa! Vocês são fodas!”, publicou um dos participantes. Jovens de Santos e região, a maioria dos frequentadores elogiaram a resistência do evento, também citaram sobre fantasias do público e interesses amorosos. Em menor número, uns se queixaram do som estar mal colocado e baixo (pela transferência à Vila), da falta de banheiros químicos e de possíveis arrastões em quadras próximas à Praça e Rua XV – onde há bares e baladas em funcionamento.

Marco histórico

Festas ocupando praças públicas já são comuns em capitais. E, em Santos e Cubatão, esse formato com direito a discotecagem e até intervenções cênicas passou a ser vivenciado com mais frequência em 2015 – antes, eventos pontuais como a Virada Ilegal já realizava ações nesses moldes. Até então, os agentes públicos já se acostumaram com o recente calendário cultural na Praça dos Andradas.

Neste 15 de outubro de 2016, a manutenção e solução dada à última manifestação cultural é um marco na luta de direitos à ocupação em espaços públicos. Garantia até então sempre rodeada de restrições, principalmente para as novas gerações. Nos últimos cinco anos, o Parque Roberto Mário Santini ganhou videomonitoramento a partir de rolezinhos, a Praça Luiz La Scala proibia o uso de skates, o entorno da Unisanta foi alvo de críticas e o Bulevar Othon Feliciano sediou por tempos os conflitos entre artistas de rua e agentes públicos.

Dupla interpretação

Recentemente, conflitos entre artistas de rua e Guarda Municipal movimentaram desde jornais até a Câmara de Vereadores. Num parecer do Legislativo santista, “por imposição constitucional, qualquer manifestação artística em vias e logradouros públicos do município já está autorizada”, desde que respeitando normas relativas ao fluxo de trânsito e sossego público – no caso da Praça dos Andradas, ela é envolvida por uma área comercial.

Ao mesmo tempo, a Prefeitura decretou em 2014 estabelecendo procedimentos para autorizar a realização de eventos e atividades provisórias em locais públicos, incluindo artístico. Mas o decreto exige que o interessado apresente uma série de documentações 45 dias antes do evento à Secult, citando desde registros oficiais da pessoa, até Anotação de Responsabilidade Técnica para possíveis palcos.

Prefeitura agendará reunião

Em nota, a Prefeitura informa que respeita a reunião de pessoas por meio da arte, cultura e livre manifestação de ideias. A referida ocupação, situação ainda nova no contexto cultural da cidade, precisa ser bem conduzida entre o poder público e os realizadores, até para garantir uma melhor infraestrutura, conforto e segurança a esta iniciativa, que atrai milhares de participantes.

A Secretaria de Cultura agendará uma reunião com os representantes dos movimentos, órgãos municipais e outras instituições para discutir a formatação dessas ações culturais e artísticas em espaços públicos de forma harmônica e sem prejuízo às normas de posturas.

Conheça as propostas para cultura dos prefeituráveis de Guarujá

A Revista Relevo publica hoje a descrição das políticas culturais nos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral dos prefeituráveis de Guarujá – cidade onde ocorrerá segundo turno. 

Nenhum candidato foi entrevistado e nenhuma proposta fora do documento registrado são considerados para esta análise. A ordem dos candidatos nestes textos se referem à maior quantidade de propostas para o setor. Assim, os primeiros citados são quem mais apresentaram compromissos com políticas culturais.

Haifa Madi (PPS/23)

A candidata pretende implantar o Plano Decenal de Cultura, a descentralização de oficinas artísticas pelos bairros, a criação de uma lei de incentivo fiscal para o setor (baseada na Lei Rouanet), criação de uma bolsa-artista, visando fomentar os artistas da cidade. Além disso, efetivar um festival de teatro de Guarujá e outro de teatro estudantil e de um Centro de Economia Criativa para que os artistas aprendam a captar recursos financeiros para suas produções culturais.

O plano de governo também prevê intercâmbio regional e de cidades-irmãs para ações culturais, a criação do Projeto Arte na Quinta (apresentações de músicos locais no Teatro Procópio Ferreira), a realização de um novo complexo cultural e um calendário cultural anual. A candidata ainda planeja criar a Encenação da História de Guarujá, um festival de cultura nordestina, um festival de MPB, um festival de cultura caiçara, festival de bandas e folclores, corpos estáveis de teatro, dança e música. Além disso: criar oficinas de carnaval para as escolas de samba; fortalecer a política de patrimônios históricos da cidade, retomando o projeto Parque Itapema; e exibição de filmes em praças públicas e espaços culturais.

Dr. Valter Suman (PSB/40)

O candidato não registrou propostas para a cultura em seu plano de governo.

Quais as promessas dos futuros prefeitos para a cultura na Baixada Santista?

Por Lincoln Spada

O último domingo (dia 2) definiu os rumos de oito das nove prefeituras da Baixada Santista ainda neste primeiro turno – com exceção de Guarujá. Diante do compromisso registrado pelos prefeitos em seus planos de governo no Tribunal Superior Eleitoral, a Revista Relevo destaca quais as promessas de campanha que nortearão as políticas culturais entre os anos de 2017 e 2020. A ordem dos planos de governo é a partir da quantidade de ações previstas de cada político para o setor.

>> São Vicente | Prefeito Pedro Gouvêa (PMDB)

2O candidato se compromete com o Plano Municipal de Cultura, a manutenção da Casa da Encenação de São Vicente, a criação da Casa de Estar (oficinas de artesanato), a readequação do Mercado Municipal como centro de artes integradas (inserindo a Casa do Artesão), o uso do Cine 3D como exibição e oficinas audiovisuais (estas voltadas às pessoas em situação de risco, dependentes químicos e frequentadores da praça), a digitalização do acervo da Biblioteca Municipal, a reforma da Casa Martim Afonso e restauro de seu acervo, e a difusão de bibliotecas comunitárias nos bairros, projetos literários itinerantes, além de construção de um estúdio público para músicos locais.

Além disso, a criação de uma lei de incentivo à cultura e a chamada pública para seleção de entidades para convênios a projetos de difusão e formação cultural no município. Também a descentralização das oficinas culturais (preferencialmente à área continental), a inclusão de oficinas de corte e costura, a difusão de escolas de teatro, a transformação do Balé Jovem de São Vicente como corpo estável municipal, a instalação da Fundação Casa Martim Afonso, a criação do Museu Arqueológico Histórico de São Vicente e um roteiro turístico envolvendo os patrimônios tombados na Cidade.

O plano de governo também se compromete a um mapeamento cultural de artistas, do acervo patrimonial, e de espaços museológicos. Também a realização de periódicos e publicações culturais, a inserção de educação patrimonial nas escolas, a integração de ações da Seduc com a Secult, a implantação de programa que incentive a difusão da cultura indígena em ações formativas (e o artesanato indígena também), a elaboração de um calendário de ações culturais em equipamentos públicos em ação conjunta com o segmento de gastronomia no segundo setor, a criação de restaurante-escola na Casa da Cultura Afro-Brasileira e no Parque Cultural Vila de São Vicente.

Por fim, a realização da Encenação da Vila de São Vicente por meio de captação de recursos públicos, a realização de festivais, a elaboração para retomada do carnaval na cidade (inspirado em famosas marchinhas, bailes de máscaras e antigos desfiles) e a criação de um programa de veraneio, implantando barracas de eventos e atividades, estimulando comerciantes locais para maior geração de renda.

>> Cubatão | Ademário Oliveira (PSDB)

1O candidato prevê no plano de governo a necessidade de desenvolver o Sistema Municipal de Cultura, o Plano Decenal de Cultura e a criação de um Fundo Municipal de Cultura com fonte de receita mista (público e privada), consecutivamente com a realização de leis de incentivo e/ou fomento à música e ao teatro na cidade, prevendo editais para produções artísticas para múltiplas linguagens. Um calendário com eventos tradicionais, um inventário de produções artísticas e um cadastro de fazedores de cultura local estão como prioridades.

O prefeiturável também prevê o apoio ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão, para o restauro e reforma da Biblioteca Municipal (com AVCB), e focando para políticas de preservação, com foco no Largo do Sapo, na Capela de São Lázaro, Ponte Preta, Estação das Artes, Sambaquis da Cotia Pará e Cosipa, Vilas Fabril e Henry Borden. Para a Estação das Artes, ele planeja a criação de um centro de formação artística e apresentações. Para o Teatro Municipal, priorizar a licitação para gestão compartilhada com instituição cultural.

Ele ainda comenta sobre maior programação cultural no Parque do Trabalhador (CSU), Kartódromo, Bloco Cultural, Centros Comunitários dos Condomínios de Moradias, quadras de escolas, etc., citando a conclusão do CEU das Artes no Bolsão 8. A descentralização das atividades culturais acontece com o programa Barracões Culturais. Ainda, cita a criação de um Centro de Tradições Nordestinas, o resgate da Encenação da Paixão de Cristo e do Caminhos da Independência.

Entre os corpos estáveis de dança e música, cita a revitalização de suas sedes e de estudo em gestão compartilhada com OSs ou entidades locais, além de instalar um corpo estável de teatro. Na literatura, cita a modernização do acervo municipal e elaboração de um plano municipal exclusivo para o setor. Além disso, garante apoio ao Conservatório Municipal e bandas estudantis.

>> Bertioga | Caio Matheus (PSDB)

0O candidato é quem mais assume compromissos em seu plano de governo. Ele destaca: a implantação de um calendário de eventos culturais em Bertioga valorizando as comunidades tradicionais; a descentralização da cultura em outros bairros, com a criação de novos equipamentos e maior fomento às artes; e a preservação dos patrimônios históricos (revitalização do Parque dos Tupiniquins e Forte São João)

Ressalta-se a proposta: “Descentralizar o núcleo da Cultura, buscando viabilizar locais para implantação de centros comunitários, ministrar aulas de arte, artesanato, música, dança e teatro e realização de feiras e exposições culturais”. A campanha ainda apresenta: o seguimento ao Plano Municipal de Cultura (aprovado este ano), a construção de uma concha acústica a região central; um Centro Turístico e de Convivência da Cultura Indígena e do Parque Temático Ecoturístico e Histórico de Itatinga; e a Casa do Artesão.

Na área de gestão, ele sugere a viabilização de parcerias público-privadas para novos equipamentos turísticos; além da parceria com o Senac para formação de agentes culturais e turísticos locais; e também uma rede de parcerias com o Governo Estadual, Sesc e outras entidades para mais atividades culturais em Bertioga.

A criação de cooperativas e associações artísticas para geração de renda estão em seu plano. E a produção de cartilhas sobre a história da cidade nas escolas e de informações turísticas no transporte público, plataformas digitais e mais sinalização turística no trânsito complementam o seu planejamento.

>> Itanhaém | Marco Aurélio (PSDB)

0O atual prefeito aponta em seu plano de governo a aprimoração do calendário de eventos da cidade junto da iniciativa privada e a instituição de uma festa regional em abril enquanto “megaevento” para ser incluído no calendário oficial do Estado de São Paulo. Entre suas ações propostas: a criação de uma Virada Cultural Municipal, potencializar a cultura como ferramenta de fomento ao turismo; incentivo às artes circenses; descentralização de ações musicais nos bairros; criação de festivais de literatura, música, teatro, canto, dança, bandas e fanfarras. Na área da literatura, a implantação de uma semana literária e um concurso de contos, crônicas, poesia e romance.

Além disso: a implantação do Sistema, do Plano e do Fundo Municipal de Cultura; a criação da Casa da Pintura (para aprendizado às artes visuais e plásticas); a instalação de um sistema municipal de bibliotecas e salas de leitura; o mapeamento dos artistas e manifestações culturais (inventário cultural); a realização de um Museu do Divino Espírito Santo, da Estação Cultura, da Casa da Dança, do Corpo Municipal de Baile, da Orquestra Municipal, do Coral Municipal, e oficinas culturais de artes cênicas, plásticas e artesanato, ampliação do Salão de Artes Benedicto Calixto e do Espaço Gabinete de Leitura José Rosendo, e mais investimentos na Casa da Música e da Biblioteca Municipal e no Museu Conceição de Itanhaém (ampliando seu acervo), além de espaços destinados a exposições ao ar livre.

Em termos de legislação, a campanha se compromete na criação da Lei de Proteção ao Patrimônio Material e Imaterial do município (tombando a Igreja Matriz de Sant´Anna, Casa de Câmara e Cadeia, além de promover o registro e tombamento da Festa do Divino Espírito Santo, Reisado e Festa da Padroeira, entre outros bens imateriais). Ainda: regulamentação da Feira do Artesanato na Praça Benedicto Calixo, da Pinacoteca Municipal, do Anfiteatro Municipal e do projeto de uso na futura Praça da Juventude, no bairro Oásis.

>> Santos | Prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB)

0O candidato planeja a efetivação do Plano Decenal de Cultura, a inauguração das Vilas Criativas (no Morro da Penha, Vila Progresso e Vila Nova), e o fortalecimento do Fundo de Apoio à Cultura (Facult) e das oficinas culturais, atualmente no CAIS Vila Mathias, Centro Cultural da Zona Noroeste, Biblioteca Plínio Marcos e Centro Cultural e Esportivo do Morro São Bento, para áreas de maior vulnerabilidade social.

Ele também cita o apoio à produção cultural em parceria com o Governo do Estado no Centro Cultural da Cadeia Velha. Ainda, implementar as metas do Plano Municipal de Cultura em parceria com o movimento artístico-cultural, órgãos governamentais, terceiro setor e iniciativa privada; valorizar e recuperar o patrimônio cultural, material e imaterial da Cidade; incentivar e auxiliar os Pontos de Cultura.

A campanha garante capacitar os gestores e produtores culturais na elaboração e prestação de contas de projetos em programas de incentivo à cultura; e fomentar a participação da Cidade nos roteiros das grandes mostras de arte, música, dança, literatura e demais manifestais artístico-culturais.

>> Praia Grande | Prefeito Alberto Mourão (PSDB)

0O atual prefeito apresenta em seu plano de governo a criação de corpos estáveis de teatro e dança, de dança de rua, de Orquestra Municipal, da Casa das Histórias/Casa da Fantasia (quiosque para contação de histórias) da Casa do Artesão e de espaço para tradições nordestinas, além de incremento ao Museu da Cidade e de equipamentos de som e iluminação no Palácio das Artes. Ele também pretende maior visibilidade sobre o patrimônio cultural do município, e a revitalização da Capela Nossa Senhora da Guia.

O prefeiturável ainda se compromete a criar um programa de estímulo aos artistas da cidade, a consolidação do calendário de eventos, assim criando um festival popular de artes integradas e de eventos beneficentes que atraiam o público (como a Vila Junina e Festa da Tainha), preparação para a Semana da Cultura Caiçara e ampliação do programa Sexta Musical (itinerância de bandas locais). Ele também cita a revitalização das praças que abrigam o artesanato, a itinerância e ampliação do artesanato pelos bairros, a criação de clubes de leitura e melhor utilização de espaços públicos para promoção de shows de artistas locais.

>> Mongaguá | Prof. Artur (PSDB)

0O atual prefeito defende expandir as oficinas culturais nas escolas, ampliar o ativismo cultural e projetos de cultura para crianças e jovens nas regiões de maior vulnerabilidade. Ainda, fortalecer a vocação turística da cidade, investindo no planejamento de um calendário de eventos e na captação de outras atividades que promovam a cidade.

>> Peruíbe | Luiz Maurício (PSDB)

0O candidato apresenta em seu plano de governo: implantação de um calendário anual de eventos e do resgate do carnaval; estruturação e apoio à Banda Musical da Cidade; criação de espaço de exposições de artes plásticas e visuais; criação de um circuito histórico; implantação de políticas culturais que garantam a manutenção da cultura caiçara e indígena.

Cultura perde representatividade na próxima Câmara de Santos

Por Lincoln Spada

Os segmentos de cultura de Santos perdem a maioria de seus representantes na próxima gestão na Câmara de Vereadores (2017 a 2020). Se a atual legislatura tinha quatro membros apoiando o setor, os artistas e coletivos devem ter inicialmente o respaldo de apenas dois parlamentares nesses anos futuros: ambos da oposição, Telma de Souza e Chico (PT).

Desde a saída em 2012 do ex-vereador e ex-secretário da Cultura, Reinaldo Martins, os grupos artísticos e festivais tradicionais da cidade se tornaram pautas de projetos de lei e emendas de quatro parlamentares. Futuro vice-prefeito, Sandoval Soares (PSDB) enviou verbas à Secult e criou a Semana da Cultura Caiçara. Prefeiturável na última eleição, Marcelo Del Bosco (PPS) no atual mandato homenageou o Tescom, promoveu audiências e encaminhou projetos sobre políticas culturais.

Não alcançando a reeleição para o Castelinho, Douglas Gonçalves (DEM) e Professor Igor (PSB) foram os vereadores que mais enviaram verbas para eventos dos artistas locais. Entre suas ações, Douglas já destinou recursos ao Festa – Festival Santista de Teatro e criou a Semana Municipal do Jazz. Por sua vez, Igor também colaborou com emendas para o FESTA, o Fescete – Festival de Cenas Teatrais de Santos e o Curta Santos – Festival de Cinema de Santos, além de corpos estáveis do município.

Outros candidatos

Sim, outros vereadores encaminharam emendas para a área da cultura, em geral, para as ações promovidas pela própria Secult. Cacá Teixeira (PSDB) colaborou com a Orquestra Sinfônica e a Escola Livre de Dança; Ademir Pestana (PSDB) para projetos de artes urbanas e capoeira; Sadao Nakai (PSDB) para o departamento de eventos culturais; Professor Kenny (PSDB) e Adilson Júnior (PTB) destinaram recursos respectivamente para a Associação TamTam e Instituto Arte no Dique. Todos esses citados foram reeleitos.

Demais vereadores colaboraram em menor proporção ou pontualmente com o setor cultural. Por exemplo, da atual comissão permanente de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia (Professor Igor, Murilo Barletta e Sérgio Santana), apenas Santana (PR) continuará no Legislativo. Com pouca atuação na área cultural, Sérgio Santana aprovou nos últimos quatro anos o Dia do Teatro, o Dia da Música Gospel e a Semana Cultural do Artista Especial.

Nestas eleições, uma dezena de novos candidatos se apresentaram como representantes do setor cultural. Um grupo que envolvia poeta, músicos, arte-educadora, diretora teatral, servidora pública, entre outros simpatizantes. Em partidos distintos, nenhum conseguiu se eleger – mas, juntos, não teriam votos suficientes à quociente eleitoral. O músico Maurão (PSOL) e o próprio Reinaldo Martins (PT) foram os vices em chapas respectivamente das prefeituráveis do PSOL e do PCdoB, perdendo para o atual prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB).

Perspectiva dos novos vereadores

Com a despedida dos quatros atuais vereadores na Câmara de Santos que mais colaboraram com as demandas da sociedade civil, o histórico da nova composição no Castelinho aponta que somente dois parlamentares estejam mais relacionados às demandas dos artistas locais. A ex-prefeita Telma de Souza (PT) sempre foi uma das maiores colaboradoras com festivais e grupos artísticos nestas últimas décadas, e estava afastada de cargos eletivos desde 2014, quando saiu do papel de deputada estadual. E mesmo estreando no Legislativo, Chico do Settaport (PT) já tem em sua fundação trabalhos próximos à cultura, como projetos de comunicação e economia criativa.

Rodrigo Savazoni: Memórias da Tarrafa Literária (Parte 1)

Por Rodrigo Savazoni*

Na coxia do Teatro Guarany, um pouco antes de subirmos ao palco, conheci o escritor Pepetela e sua esposa Filomena. Tivemos uma conversa amistosa e lhes revelei que em meu index afetivo ‘Geração da Utopia’, de Pepetela, era um duplo de ‘A Condição Humana’, de André Malraux.

Um pouco pelo estilo, porque são romances políticos, gênero pouco explorado no Brasil, mas sobretudo por retratarem o sonho e seu fim a partir de um olhar de dentro da luta social.

0Perguntei a ele se Malraux foi uma influência e ele disse: “sem dúvida”. Rememorou que o leu em francês quando viveu em Argel, antes de ingressar na guerrilha e, posteriormente, no governo de Angola. Pepetela citou então o aforismo de Malraux: “o século XXI será espiritual. Ou não será”.

Disse que, tomado pelo agnosticismo que marca as esquerdas, especialmente a comunista, não compreendeu o que o escritor francês e ex-ministro de De Gaulle dizia. Mas naquela coxia, disse que agora tudo fazia muito mais sentido.

A questão é que Malraux, nesse artigo de 1955, em que trata do século que estaria por vir (este em que agora vivemos), reclamava justamente aquilo que espiritualidade pode evocar em nós: tolerância e compreensão.

Em sua visão de maturidade, ele que lutara nas brigadas internacionais da Guerra Civil Espanhola e ao lado dos anti-colonialistas na Indochina, passou a ver que “o principal adversário da tolerância não é agnosticismo, mas o maniqueísmo”.

Para mim, faz muito sentido pensar a espiritualidade como essa dimensão que nos leva além de nós (transcender) e, por isso, então, compreender e tolerar o outro. Nesse movimento, a alteridade nos ajuda a combater o maniqueísmo, essa expressão binária redutora que nos torna vis, sem que percebamos.

*Escritor, jornalista e realizador multimídia. Como autor, escreveu ‘Os Novos Bárbaros – A aventura política do Fora do Eixo’, ‘Poemas a uma mão’, ‘Culturadigital.com.br’, e escreveu artigos para outras publicações.

Opinião: Só Alfredo, Kayo e Marcelo debatem com o Conselho de Cultura em SV

A roda de conversa sobre cultura com os prefeituráveis de São Vicente contou com a presença de Alfredo Martins (PT/13), Kayo Amado (Rede/18) e Marcelo Omena (PCO/29), no último dia 13, na Associação Comercial de São Vicente. O evento foi realizado pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais de São Vicente (CMPC-SV). Somente os candidatos Fernando Bispo (PR/22) e Paulinho Alfaiate (SD/77) justificaram as ausências, os demais haviam confirmado o comparecimento.

“É importante lembrar que este encontro temático com os prefeituráveis é a primeira iniciativa na história da cidade em poder discutir sobre políticas culturais durante o período eleitoral, e revela o empenho da sociedade civil em dialogar com os candidatos para esta partilha de opiniões e perspectivas sobre a cultura vicentina”, explica a presidente do CMPC-SV, Ivy Freitas.

Com cerca de 70 participantes, o evento contou com a assinatura de pacto dos candidatos com as cartas do 4º Fórum Vicentino de Cultura e do movimento artístico que demanda que o Mercado Municipal seja centro cultural, como também rodadas de perguntas direcionadas aos prefeituráveis, com direito a réplica e tréplica entre os presentes. Ao todo, foram 18 perguntas – sendo 12 refernete ao Plano Municipal de Cultura, e outras seis sobre as dúvidas da plateia presente.

Fala dos candidatos

Questionado sobre o aumento da dotação orçamentária e outros recursos para o Fundo Pró-Cultura, Kayo Amado defendeu a destinação de parte do ISS para complementar atividades culturais e fortalecer o orçamento e editais. “A cultura pulsa de baixo para cima. Precisamos valorizar os grupos existentes em regiões descentralizadas e ter uma interlocução com a classe artística para pautar políticas públicas assertivas para o setor”, afirmou.

Alfredo Martins defendeu durante toda a sua fala a necessidade de organizar as contas do município. “Esse é o grande desafio. Somente após arrumarmos a casa é que teremos um orçamento real para pautar propostas do segmento”. O candidato destacou também a manutenção das ações já desenvolvidas para Secretaria de Cultura e o acerto do quadro de funcionários da pasta.

Já para Marcelo Omena, a Prefeitura precisa ser vista como uma empresa e gerida como tal: “Valorizamos a arte gratuita, mas precisamos gerar recursos através dos espetáculos também. A cultura precisa ser autossustentável e paga com a própria cultura”. O registro dessas falas está no Diário do Litoral.

Avaliação da roda de conversa

De todos os prefeituráveis, já se mostram como “vencedores” do encontro quem participou dele: Alfredo Martins, Kayo Amado e Marcelo Omena. Cada um preparado ao seu modo sobre o Plano Municipal de Cultura. Só que sobre as políticas do setor, nenhum deles se comprometeu com causas específicas nos questionamentos: o artesanato nas praças; o Parque Vila de SV, o Cine 3D ou o CEU do Humaitá como Poder Público ou OSs; projetos para música autoral; o ruído dos artistas de rua com os fiscais do comércio que os confundem com ambulantes.

Por sua vez, cada candidato também apresentou perspectivas distintas às políticas culturais. Embasado na crise financeira, Alfredo Martins citou sobre cortes de comissionados e verbas. Mas hoje a Secult mal chega a 25 membros, sendo quase a metade de cargos de confiança, sem falar que precisa ter mais efetivo de técnicos para gerir o Cine 3D e o CEU das Artes no Humaitá, ambos hoje em obras. Estimado em menos de 1% do orçamento municipal, as verbas da Secult foram ainda mais reduzidas: não passa de 0,3%.

Quando questionado sobre a polêmica da instalação da estátua de Iemanjá ou da ocupação atual do artesanato nas praças, Kayo Amado não contextualizou ou prometeu agir na regulamentação dessas manifestações, mas de buscar o maior entendimento no diálogo. Já Marcelo Omena falou deu um tom de privilegiar o entretenimento em vez da arte no projeto de uso do inacabado Teatro Municipal, em detrimento do real cenário das expressões artísticas da Cidade.

De modo geral, os dois prefeituráveis que argumentaram melhor e ressaltaram sobre o diálogo com a população foram Alfredo Martins e Kayo Amado. Este se mostrou mais interessado e afim de conversar com os artistas, citou nomes dos grupos e artistas da cidade, citou jornais e estava mais aberto em uvir a comunidade em seu discurso. Por sua vez, Alfredo falou muito do histórico da cidade, da passagem deles pelo Poder Público, mas ressaltou a questão da crise financeira e do orçamento, o que impediria para ele oferecer melhorias à cultura. No entanto, ressaltou estar com o pé na realidade econômica do município.

*Lincoln Spada