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Opinião: O timing de ‘Reclame – Uma História de Amor’ nos faz viajar ao passado

Boi-da-cara-preta, ‘We Will Rock You’, ‘Carinhoso’ ou Marcha Nupcial. Há certas músicas que embalam fases de nossa vida, que nos remetem a bons amigos, ex-namorados e até aos nossos familiares. Trilhas sonoras ideais vindas das rádios tão constantes em nossas salas de estar.

Porém, a nossa vida também é marcada pelos intervalos dessas canções: os comerciais. Como hits que estão bem guardados na mente. É fato que o ritmo do seu pé já acompanha só de você ler ‘Não adianta bater, eu não deixo você entrar…’ ou ‘Três hambúrgueres, alface, queijo molho especial…’

E para provar como também há comerciais que marcaram época, a Cia. Cenicomania apresenta a divina comédia ‘Reclame – Uma História de Amor’, em temporada desde 2012. O espetáculo é como um programa de rádio, não há hiatos e empolga os espectadores a todo instante, fazendo questão de ressaltar que a peça é para o público, até colocando-o como centro do espetáculo. Afinal, são as cadeiras quem estão no palco.

A afinidade do elenco há quase um ano em temporada melhora a peça. Em vez de parecer desgastados, a direção permite pequenos improvisos dos atores para revigorar a peça. O timing das personagens é ótimo e nos atrai a entrar no espetáculo. A peça é ainda mais convidativa com os produtos comerciais entregues à plateia, a troca de figurinos e as notícias do radiojornal delineando cada década.

Apesar de ser uma viagem dos anos 30 ao 90, os personagens envelhecem mais devagar, numa trama comum às radio e telenovelas: o triângulo amoroso. E embora possa ser uma história batida, o viés cômico se rejuvenesce entre Rodolfo (Fábio Prado), Lourdes (Emanuella Alves) e sua ex-melhor amiga Janete (Cristina Ribas).

Há tantos cuidados entre atores, o autor Sérgio Manoel, a direção musical de Nailse Machado e, claro, a diretora Miriam Vieira, que até é difícil notar as brincadeiras e improvisos de todos os personagens. Aliás, embora o elenco seja maior do que o trio – o próprio Sérgio, Roberto Santos, Guilherme Silva, Cristina Moda, Rinaldo Sant’Anna e o pianista Marcio Dias -, todos têm seus grandes momentos e dão a devida agilidade que pede o teatro.

E é este ritmo bem-humorado e atuação impecável em reclames despercebidos ao longo dos anos que permitem com que a gente viaje pela história da propaganda brasileira e também em nosso próprio passado.

*Lincoln Spada

Opinião: ‘No Brasil, quem gosta de música é minoria’, diz Ed Motta

‘Cantor e compositor de MPB do Rio de Janeiro’. A auto-descrição de Ed Motta em seu site pessoal é incompleta. Conhecido pelo grande público por ser sobrinho de Tim Maia, alcançou seu auge no final dos anos 80 e manteve seu nome na mídia por sua verve artística em 1999. O hit era a música ‘No meu coração você vai sempre estar’, famosa por acompanhar a animação ‘Tarzan’. Desde então, coleciona uma geração de polêmicas fora dos palcos.

Talvez criticar outros ritmos e o país seja o seu desabafo por não formar públicos no Brasil. Talvez seja sua assessoria o incentivando a conseguir manter seu nome na mídia. A última cutucada veio por Facebook, numa postagem no último dia 9: “agradeço e fico honrado em ser prestigiado pela comunidade brasileira, mas é importante frisar, não tem músicas em português no repertório, eu não falo português no show (…) não venha com um grupo de brasuca berrando ‘Manuel’ porque não tem”. Ok, é sua turnê europeia.

02O problema é quando continua o post. “Verdade seja dita, que meu público brasileiro de verdade na Europa, é um pessoal mais culto, informado, essas pessoas nunca gritaram nada, o negócio é que vai uma turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil, público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa gritar nome de time”. O problema é sua clara arrogância de destratar o público e querer conceituar o que é música.

Ed mais uma vez perde a oportunidade de transitar entre o MPB que o alçou a hit e o jazz norte-americano que tanto devota. No contato com os fãs, com o outro, poderia sim convidá-los a apreciar o ritmo que ele leva em seus palcos. Opta por ofender, ironizar e contrariar. Nos comentários do post, ofendeu quem passasse lá: nordestinos, gente do interior, sertanejo, axé e, principalmente, brasileiros. Chamou de carma a sua nacionalidade, xingou o Brasil como ‘país de merda’, ‘terra ignorante’, até xingou ‘indígenas’ e ‘pedreiros’.

Além do intelectual disseminar preconceitos, a frase que guardo ao final é esta: “No Brasil, quem gosta de música é uma minoria, o resto sai pulando igual bicho atrás de um trio elétrico”. Afinal, se a arte é a expressão de alguém ou povo para transcender emoções, instantes, o que não seria um bloco de carnaval, um show de sertanejo universitário ou o Festival de Parintins? É tão música quanto o som do saxofone, só que em vez de erudito é popular. Em pleno século 21, conceituar arte como aquela voltada às elites é mais do que desrespeito ao gosto dos outros. É comprovar que não entende nada de arte.

*Lincoln Spada

 

Opinião: Referenciar ‘De Pagu a Patrícia’ é lugar-comum

Referenciar todas as artes de Santos a Pagu é lugar-comum. Referenciar o livro ‘De Pagu a Patrícia’ (compre aqui) da doutoranda em Comunicação, Márcia Costa, também. De dez conversas sobre jornalismo cultural na Cidade, dez vezes relembro a atuação da musa do Modernismo e dez me pedem o título emprestado. Esta é a primeira noite que ele dorme longe de casa, na estante de uma adolescente que me perguntou: “O que ler aos 15 anos?”.

01Apesar de ser uma tese editada pelo selo Dobra Universitário (2012), a obra é permeada de didatismo para recontar os últimos anos da expoente artista plástica, escritora e diretora teatral, Patrícia Galvão. Nascida em São João da Boa Vista em 1910, a jovem com olhos de fazer morder faz da política uma causa e causa constantes detenções e viagens a ponto de entrevistar Freud e ver a coroação do imperador chinês Pu-Yi.

De todas as dezenas de biografias anteriores, ainda faltava o registro da última estação de Patrícia. Em Santos, terra que acolheu desde 1954 junto do segundo marido, Geraldo Ferraz, que viria chefiar a redação do tradicional jornal A Tribuna. Por oito anos, ela suspirava liberdade e inspirava sabedoria para uma legião de jovens que a rodeavam nos bares e na sua casa. O maestro Gilberto Mendes, o artista plástico Mário Gruber e o dramaturgo Plínio Marcos são algumas de suas constantes companhias.

02A jornalista faz do livro uma grande reportagem, e situado o curto período que ele recorta, divide de modo certo a trajetória profissional da protagonista em capítulos. Torna-a uma personagem atraente pela versatilidade. Um sobre sua relação com o teatro, outro com a literatura e, assim por diante. Fruto de um mestrado robusto, Marcia acompanha todas as publicações assinadas por Patrícia e seus pseudônimos na coluna Palcos e Artistas, Viu? Viu? Viu?, entre outras seções do jornal diário.

Longe de soar acadêmica, a publicação rememora cenas curiosas, como as conversas fiadas de Patrícia entre amigos e o esforço dela em levar à ilha o 2º Festival Nacional de Teatro dos Estudantes de Paschoal Magno, em 1959. O evento enalteceria de vez as artes cênicas na Cidade e mobilizaria uma classe de atores e diretores-autores nos clubes e associações.

Até uma rota de antigos bares que mais frequentava é citado durante entrevistas com seus contemporâneos, como o sobrinho Clóvis Galvão. Claro que há uma série de perguntas que destrinchamos a cada parágrafo, por mais que exceda pelas referências históricas. Mas é preciso lembrar que a faceta – múltipla – estudada por Marcia é do jornalismo cultural, e isso ela faz em uma análise completa como boa pesquisadora.

04Um ponto certeiro é a distinção da jovem militante Pagu e da Patrícia de Santos. De todos os livros sobre a artista, ‘De Pagu a Patrícia’ pincela-a com um ar de mãezona dos intelectuais, com olhar entre o blasé e a melancolia nas fotos, e com trechos intensos que tentam educar o público leitor às obras-primas de Arrabal, Fernando Pessoa e Octavio Paz.

É perceptível a paixão implícita da autora à jornalista e artista, mas é impossível não se fascinar com a personalidade daquela que efervesceria a imprensa, os teatros e os points culturais de Santos. Portanto, referenciar o livro é valorizar não só o legado da protagonista, mas compreender o embasamento de uma geração de ouro nas artes da Baixada Santista.

*Lincoln Spada

Cadeia Velha: Público dos museus do Centro é um terço do Aquário

Ponto histórico da povoação de Santos, a área central contempla quatro museus num raio de dois quilômetros quadrados. O público dos quatro museus juntos ao mês (22,5 mil visitas) equivale ao do Orquidário (22,4 mil) e a um terço do Aquário (65,7 mil). Mesmo com a falta de público em comparativos, e também de raras atividades artísticas, ainda há a possibilidade de haver um quinto equipamento museológico no bairro: a Cadeia Velha. Pode se tornar Museu da Baixada Santista o principal edifício dos séculos 19 e 20 – que abrigava os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do município.

> Cinco razões para Cadeia Velha não se prender a um museu
> Governo Estadual garantiu discutir projeto de uso da Cadeia

01Esta não é a primeira tentativa de modificar a vocação da Cadeia Velha, que nos últimos 30 anos se tornou num polo de formação de artistas como a Delegacia Regional de Cultura e, depois, Oficina Cultural Pagu. Outras duas vezes o Poder Público não conseguiu apoio da comunidade. Agora, apesar da suposta vontade política, um grande dilema é a falta de demanda de público e de atividades culturais nos demais museus do Centro.

O raciocínio é simples. Se não há o hábito de visitação e atrações nestes lugares, por que seria diferente no caso de um futuro museu nas proximidades? Tal situação demonstra que o prédio centenário fechado para reformas pode ser reaberto como um grande “elefante branco” se não houver um diálogo entre Poder Público, classe artística e comunidade sobre seu projeto de uso. Confira a situação dos demais patrimônios ao seu entorno:

Museu do Café: 15 mil visitas/mês
Rua XV de Novembro, 95 | Terça a sábado, das 9h às 17h | R$ 3 a R$ 6

05Erguido em 1922 para nortear os preços do café enquanto principal produto de exportação brasileira, a Bolsa do Café teve suas atividades encerradas nos anos 60. A casa de propriedade estadual foi reinaugurada como museu em 1998 e, atualmente, tem gestão do Instituto de Preservação e Difusão da História do Café e da Imigração. Aliás, a mesma entidade sondada para dar continuidade à ocupação da Cadeia Velha.

A cafeteria e loja de souvenirs vivem a receber os empresários do entorno e turistas pela proximidade dos terminais portuário, rodoviário e da linha de bonde. Já alcançou 1 milhão de visitantes e recebeu entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015 cerca de 54 mil visitas (15 mil por mês).

Também há uma equipe preparada para visitas monitoradas, mas a sua mostra é permanente. Se não há rotatividade de exposições, a programação consta com um show musical por mês e raras apresentações. Neste trimestre, ao todo, foram só cinco atrações artísticas.

Museu Pelé: 5,4 mil visitas/mês
Lg. Marquês de Monte Alegre | Terça a domingo, das 10h às 18h | R$ 9 a R$ 18

06O tão esperado projeto de guardar o acervo do Rei do Futebol ainda não tem estabilidade financeira. Prejuízos são alardeados pela imprensa e preocupa a atual gestora Ama Brasil. O local é situado nos antigos casarões do Valongo, bem em frente ao restaurante-escola e uma das mais frequentadas igrejas da Região, o Santuário de Santo Antônio do Valongo. Foi inaugurado em junho do ano passado, com objetivo de atrair os fãs da Copa do Mundo.

O local mantém bar, cafeteria e tem um enorme acervo interativo, em caráter permanente. Focado no esporte predileto dos brasileiros, não contém programação artística. Durante os dez meses, recebeu 57 mil pessoas. Entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015, alcançou 16,4 mil visitantes (5,4 mil visitas ao mês). O número é muito aquém do esperado (1,2 mi de frequentadores por ano) e a instituição mantém déficit na receita.

Casa do Trem Bélico: 1,5 mil visitas/mês
R. Tiro Onze, 11 | Terça a domingo, das 11h às 17h | Grátis

04Mais antigo prédio público de Santos de 1640, a Casa do Trem Bélico abrigava desde seu início armas e munições. Nos tempos coloniais, para a proteção da Cidade. Atualmente, para preservar a história da região e do País. O prédio é o mais distante do comércio e do fluxo de turistas nos terminais da Cidade, mas é passagem da linha de bonde.

Até mesmo um de seus funcionários se veste de soldados e corneteia para os passageiros do tradicional veículo conhecerem a casa. Provavelmente é o espaço que mais contempla atividades artísticas, já que recebeu ano passado por um semestre o programa Trem Cultural, com apresentações de teatro e dança. Mesmo assim, não mantém bons índices de público em relação a outros equipamentos.

Reformada em 2009, ele conserva em seu piso superior a mostra permanente de Armamentos Históricos, com 170 peças usadas pela infantaria brasileira, desde os tempos do Brasil Império, como objetos também da Revolução de 32. Por ano, apenas 7 mil pessoas visitaram a mostra, segundo a Prefeitura. Ao mesmo tempo, ela citou ano passado que 18 mil pessoas frequentaram a casa (1,5 mil pessoas por mês).

Palácio Saturnino de Brito: até 5 mil visitas/ano
Av. S. Francisco, 128 | Terça a domingo, das 11h ás 17h | Grátis

03Construído no final do século 19 como Repartição de Saneamento, o prédio mantém hoje a Unidade de Negócio da Sabesp na Baixada Santista. Mantido pela estatal, o local tem suas características originais conservadas, além de conter os móveis usados pelo patrono da Engenharia Sanitária, Saturnino de Brito, o idealizador dos canais e da organização urbana de Santos.

De maneira interativa, o museu preserva objetos sobre esta engenharia e painéis interativos sobre a construção da rede de esgoto e de abastecimento de água na Baixada Santista. Apesar de estar próximo da rodoviária, do comércio e ser ponto da linha turística do bonde, o público não frequenta muito o espaço e muitos da Cidade ainda o desconhecem. Entre 2009 e 2012, foram 13 mil visitas, cerca de menos de 5 mil visitas ao ano.

*Lincoln Spada

Opinião: Repensando nossa ilha cinza por meio do grafite

As secretarias da Cultura de São Vicente e Santos realizam em parceria a exposição de móveis revitalizados em grafite ‘Onze Mais Onze’. A mostra está aberta a visitação gratuita das 10 às 20 horas, até dia 12 de abril, na Esplanada do Centro Cultural Patrícia Galvão (Av. Pinheiro Machado, 48/Santos).

20150327_160801Repensar o cinza das cidades é aliar as paisagens do nosso entorno e as cores que pulsam nosso interior. Carros engarrafados, milhares de pessoas a mil e as janelas seguem fechadas. Cada dia que passa, nossas cidades mais pedem cor, pedem vidas, pedem pausas.

A rotina nos consome e nos consumiria por inteiro se não fossem os fôlegos pontuados de grafite. Seja a coruja no alto do Parque Roberto Mário Santini, sejam as muretas desenhadas na Floriano Peixoto. Sejam as faces monocromáticas da Praça dos Andradas, sejam os degraus do Monte Serrat.

20150327_160823Em São Vicente, partilhamos dos personagens empostados nas vias do Centro, no muro próximo da Ponte Pênsil, na academia ao ar livre da Linha Amarela. E daqui em diante, partilhamos de uma pausa na arte enquanto transformação social. Sinônimo de sustentabilidade.

Toneladas de móveis e eletrodomésticos migram dos lares para as ruas sem razão. Os bens que antes eram companhia perfeita das famílias são acumulados como lixos, ao invés de ocuparem salas de entidades beneficentes ou até serem regularizados no descarte dos serviços municipais de Cata-treco. Por faltar conscientização, vale refletirmos.

20150327_160856Nestes dias do Grafite, uma geração de artistas provam que é possível revitalizar. Tornar este lixo das ruas em obra-prima. Obra própria de cores e vidas. As mesmas que nossas cidades são sedentas. Que esta exposição ‘Onze Mais Onze’ acrescente fôlego para as nossas rotinas. Adeus, tons de cinza. Por uma Santos, São Vicente e Baixada mais grafitada.

A mostra ‘Onze por Onze’ conta com as artes dos grafiteiros: Aline Benedito (Fixxa), Carlos Silva (Catts), Dionísio Guimarães, Fabião Nunes, Guilherme Leite, Kika Graffitti, Léo Martins, Milton Santana, Pat Campos, Ramello Graffs, Ricardo Arruda (Rico), Val Maltas e Vinil Colante, Leandro Shesko, Thiago Gomez, Érico Bomfim, David Kid, Junior Kisuco, Lucas Cavalcante, Fernando 2n e Two San.

*Lincoln Spada

Cinco razões para Cadeia Velha não se prender a um museu

A partir de setembro de 2015, a Cadeia Velha de Santos poderá ser reaberta como Museu da Baixada Santista. A possibilidade se deu numa reunião do conselho do Sistema Estadual de Museus de São Paulo. Segundo matéria de A Tribuna, o Governo Estadual já estaria sondando o repasse da gestão compartilhada (SP e Prefeitura) para uma organização social, o Instituto de Preservação e Difusão da História do Café e da Imigração (Inci).

Por sua vez, em nota, o instituto garantiu no jornal que “há projetos em discussão para 2015 e, quando se tornarem uma realidade, com cronograma e recursos associados, ambas as partes terão o maior prazer em trazer a púbico a novidade”. Diante desse panorama, sou contrário a essa decisão ainda não ter sido amplamente discutida pela Baixada Santista.  Explico abaixo.

Seria o quinto museu em um raio de 2 Km

foto_jaqueCom a oficialização do Museu da Baixada Santista, este seria o quinto museu num raio de 2 Km no Centro da Cidade – já há o Museu Pelé (Ama Brasil), Casa do Trem Bélico (Prefeitura de Santos), Palácio Saturnino de Brito (Sabesp) e Bolsa do Café (também da Inci), todos instalados em equipamentos restaurados e antigos, volumosos, de indiscutível valor.

Mas qual é a demanda da centralização de mais um prédio do gênero, se sabemos que nem todos estes locais recebem públicos a centenas por mês?  Se há necessidade de um museu regional sobre o assunto e se é uma política de governo incentivar o turismo regional, não seria mais apropriado repassar este projeto a outras cidades, onde não desfrutam de um espaço para guardar sua memória?

Baixada Santista perde um espaço de formação cultural

Durante as últimas décadas, a Cadeia Velha sediou a Delegacia Regional de Cultura e, em seguida, a Oficina Cultural Pagu, gerenciada pelo Instituto Poiesis. Foi a partir daí que aproximou gerações de anônimos com as artes. De fato, pode-se discutir se o amplo espaço não podia ser melhor aproveitado pela organização, mas também ressaltemos que o prédio por anos necessitava de restauro e o salão do piso superior estava tomado de mais de 80 baldes por questão de goteiras. E precisava funcionar.

39681Os cursos da Oficina Cultural Pagu têm uma qualificação inegável. Para Santos, o município há mais tempo com cursos livres de artes da região, talvez seja mais interessante a política de descentralização das atividades formativas.

No entanto, os outros três quartos da população regional precisam de um local central para se aprofundarem nas artes, e a Cadeia Velha é o prédio centenário ao lado da Rodoviária Municipal, onde circulam ônibus de Santos e Litoral Sul, além de ser a duas quadras próximo de pontos de ônibus do Litoral Centro e São Vicente. Ou seja, enquanto a Oficina fazia morada lá, tornava-se em uma casa de fomento cultural para toda a Baixada.

Após a reforma da Cadeia Velha, continuar a manter a sede das Oficinas Culturais numa bela casa (e põe bela nisso) próxima à Avenida Ana 2Costa, no Campo Grande, em Santos, é facilitar o acesso das atividades aos santistas, mas afastá-la  o mesmo direito aos moradores de outras cidades – algo em torno de 1,2 milhão de pessoas. Porque por mais que haja atividades em outros municípios, a centralidade geralmente ocorre na sede regional.

É bom lembrar também que o entorno da Cadeia Velha, na Praça dos Andradas, é formado pelo Terminal Rodoviário, pela Escola de Artes Cênicas Wilson Geraldo – Teatro Guarany, pela Vila do Teatro e pelo futuro prédio da Secretaria da Educação. Ou seja, o público que circula o espaço aproveitaria muito mais o prédio enquanto ponto de fomento artístico qualificado e formação de público, do que no papel de espaço de patrimônio público e formação de público.

Museus do Inci não têm cursos livres artísticos

02Se a gestão da Cadeia Velha for repassada ao Inci, o histórico efervescente de cursos livres artísticos pode ficar no passado. Apesar do Museu da Imigração e da Bolsa do Café promoverem oficinas, workshops e palestras, não têm prioridade, costume e know-how de gerir cursos livres artísticos. Portanto, por mais que no Museu da Baixada Santista se promovam atividades assim, haveria um tempo natural de transição para que essas experiências tenham o devido resultado adequado.

Santistas recusaram três vezes fazer da Cadeia Velha um museu 

Já ocorreram três recusas da Cidade em tornar a Cadeia Velha em museu. Enquanto Museu Santista, Museu dos Andradas (entre as décadas de 60 até 80) e, no ano passado, pela própria Secretaria da Cultura de Santos que propôs em tornar o espaço multiuso em vez de um prédio para acervos. A própria classe artística também refutou a ideia em protestos e manifestações no ano passado.

Aliás, a ideia do secretário municipal Raul Christiano em tornar a Cadeia em um espaço plural sempre me foi mais atraente do que o museu. Em abril de 2013, ele propôs que o local mantivesse auditório e cafeteria, além de uma livraria, o Museu da Imagem e do Som de Santos (MISS), uma oficina de restauro, uma parte do Museu da Língua Portuguesa e salas livres para cursos artísticos. Com exceção do MISS, podendo ser trocado pela sede da Oficina Pagu, creio pessoalmente que todos os outros espaços poderiam ser instalados lá com maior êxito e fluxo do que no provável Museu da Baixada Santista.

PSDB deve respeitar a sua trajetória democrática

???????????????????????Não sou filiado a partidos, mas entendo que são poucos que despontam com popularidade em nível nacional como o PT, PSDB e PMDB há tantas décadas. A principal bandeira destes partidos é a democracia, portanto, o exercício de escutar a população para tomada de decisões.

Estamos falando do futuro rumo de um dos prédios centenários mais antigos de Santos e, provavelmente, até então o mais importante politicamente – desde a sua localização, como a sua trajetória em sediar os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ao longo dos séculos 19 e 20.

Portanto, pela relevância do prédio e pela bandeira do partido e dos governantes, é mais que necessário o processo de transparência sobre a discussão do uso da Cadeia Velha, até mesmo porque essa foi uma questão da Secult a ser discutida com os artistas em 2015. Ao meu ver, não deveria ser debatida apenas pelo movimento cultural, Prefeitura e Governo de SP – a gestão será compartilhada na reabertura do espaço.

Na terra natal de Mário Covas, ex-governador e padrinho do atual governador Alckmin, o debate sobre o uso e futuro da Cadeia deveria ser ainda mais ampliado também em audiências públicas, junto a conselhos municipais e estaduais, à Comissão Especial de Vereadores e às instâncias do legislativo estadual e atender o que a população de Santos e região decidir qual o melhor projeto de ocupação da Cadeia Velha de Santos.

*Lincoln Spada

A estética da arte e loucura no ‘Projeto Bispo’

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São quase nove da noite quando um ator sussurra para o público “Qual a diferença entre vocês e eles?”, apontando com a lanterna a um bando de nus surtando na Casa da Frontaria Azulejada. E é lá, após duas horas com tantos personagens alienados e anônimos da peça ‘Projeto Bispo’, que se percebe que eles são tão humanos quanto eu, você e o artista plástico Arthur Bispo do Rosário.

As situações encenadas por cada um dos dez artistas de O Coletivo retratam partes da genialidade e loucura do falecido Arthur. Genial, pois ele concebeu mais de 900 objetos de arte contemporânea. Louco, porque o acervo foi criado com retalhos e peças descartáveis que achava no antigo Hospital Nacional dos Alienados, no Rio, onde viveu por 50 anos.

O ex-marinheiro e ex-pugilista sergipano perambulava pelas ruas antes de ser internado. É o mesmo caso da personagem conterrânea no teatro, interpretada por Malvina Costa. Hoje e na próxima segunda-feira, na Praça Mauá, às 20 horas, lá estará ela com um alto-falante chamando a todos para o início da sessão.

Dramas de quem vive na rua

Na primeira parte da obra, o público anda lado a lado com ela e outros moradores em situação de rua que surgem em cena. Palavrões e insultos são constantes e improvisados entre eles, mas justamente essa marginalidade faz os papéis serem críveis, humanos.

Destaque para o encontro dos personagens de Rony Magno e Junior Brassalotti na escadaria da Prefeitura. Enquanto o primeiro veste um similar do Manto da Apresentação (principal peça bordada por Bispo) se nomeando Filho do Pai, o outro faz o papel de um Deus irônico, criticando as exclusões sociais geradas por cor, classe econômica e orientação sexual.

Por vezes, algumas situações até geram risos na plateia. Como quando Wendell Medeiros protagoniza o caso de um indigente que dorme na marquise de uma agência bancária, responsabilizando-a pelo seu fracasso financeiro. E não é que essa cena surgiu quando uma mulher em situação de rua contou esse fato para o elenco?

Aliás, os momentos mais fortes estão nos dramas femininos. Seja com a cena de estupro de Juliana Sucila e Rafael de Souza, ou a revolta de uma prostituta, rejeitada pelos clientes por ser travesti, interpretada por Renata Carvalho.

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Cresce a insanidade

No entanto, a insanidade dos personagens cresce dentro do hospital psiquiátrico ambientado na Casa da Frontaria Azulejada. Lá, as falas realmente perdem força para as ações representadas pelo elenco.

A iluminação apenas por lanternas e a trilha sonora de rock até músicas românticas colaboram nas esquetes, apresentando as técnicas de internação, medicação e choques elétricos nos pacientes, tão comum em antigos hospícios do Brasil.

Todos os espaços da casa se tornam em cenário para a loucura, que também corresponde as vontades de Bispo. Por exemplo, quando os personagens de Cícero Santos e Lucas Oliveira brigam sobre cores e Vanúzia Moreira sonha ter uma faixa e uma coroa. É que a cor predileta de Arthur era o azul, e seu maior desejo era casar com Ieda Maria Vargas, a Miss Universo de 1963.

Enfim, sob a direção de Kadu Veríssimo, é nítido o entrosamento de O Coletivo em mostrar o universo marginalizado de um artista plástico ainda não tão conhecido pelo grande público. O que torna o ‘Projeto Bispo’ em um teatro de forte estética e crítica social, e, nós, espectadores, mais humanos.

*Texto publicado originalmente no jornal A Tribuna em 3/dez/13
Fotos de Patrícia Garoni e Rodrigo MMorales