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Opinião: Na capital dos idosos, ‘Anamnese’ eterniza uma família

Mais que uma obra audiovisual, ‘Anamnese’ é uma amizade eternizada, de fato. A descrição nos créditos finais do curta-metragem da Nega Produções define bem a proposta de abreviar em minutos uma relação de mais de oito décadas das irmãs Soares, residentes do Lar Doce Lar em Santos. A obra é dirigida e produzida por Daniela Yoshikawa, Mônica Donatelli e Pedro Maufera.

Na capital dos idosos no Estado de São Paulo – 21% são acima de 60 anos -, as mulheres gravam fragmentos de sua vida familiar e conjugal, confundindo lembranças e confirmando sensações. As entrevistadas são Estela, de 84, Helena, de 89, e Vitalina, de 91 anos. São remanescentes de 12, 14 ou alguns herdeiros de seo Joaquim, homem belo de olhos azuis que era motorista pela Cidade na primeira metade do século.

A fotografia e a trilha delicadas realçam o protagonismo fraternal. O álbum de fotos que a tela se transforma comprova o zelo da produção. O que difere a obra como arte ou memória oral é sua edição e direção. Os cortes secos encadeiam as ideias devaneadas pelas mulheres e garante emoção e risos quando se contradizem, como namoros pueris e um saudoso porquinho de estimação. Mérito da direção, pois a dificuldade de enquadrar um não-ator como personagem é ainda maior quando se tratam de idosos.

Mas o brilho é a condução espontânea das entrevistadas. “Casei no dia 10, dia de Nossa Senhora Aparecida, de outubro de 1951”, enfatizava Estela. Helena faz troça: “Ai que data bonita, é? É o galo e o burro”. Se nenhuma das duas acertaram nem o feriado, nem os números do jogo do bicho, ganham nossa simpatia a preferirem cantar juntas em vez de separadas as canções que embalaram a infância. (Assista ao curta-metragem neste vídeo a partir de 11min)

*Lincoln Spada

 

Opinião: ‘Até o Fim’ diagnostica despreparo emocional dos médicos

Entre a luta de pacientes contra o incontornável e a insensibilidade médica ao tratar os males, o livro-reportagem ‘Até o Fim’ (Ateliê de Palavras) é um diagnóstico do despreparo emocional da maioria dos profissionais de saúde do País. As jornalistas Beth Soares e Jessika Nobre refazem as avaliações dos hospitais, humanizam as donas de doenças incuráveis e, inevitavelmente, tocam na desinformação de quem segue o ofício de “promover qualidade de vida”.

Uma hematologista foi seca: “Achamos que é mieloma múltiplo (…). Se for, não há cura”. Outro cardiologista disse tão somente “essa menina tem lúpus”, sem maiores explicações à família da garota e, assim, não relevaram suas palavras. Quando adulta, ela sofreu preconceito de médicos, como uma perita do INSS, que debochou de suas limitações: “quem quer trabalhar, trabalha até deitado”.

Num diálogo absurdo, um profissional diz à examinada: “Você tem esclerose múltipla. Mas fique tranquila, daqui a alguns anos a esclerose será como a Aids”. Mais, garante que seria melhor se fosse soropositiva. Ainda há um professor universitário que se aborrece com necessidade de medidas paliativas. Paliar é um termo bélico, para evitar os efeitos de uma intempérie, assim como soldados há milênios precisavam sobreviver a diferentes climas.

03E nesta batalha por um trabalho humanizado, os alívios vêm de depoimentos do presidente da Comissão de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas, Ricardo Tavares de Carvalho, e da presidente da ONG Casa do Cuidar, Ana Claudia Arantes. Para assumir cuidados paliativos, o primeiro provara que a unidade tinha menor custo que uma UTI desnecessária. Já Ana treinou uma equipe de profissionais para melhor atendimento, e ao se perceberem úteis, enfim, até diminuíram as faltas no expediente.

Tais cenas são tangenciadas pela obra até porque seu foco são os dramas de Eguimar, Fabíola, Sandra e Sílvia, mulheres que nos tornam amigas ao partilharem a dor de seus males. As autoras mesclam bem dados pessoais, dados médicos, fatos principais de suas vidas e de suas famílias e, principalmente, as emoções desencadeadas pelo quarteto com uma riqueza vocabular que concreta o subjetivo.

02Há tais cenas em quase todas as páginas, como “esqueceu que a lembrança é uma cicatriz” e “pensa nos milhares de recomeços que costuram suas memórias”. Entretanto, pesam ao adjetivar tanto os pensamentos de Sílvia. Em parte do capítulo que cabe a Sandra, estranho o ritmo por repetir demais os nomes. Mas o apuro, o cuidado ao versar os dramas acumulados logo na primeira história, de Eguimar, demonstra que vale indicar o livro como um todo. Completo.

Dividido em capítulos intitulados por filmes, a sinestesia de ‘Até o Fim’ é fruto da pesquisa acadêmica de Jornalismo de Jessika e Beth. Um bom portfólio para ambas e um atestado de luta ainda maior para Beth, também assistente social que revela vencer o lúpus cinco vezes em sua trajetória. A publicação batalhada pode ser muito uma nova vitória ao conscientizar mais médicos e pacientes de difundir o tratamento humanizado pelo País.

*Lincoln Spada

Opinião: A saga inovadora de ‘Os Sapatos que Deixei pelo Caminho’

O homem-cabra não nasceu para as cidades grandes, não, senhor. E se o cabra não for tão macho, nasceu para lugar nenhum. Poim é mais um desses inveterados migrantes, que adolescente e órfão de pai parte para Santos (SP) nos anos 70. O diferencial é que seus medos e sonhos são recontados de maneira inovadora nos palcos em ‘Os Sapatos que Deixei pelo Caminho’, estreado em 2014 pelo Teatro do Kaos.

É comovente o argumento de Lourimar Vieira em recordar os preconceitos que entornam o personagem principal, em texto de Cícero Gilmar Lopes. E a direção segura de Marcos Felipe pincela a montagem com as principais características de ‘Luís Antônio-Gabriela’, teatro premiado que ele protagonizou pela Cia. Mugunzá. A metalinguagem e a mescla de linguagens, como as referências no cordel, no mamulengo e na xilogravura, além da divisão explícita de capítulos em ordem não-cronológica.

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‘Os Sapatos que deixei…’ vai além. Desde ofertar pipoca à plateia até torna-la em uma classe de bullying acolhe o público a ponto dele vivenciar o lúdico e perceber que todos são Poins, cabras ou preconceituosos. Está lá o quinteto a trocar de personagens, dizeres e até servir de coreto. Por mais que Lourimar tenha Poim sobre os ombros, o poder da peça se dá pelo envolvimento coletivo: Camila Sandes, Diego Saraiva, Fabiano Di Melo, Levi Tavares.

Cada um tem seu auge, a primeira é Camila logo em melodias tristes na abertura. Fabiano rege boa parte das narrativas. Diego e Levi complementam com humor e até os bonecos-primos e as imagens criadas na tela ganham o devido destaque. Além, é claro de uma preocupação acertada com figurino e cenário.

01A estética reforça todo o drama. Agoniei na cadeira quando via Poins berrando em silêncio, boquiabertos com os sapatos deixados pela sua mãe. Os significados dos calçados variam em cada sequência. Representam admiração atordoada, sinais de xingamentos ou as dores familiares a serem abandonadas. Como um casamento perfeito para contemplarmos os traumas de vítimas da intolerância, da xenofobia e da homofobia.

Em ‘Os Sapatos que deixei…’, casa-se a cena de desejo e paixão de Poim em um beijo camuflado por camisas. Casa-se a sequência em que ele sofre o preconceito na escola paulista. Casa-se a cena da rotina trabalhadeira dele como um bate-estaca no escritório, subindo escadas, remexendo em relatórios, datilografando. Até poder, enfim, casar abraçado com o sonho da veia artística, da sua própria vocação, da sua identidade. De fazer sua travessia em quaisquer lugares.

*Lincoln Spada

 

Os diálogos de Fabião em 100 dias na Secult de Santos

Talvez o secretário da Cultura de Santos, Fabião Nunes, não conte mais o tempo em que assumiu a pasta a partir desta quinta-feira (23/abr). Será o fatídico 100º dia, tempo de reflexão e experiência suficiente para adaptação na nova morada. Com a cabeça em praças e artemídia, as mãos sujas de grafite e os pés agitados ao discotecar, o político mantém o bom costume de prestigiar as artes.

07Já com passagem no Legislativo e Executivo, conhece a teoria da boa vizinhança a ponto de aplaudir a posse do petista Ministro da Cultura Juca Ferreira e tratar parcerias com o tucano gestor estadual da pasta, Marcelo Araújo. Os diálogos constantes têm sua razão: nesta última década, é o primeiro secretário da Cultura que difere da sigla do prefeito em Santos.

Militante no PSB, recebeu o cargo em um rearranjo político com o partido apoiando Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). Apesar de chefiar um batalhão de mais de 200 funcionários, não nomeou sua equipe e a secretaria alcança 1,5% dos cofres municipais. Em seus 100 dias, reabriu a reformada Concha Acústica e dá continuidade às conversas com a classe artística com o Plano, a Conferência e a posse do Conselho Municipal de Cultura. Estes dois últimos foram realizados recentemente.

06Por sua vez, o plano é uma de suas metas ao longo da gestão. Ainda uma quinzena de dias após a sua posse, Fabião discursou na Vila do Teatro o que norteará os seus próximos 100, 200, 300 dias enquanto secretário da Cultura. Registro aqui as palavras de Fabião entre os versos do próprio político em sua juventude.

Do nada, tudo veio

Quando alguém falou de movimentos sociais, meu cérebro imediatamente abriu uma busca, tentei escanear o que a gente tem hoje de movimento social legítimo em nosso território. Ou seja, a nossa cidade está numa zona de conforto absurda no ponto de vista da Urbis. Não só do pensamento da arte e da cultura, mas de toda Urbis. Estou tentando me lembrar qual foi o último grande edifício construído, espaço construído, que me falou ‘nossa, adorei esse prédio. Algum arquiteto fez’. A gente não tem isso. Ou seja, existe um apagão da percepção do nosso espaço territorial, que é o que a gente escolheu para viver. (…)

01Essa nebulosidade que a gente vive na cultura santista, ela tem uma origem que é a falta de transparência. (…) É uma falta de transparência nas decisões (do Poder Público). (…) Então seja, quanto a falta de critérios, o Plano vai construir. Ele vai dar uma segurança para o secretário de Cultura de Santos, que talvez não seja eu.

Provavelmente não serei eu, porque espero cumprir meu papel e quando achar que esse papel for cumprido, posso ir embora. Pode ser daqui a dois dias, daqui a cinco anos, daqui a dez anos. Não sei. Isso vai depender do tipo que a gente vai conduzir. O que quero deixar bem claro pra vocês é que a falta de clareza e do diálogo é que gera essa área nebulosa.

Sempre tudo tento explicar

[Na sua avaliação enquanto secretário na época] Existe um desarranjo, uma desordem, é, laboral, onde várias pessoas estão, por exemplo, lotadas em funções que não exercem. Logo alguns segmentos não vão pra frente em nenhum sentido, porque não existe uma cooperação à altura. (…)

Eu estava no MISS (Museu da Imagem e do Som de Santos), que foi a atividade de lançamento de uma exposição, e estava falando com a Carolzinha e com o Felipe do Querô, e falei “Carol, existe vazios culturais”. “Não existe não, Fabião”.

05Vazios culturais no conceito que estou falando é o Estado na sua promoção, no fomento público da cultura ele não chega. Isso existe no Brasil pessoal, não? E existe um vazio onde a cultura produzida nesses lugares não vai a lugar nenhum, fica ali. Então não é que estou falando de um vazio de criação, mas um vazio de comunicação.

E nada creio, nada posso acreditar

Essas respostas (sobre questões culturais) não vai ser o Fabião que vai dar, então estou muito tranquilo, porque a gente vai construir de uma maneira coletiva, de uma maneira colaborativa. E é isso o que pretendo fazer, ou seja, estabelecer critérios. Estou há 16 dias, abri três pastas. É a pasta de demandas individuais, demandas coletivas e demandas internas. São caixas. Porque se eu não tiver essas caixas, eu não tenho como sair da caixa.

Elas são três caixas, mas eu vou ter que conectá-las, porque são tudo a mesma coisa. A demanda individual é a demanda de alguém que quer fazer uma coisa, que tem um entorno, uma família, um filho. Então não ela não é só individual, ela é de um segmento, de um grupo, de um vetor.

08E a demanda coletiva ela é muito mais forte. Aqui, já senti em algumas falas, um anseio maior do cinema – precisamos de mais brasa porque a nossa sardinha não está assando -, porque quem está com a fábrica de carvão é o vetor carnaval. Se a gente estabelecer uma conexão, uma opção de bater de frente com o carnaval, a gente não vai a lugar nenhum.

Porque o carnaval (…) é a maior manifestação cultural do Brasil, ela é. Agora se ela vai continuar, é a gente que vai ter que subverter esta lógica. Eu vejo teatro no carnaval, eu vejo cinema no carnaval, eu vejo artes plásticas no carnaval, ou seja, se a gente ver isso separado, apartado, a gente não vai a lugar nenhum.

Deus é Krishna ou Alá?

03Eu sou um cidadão planetário, não sei se você vai ser, se você quer ser. Hoje estou trabalhando aqui. Acho que a gente tem universidade pública aqui e não é pra santistas, a gente tem universidade pública aqui para entrar no rol das universidades públicas.

Se você for entrar na Unifesp, talvez 2% sejam de pessoas da região, porque nossos santistas estão em Uberaba, em Manaus, na Paraíba. Isso chamo de conexões aéreas, de raízes aéreas, e o mercado é uma coisa que a gente vai ter que debater no plano.

Deus é DNA? Deus sei lá.

02Se vocês me perguntarem: onde tem cultura? A Secult tem o que falar ou não tem? Eu acho que tem. A Escola (de Artes Cênicas Wilson Geraldo) está mal engendrada, está pouca audaciosa, está ruim, precisa melhorar, acho que ela te formou de alguma maneira. (…) Você sabe o que tem que melhorar, você sabe melhor do que eu. Você fez a escola, eu não.

Bem, onde mais tem cultura? Tem no Guarany, tem, deixa eu falar outro lugar bacana, tem no Emissário Submarino? Tem na Vila? Na Arte no Dique? Aí o que eu quero, é eu Secult perguntar para sociedade, onde tem cultura? E aí vai ser uma avalanche de respostas. Aqui tem cultura, aqui tem cultura, aqui tem cultura… Vai ter cultura pra todo lado.

*Lincoln Spada

Opinião: O timing de ‘Reclame – Uma História de Amor’ nos faz viajar ao passado

Boi-da-cara-preta, ‘We Will Rock You’, ‘Carinhoso’ ou Marcha Nupcial. Há certas músicas que embalam fases de nossa vida, que nos remetem a bons amigos, ex-namorados e até aos nossos familiares. Trilhas sonoras ideais vindas das rádios tão constantes em nossas salas de estar.

Porém, a nossa vida também é marcada pelos intervalos dessas canções: os comerciais. Como hits que estão bem guardados na mente. É fato que o ritmo do seu pé já acompanha só de você ler ‘Não adianta bater, eu não deixo você entrar…’ ou ‘Três hambúrgueres, alface, queijo molho especial…’

E para provar como também há comerciais que marcaram época, a Cia. Cenicomania apresenta a divina comédia ‘Reclame – Uma História de Amor’, em temporada desde 2012. O espetáculo é como um programa de rádio, não há hiatos e empolga os espectadores a todo instante, fazendo questão de ressaltar que a peça é para o público, até colocando-o como centro do espetáculo. Afinal, são as cadeiras quem estão no palco.

A afinidade do elenco há quase um ano em temporada melhora a peça. Em vez de parecer desgastados, a direção permite pequenos improvisos dos atores para revigorar a peça. O timing das personagens é ótimo e nos atrai a entrar no espetáculo. A peça é ainda mais convidativa com os produtos comerciais entregues à plateia, a troca de figurinos e as notícias do radiojornal delineando cada década.

Apesar de ser uma viagem dos anos 30 ao 90, os personagens envelhecem mais devagar, numa trama comum às radio e telenovelas: o triângulo amoroso. E embora possa ser uma história batida, o viés cômico se rejuvenesce entre Rodolfo (Fábio Prado), Lourdes (Emanuella Alves) e sua ex-melhor amiga Janete (Cristina Ribas).

Há tantos cuidados entre atores, o autor Sérgio Manoel, a direção musical de Nailse Machado e, claro, a diretora Miriam Vieira, que até é difícil notar as brincadeiras e improvisos de todos os personagens. Aliás, embora o elenco seja maior do que o trio – o próprio Sérgio, Roberto Santos, Guilherme Silva, Cristina Moda, Rinaldo Sant’Anna e o pianista Marcio Dias -, todos têm seus grandes momentos e dão a devida agilidade que pede o teatro.

E é este ritmo bem-humorado e atuação impecável em reclames despercebidos ao longo dos anos que permitem com que a gente viaje pela história da propaganda brasileira e também em nosso próprio passado.

*Lincoln Spada

Opinião: ‘No Brasil, quem gosta de música é minoria’, diz Ed Motta

‘Cantor e compositor de MPB do Rio de Janeiro’. A auto-descrição de Ed Motta em seu site pessoal é incompleta. Conhecido pelo grande público por ser sobrinho de Tim Maia, alcançou seu auge no final dos anos 80 e manteve seu nome na mídia por sua verve artística em 1999. O hit era a música ‘No meu coração você vai sempre estar’, famosa por acompanhar a animação ‘Tarzan’. Desde então, coleciona uma geração de polêmicas fora dos palcos.

Talvez criticar outros ritmos e o país seja o seu desabafo por não formar públicos no Brasil. Talvez seja sua assessoria o incentivando a conseguir manter seu nome na mídia. A última cutucada veio por Facebook, numa postagem no último dia 9: “agradeço e fico honrado em ser prestigiado pela comunidade brasileira, mas é importante frisar, não tem músicas em português no repertório, eu não falo português no show (…) não venha com um grupo de brasuca berrando ‘Manuel’ porque não tem”. Ok, é sua turnê europeia.

02O problema é quando continua o post. “Verdade seja dita, que meu público brasileiro de verdade na Europa, é um pessoal mais culto, informado, essas pessoas nunca gritaram nada, o negócio é que vai uma turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil, público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa gritar nome de time”. O problema é sua clara arrogância de destratar o público e querer conceituar o que é música.

Ed mais uma vez perde a oportunidade de transitar entre o MPB que o alçou a hit e o jazz norte-americano que tanto devota. No contato com os fãs, com o outro, poderia sim convidá-los a apreciar o ritmo que ele leva em seus palcos. Opta por ofender, ironizar e contrariar. Nos comentários do post, ofendeu quem passasse lá: nordestinos, gente do interior, sertanejo, axé e, principalmente, brasileiros. Chamou de carma a sua nacionalidade, xingou o Brasil como ‘país de merda’, ‘terra ignorante’, até xingou ‘indígenas’ e ‘pedreiros’.

Além do intelectual disseminar preconceitos, a frase que guardo ao final é esta: “No Brasil, quem gosta de música é uma minoria, o resto sai pulando igual bicho atrás de um trio elétrico”. Afinal, se a arte é a expressão de alguém ou povo para transcender emoções, instantes, o que não seria um bloco de carnaval, um show de sertanejo universitário ou o Festival de Parintins? É tão música quanto o som do saxofone, só que em vez de erudito é popular. Em pleno século 21, conceituar arte como aquela voltada às elites é mais do que desrespeito ao gosto dos outros. É comprovar que não entende nada de arte.

*Lincoln Spada

 

Opinião: Referenciar ‘De Pagu a Patrícia’ é lugar-comum

Referenciar todas as artes de Santos a Pagu é lugar-comum. Referenciar o livro ‘De Pagu a Patrícia’ (compre aqui) da doutoranda em Comunicação, Márcia Costa, também. De dez conversas sobre jornalismo cultural na Cidade, dez vezes relembro a atuação da musa do Modernismo e dez me pedem o título emprestado. Esta é a primeira noite que ele dorme longe de casa, na estante de uma adolescente que me perguntou: “O que ler aos 15 anos?”.

01Apesar de ser uma tese editada pelo selo Dobra Universitário (2012), a obra é permeada de didatismo para recontar os últimos anos da expoente artista plástica, escritora e diretora teatral, Patrícia Galvão. Nascida em São João da Boa Vista em 1910, a jovem com olhos de fazer morder faz da política uma causa e causa constantes detenções e viagens a ponto de entrevistar Freud e ver a coroação do imperador chinês Pu-Yi.

De todas as dezenas de biografias anteriores, ainda faltava o registro da última estação de Patrícia. Em Santos, terra que acolheu desde 1954 junto do segundo marido, Geraldo Ferraz, que viria chefiar a redação do tradicional jornal A Tribuna. Por oito anos, ela suspirava liberdade e inspirava sabedoria para uma legião de jovens que a rodeavam nos bares e na sua casa. O maestro Gilberto Mendes, o artista plástico Mário Gruber e o dramaturgo Plínio Marcos são algumas de suas constantes companhias.

02A jornalista faz do livro uma grande reportagem, e situado o curto período que ele recorta, divide de modo certo a trajetória profissional da protagonista em capítulos. Torna-a uma personagem atraente pela versatilidade. Um sobre sua relação com o teatro, outro com a literatura e, assim por diante. Fruto de um mestrado robusto, Marcia acompanha todas as publicações assinadas por Patrícia e seus pseudônimos na coluna Palcos e Artistas, Viu? Viu? Viu?, entre outras seções do jornal diário.

Longe de soar acadêmica, a publicação rememora cenas curiosas, como as conversas fiadas de Patrícia entre amigos e o esforço dela em levar à ilha o 2º Festival Nacional de Teatro dos Estudantes de Paschoal Magno, em 1959. O evento enalteceria de vez as artes cênicas na Cidade e mobilizaria uma classe de atores e diretores-autores nos clubes e associações.

Até uma rota de antigos bares que mais frequentava é citado durante entrevistas com seus contemporâneos, como o sobrinho Clóvis Galvão. Claro que há uma série de perguntas que destrinchamos a cada parágrafo, por mais que exceda pelas referências históricas. Mas é preciso lembrar que a faceta – múltipla – estudada por Marcia é do jornalismo cultural, e isso ela faz em uma análise completa como boa pesquisadora.

04Um ponto certeiro é a distinção da jovem militante Pagu e da Patrícia de Santos. De todos os livros sobre a artista, ‘De Pagu a Patrícia’ pincela-a com um ar de mãezona dos intelectuais, com olhar entre o blasé e a melancolia nas fotos, e com trechos intensos que tentam educar o público leitor às obras-primas de Arrabal, Fernando Pessoa e Octavio Paz.

É perceptível a paixão implícita da autora à jornalista e artista, mas é impossível não se fascinar com a personalidade daquela que efervesceria a imprensa, os teatros e os points culturais de Santos. Portanto, referenciar o livro é valorizar não só o legado da protagonista, mas compreender o embasamento de uma geração de ouro nas artes da Baixada Santista.

*Lincoln Spada