Arquivo da categoria: Teatro

Opinião: Tudo soa bem-vindo em ‘Benjamin, o Filho da Felicidade’

Por Lincoln Spada | Foto: Fausto Franco

Após 130 anos da estreia do primeiro grande palhaço negro brasileiro, ‘Benjamin – O Filho da Felicidade’ chegou aos palcos por artistas locais na Baixada Santista. Um teatro de bonecos em miniatura e tamanho real remetem às cenas do pai capataz e da mãe escrava: “O destino de negro era fugir”.

Tal máxima ganhar ares ciganos quando o protagonista vai ao Circo Spinelli, mas a peça tem como mote ‘fazer o palhaço’ ou ‘ser o palhaço’. Benjamin tomou batatas e tomates até rumar à segunda opção. Este clímax é em Santos, numa memória vexatória sobre a hostilidade da ilha diante de um negro no picadeiro – a questão racial segue a desafiar personagem e vida real. 

O clima perene de circo vem da vara cênica com bambolês bicolores evidenciando de cartolas a discos. O elenco em quarteto de um idoso que beira ao Benjamin (Hugo Henrique) acima de uma torre ornada de figurinos mambembes. Números de clown vão ao piso: o jovem Benjamin (Jair Moreira) tem suporte de duas mímicas (Emanuella Alves e Kevelin Santos).

Jair é um ótimo anfitrião e joga bem em cena com Emanuella. Além das esquetes de corre-corre ou com baldes, o riso alcança o ápice nas imitações do marechal Floriano e do crítico teatral. O teatro coincide com o ritmo da linguagem circense. Tem direito às ‘Lonas Azuis’, a tributos artísticos e ótima interação com o público.

Tudo soa bem-vindo, êxito da diretora Miriam Vieira. Entusiasmo maior é que ‘Benjamin’ surpreende por não remeter a nenhuma das peças recentes da diretora, do elenco ou do dramaturgo Ronaldo Fernandes. Tornam em memória viva a história do multifacetado ator, autor, compositor, cantor, figurinista, palhaço e produtor cultural do teatro circo brasileiro.

Opinião: Monólogo ‘Não Ela’ é um tratamento de choque preciso para plateias

Por Lincoln Spada | Foto: Lairton Carvalho

Chega ao 34º dia “o procedimento que despe o passado obsceno de uma mulher para a plenitude de sua existência”. E o monólogo ‘Não Ela – Experimento Vênus Pudica’ logo nos leva à freudiana pulsão de morte. Fruto da autenticidade de Letícia Tavares no trabalho mais potente da atriz que já vi em Plínio Marcos, García Lorca e musical infantil.

Em um jogo de luzes e sombras, a peça de plásticos infinitos é um tratamento de choque para a plateia. Nas fileiras, algumas mulheres consentiram com a personagem, em lágrimas ao tentar recordar a cicatriz cesariana. Lá se vão memórias do primeiro banho e das incertezas de quem sente na pele a cultura maternal vigente.

Entre homens, a cena de um striptease é sucedida por expressões de repulsa interna. A atriz relata uma série de assédios desde criança por um primo ou um segurança de mercado, até fazer oral por quem lhe prometera amor eterno. “As coisas foram acontecendo sem me permitir a sentir” repercute como síntese das experiências de afeto de boa parte das mulheres.

O processo de (des)construção do papel da mulher na sociedade corta toda a montagem: pulverizada de dualidades. Ora a virgem santa, ora a femme fatale. E a artista ocupa e decupa cada lugar-tempo do teatro, com direito a fôlegos, como hablar amores. Enfim, é uma carga emocional da personagem que extravasa a ponto de nos atar até o fim. À ela, cabe aninhar, temer ou admirar?

Opinião: Um fantástico balé do cotidiano em ‘Resíduos’

Por Lincoln Spada | Foto: Bruna Quevedo

Salgadinhos, pétalas e um samba-canção de outras gerações. As dimensões da caixa preta se emboloram no cruzamento do que o trio de atores descarta no decorrer de ‘Resíduos’. A não-palavra do elenco é substituída por um fantástico balé do cotidiano. Não que sons ilustram a maioria da peça, mas se cadencia um ritmo nos passos dos artistas.

A individualidade no vai e vem de cada ator tarda os clímaxs: pontualmente quando trio ou duplas. Sozinhos, Felippe Alves, Marcus Di Bello e Paola Caruso retratam nossas intimidades, como uma ida ao cinema ou um desleixo no quarto. Cabe aqui memórias da plateia ou uma reflexão sobre a quantidade de lixo diário que geramos.

Juntos em cena, a sustentabilidade é sobreposta pelo imaginário da plateia. Um êxodo representado quando uma deixa a mala, outro abre os pertences. Noutrora, a falta de entrosamento refletida quando revezam suco e bolachas. O ápice é a subjetividade do cortejo dos atores enfileirando cadeiras a um contragosto de Paola a se assentar.

Também há risos do público, durante áudios icônicos de novela. O jogo lúdico de emergir o imaginário comum é o forte da peça dirigida por Dario Felix. O resultado da dramaturgia coletiva é uma evolução de abstrair estéticas e pautas de elenco (‘Meu Deus…’) e direção (‘Sleep Mode’). Uma interpretação inspirada dos versos de Drummond: “Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim?”.

 

Opinião: ‘Lágrimas de Laura’ e a sua força dramatúrgica

Por Lincoln Spada | Foto: Maurice Pirotte

“É preciso parir a avó Laura”. Nasce ‘Lágrimas de Laura’, peça protagonizada por Priscila Ribeiro, que nos convence a viajar épocas tão somente com uma cadeira colonial e um espelho emoldurado na vertical, levemente coberto com uma toalha de renda. Um manifesto: a força do teatro está na dramaturgia assinada pela atriz.

A obra compreende na matriarca envelhecendo diante da narradora. Reflexões sobre corpo, força e servidão atravessam todo o enredo, entremeado de cenas singelas. A porta-bandeira durante o hino da X-9 e a agraciada durante o ritmo das orixás. Maior dor para a plateia vem da saudade, do banzo, interpretado entre personagens que podem ser a avó, a neta, outra, mas também as demais mulheres negras.

A obra nos aproxima a compreender a história da senhora que ensina a lidar com a dor engolindo o choro. A artista lida bem entre a relação com o espelho e o público, ecoando sentenças, como “eu acho que o afeto é um hábito”. O desafio da diretora Juliana do Espírito Santo é ampliar o espaço cênico ou a movimentação da atriz, a fim também de potencializar mais a sua expressão vocal.

Não à toa é marcante quando o palco se torna num rito de canções e bençãos de arruda. Último ato, é uma verdadeira homenagem ao público em geral – em especial às mulheres negras presentes. Sem detalhar, a peça é uma moldura coerente a dar visibilidade a quem é silenciada diariamente.

Três tradicionais Encenações da Paixão de Cristo acontecem em São Vicente

Por Prefeitura de São Vicente

A ‘Encenação da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo’ chega a sua 27ª edição. O maior espetáculo teatral da Área Continental iniciou em 1991 e reúne vicentinos e turistas para contemplarem a peça. Neste ano, o evento será realizado entre os dias 19 a 21/abr (1º ato, missa e 2º ato), às 19h, na Praça 128, s/nº, ao lado da Paróquia São José de Anchieta.

A apresentação conta com direção dos irmãos Eric e Michel Torres. Ela mobiliza 200 pessoas entre atores, músicos, dançarinos, equipe de apoio e, claro, a participação da comunidade. Segundo Eric, “o diferencial deste ano é contar de forma fácil e acessível essa importante história, buscando atrair pessoas que não são da igreja”. Com entrada franca, evento arrecada 1 Kg alimento não-perecível.

Inspiração do circo

‘Via Dolorosa – A Paixão de Cristo’ acontecerá de 18 a 21/abr, às 20h, na Praça Tom Jobim. O espetáculo de rua, que ocorre desde 2007, abordará do nascimento à ressurreição de Jesus Cristo. Muitas cores, vida e harmonia estão previstas para entreter os vicentinos que prestigiarem a peça no formato lúdico circense.

Está previsto ainda um coro com músicas do cancioneiro popular. Além disso, atores vão cantar e contar a história do Filho de Deus. A direção é de Rodrigo Caesar e Lucas Magalhães, que diz: “Teremos muitas novidades no roteiro, como um bilheteiro em um espetáculo de rua, um domador de circo sem animais, mulher barbada e algumas pitadas de humor para contar essa linda história, que teve final feliz: Jesus ressuscitou”.

De acordo com a direção, a mostra não é religiosa. É uma exibição que conta a história de um importante ícone religioso de grande relevância. “Esperamos, contudo, levar muita cor, luz, alegria e muita arte a todos”, ressalta Lucas. A entrada para conferir a história, que será contada nos moldes do circo clássico, é gratuita.

Área Insular

A comunidade da Igreja Nossa Senhora do Amparo (Avenida Capitão Mor Aguiar, 773, Centro) realiza 19/abr, às 18h30, e 20/abr, às 19h30, a ‘Encenação da Paixão e Ressurreição de Cristo’. O espetáculo é gratuito e conta como foi o último dia de Jesus na terra, seu sofrimento e morte. Ele é resultado do trabalho de uma equipe de 96 pessoas, composta por atores e pessoas que trabalham nos bastidores. De acordo com a organização, a expectativa é receber cerca de 1,3 mil pessoas.

Em São Vicente, teatro de rua ‘Via Dolorosa’ entra em cartaz nesta semana

Por Lincoln Spada

O Coletivo de Artes de São Vicente realiza a partir desta semana uma temporada de sessões gratuitas do espetáculo ‘Via Dolorosa’, o tradicional teatro de rua que faz uma releitura da Paixão de Cristo.

Entre os dias 18 e 21/abr (quinta a domingo), as sessões às 20h serão na Praça Tom Jobim (Gonzaguinha). Por sua vez, no fim de semana seguinte (27 e 28/abr), às 20h, as apresentações serão no Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente (Rua Frei Gaspar, 280).

Sinônimo de resistência e reinvenção, Elza Soares é tema de musical no Sesc Santos

Por Sesc Santos

A trajetória de Elza Soares é sinônimo de resistência e reinvenção. As múltiplas facetas apresentadas ao longo de sua majestosa carreira estão em cena no musical ‘Elza’, que se apresenta 20/abr (sábado, às 20h) e 21/abr (domingo, às 18h), no Sesc Santos (R. Cons. Ribas, 136). Ingressos de R$ 9 a R$ 30. Classificação: 14 anos. Duração: 140min.

Larissa Luz, Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacorte e Verônica Bonfim dividem a missão de evocar a intérprete, através do texto de Vinícius Calderoni e da direção de Duda Maia. Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet assinam a direção musical e o maestro Letieres Leite foi o responsável pelos novos arranjos para clássicos do repertório da cantora. O projeto foi idealizado por Andrea Alves, da Sarau Agência.

O espetáculo foi desenvolvido ao longo dos últimos meses, no momento em que Elza se encontra no auge de uma carreira marcada por reviravoltas e renascimentos. Ao lançar seus últimos dois discos, ‘A Mulher do Fim do Mundo’ (2015) e ‘Deus é Mulher’ (2018), a cantora não somente ampliou ainda mais seu repertório e o imenso leque de fãs, como conquistou, mais uma vez, a crítica internacional, e se consolidou como uma das principais vozes da mulher negra brasileira.

“São sete atrizes negras e múltiplas, como a Elza é. Diante da responsabilidade enorme, eu estabeleci limites de fala para mim, por exemplo, em relação a alguns temas. Limitei a minha voz e disse que não escreveria nada, queria os relatos delas e as opiniões. Pedi a colaboração delas, das experiências vividas por uma mulher negra”, conta o dramaturgo.

Tal processo colaborativo se estendeu para a música. O processo gerou ainda duas canções inéditas que estão na peça: ‘Ogum’, de Pedro Luís, e ‘Rap da Vila Vintém’, de Larissa Luz. Se a escolha de Pedro para a função foi referendada pela própria Elza – que gravou e escolheu um verso do compositor para nomear seu último disco –, Larissa já estava envolvida com o projeto desde o seu embrião.

As atrizes que dividem o palco com Larissa passaram por uma série de audições, em um processo que privilegiou intérpretes multifacetadas. Em cena, elas se dividem ao viver Elza em suas mais diversas fases e interpretam outros personagens, como os familiares e amigos da cantora, além de personalidades marcantes, como Ary Barroso (1903-1964), apresentador do programa onde se apresentou pela primeira vez, e Garrincha (1933-1983), que protagonizou com ela um dos mais famosos e tórridos casos de amor da recente história brasileira.

Marcada por uma série de tragédias pessoais – a morte dos filhos e de Garrincha, a violência doméstica e a intolerância –, a jornada de Elza é contada com alegria. Foi este o único pedido da própria cantora. “Apesar de uma força arrebatadora, Elza tem muita leveza. É divertida. Mais do que nos pedir qualquer coisa, deixou claro que sua história é marcada por uma força absurda de viver. Que, apesar de tudo, tem garra, tem amor, tem opinião”, completa a diretora do espetáculo.

O musical ‘Elza’ ganhou os prêmios Reverência (espetáculo, direção, dramaturgia e arranjo), Cesgranrio (direção e elenco) e APCA (dramaturgia), além das 38 indicações a outros prêmios, como o Shell (música) e APTR (direção, iluminação, música, elenco coadjuvante, atriz em papel protagonista).