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Censura: Prefeitura de Cubatão suspende mostra imaginária no Anilinas

Por Lincoln Spada

Exatamente há uma semana, a Prefeitura Municipal de Cubatão comunicou em nota a suspensão de uma exposição fotográfica no Galpão Cultural, prevista para 21/mar. A nota lançada na antevéspera do evento foi abordada como uma censura pelos artistas do espaço e da região nas redes sociais.

Ora 2019, ora 1964, censura tem o mesmo significado no dicionário: aprovação ou desaprovação prévia de circulação de obra artística ou informativa com base em critérios morais ou políticos. Assim, usaremos o termo. E considerando o cartaz virtual do evento reproduzindo tarjas críticas ao quadro de nudez renascentista, ‘O Nascimento de Vênus’, a metalinguagem foi aplicada na cidade da Rainha das Serras.

Ironia maior é que nenhum membro da Prefeitura analisou o conteúdo das peças antes do anúncio do cancelamento. A razão: a mostra fotográfica jamais existiu. O que já estava planejado há 20 dias e ocorreu no ‘Toda Quinta Tem‘ era poesias, música acústica, discotecagem, esquete teatral e, no máximo, desenhos em formato A5, no Galpão Cultural – ocupação artística de coletivos locais no Parque Anilinas.

O parque é gerido pela Secretaria de Turismo, mas a mostra imaginária teve o seu anúncio censurado em reunião emergencial na tarde de 19/mar a pedido da secretária municipal de Cultura a um membro do Galpão. Bailarina e diretora artística premiada no exterior, a titular da pasta estava acompanhada do secretário de Comunicação Social, ex-assessor especial do Ministério da Cultura.

Noutros anos, cancelamentos de atividades culturais por viés moralista ou político já foram repreendidos publicamente por ministros do setor. Por exemplo, Roberto Freire abordou em 2017 sobre o fechamento do ‘QueerMuseu’: “O fundamental é destacar o erro da decisão de proceder o fechamento da exposição (…). Quem fecha exposições de arte – e aqui, cabe repetir, não importando saber o juízo de valor das obras – é a ditadura”.

Em nota, o Galpão Cultural informou que “nos foi posto que a arte de promoção do evento havia causado constrangimento em uma parcela da sociedade, chegando ao conhecimento do prefeito, que solicitou que providências fossem tomadas, pondo em risco a continuidade de seu trabalho frente a secretaria”. Se é optativo gostar de Bouguereau, segundo os artistas, não houve alternativa para inserir classificação indicativa ou até retirar só as tais peças, mas excluir a suposta exposição como um todo.

A Revista Relevo solicitou informações da Prefeitura em 22/mar sobre esta mostra fotográfica (nome, autoria, quantidade de obras e razões para não ser realizada), se houve interferência direta do prefeito, e se concordava que houve um ato de censura. Considerada como suspensão, a revista questionou a data de lançamento da tal exposição. Não houve resposta.

De fato, o ‘Toda Quinta Tem’ concentrou dezenas de jovens e artistas, como também dos presidentes dos conselhos de Cultura de Cubatão e de Santos, Thiago Garcia e Júnior Brassalotti. Não houve representantes oficiais da Prefeitura para acompanhar ou esclarecer sobre as eventuais obras censuradas. Todas as ações propostas pelo Galpão Cultural ocorreram, até citando a classificação indicativa no início das atrações.