Arquivo da tag: Arismar do espirito santo

Arismar do Espírito Santo é o próprio instrumento musical

O santista Arismar do Espírito Santo era um baterista em potencial aos 20 anos, um baixista impecável aos 30, e um dos guitarristas mais prestigiados aos 40, a tal ponto que hoje, aos 57, já não se define como um músico: “Chega uma hora em que o instrumento sou eu”.

E esse senhor instrumento da MPB compôs nas últimas quatro décadas uma trilha versátil, passando pelo xote, afoxé, choro-canção, samba e valsa. Todos esses ritmos culminam no último CD ‘Roupa na Corda’, que ele lançou em 2013 no 40º aniversário de sua carreira.

01Bem, seu primeiro lar já era envolvido em música lá pelos anos 50. Seu pai, um então representante comercial, que dedilhava instrumentos de corda nas horas vagas, encantou-se pela voz de uma cantora de rádio da Cidade. Na emissora, reconheceu-a pelo timbre e logo os dois se apaixonaram e formaram família. Daí, a herança de voz e violão de Arismar, que nasceu em 9 de julho de 1956.

Nos primeiros anos de vida, já brincava com os acordes. “Mas toda criança toca um violão como um contrabaixo, porque puxa a corda”, diz em meio a risadas altas e gostosas. Ele conta animado que, antes dos 10 anos, já tinha um violão para chamar de seu, “era uma delícia viver treinando nas esquinas do Canal 1 e da Rua Quintino Bocaiúva com a praia, no Gonzaga”.

Por gostar demais do compasso das escalas musicais, decidiu pesquisar as batidas da bateria como autodidata: “Arranjava tempo entre a escola e o trabalho em uma livraria”.

Improvisando como Pelé

Estava bem claro para ele que seu único rumo seria a carreira artística. Aos 17, aceitou o convite para ser baterista de uma banda na Baiúca, então famosa casa noturna de São Paulo. “Às 17h30, já subia a serra de ônibus e só voltava para Santos de manhãzinha. De segunda a segunda”. E essa foi sua rotina de jazz, blues e samba até meados da década de 70.

Dessa prática diária agitando casais e rodas de amigos, passou a improvisar com os instrumentos. Inspirava-se tanto nos shows de samba do Wilson Simonal e de bossa nova de Dick Farney, quanto nos treinos do Peixe, na Vila Belmiro.

03

“Para mim, aquele time era a orquestra sinfônica da bola. Os adversários queriam morrer com o jeito moleque do Pelé, o regente negro”, empolga-se Arismar com sua fala tão ligeira quanto sua memória. “Ele levantava o braço, e ao receber a bola no peito, já driblava e chutava para o gol. Fazia o futebol parecer fácil, por ser tão criativo dentro de campo”.

O fã santista é tão criativo quanto o jogador. “É porque, como diziam bastante em Santos, tenho ‘alegria nos dedos’”, comenta. “A música tem um lado saudável, pois os cientistas dizem que a sensação de escutá-la faz com que o nosso córtex (uma das camadas do cérebro) pule de felicidade. Como uma oração, um reiki, uma energia boa que gera paz”.

Assim, compara a música como o “passaporte de sua vida”. Foi ela quem o conduziu a uma caminhada de sucesso tocando piano, guitarra e outros instrumentos com Heraldo do Monte, Dory Caymmi, Lenine, Roberto Sion e mais de duas dezenas de artistas e bandas pelos quatro cantos do mundo. Com o seu amigo e também multiinstrumentista Hermeto Pascoal, já viajou em várias turnês por quase dez países da Europa.

02Ele é só elogios ao colega. “O ilustre Hermeto me deixava à vontade para tocar”. O santista também se mostra agradecido a Dominguinhos, que lhe rendeu a projeção nacional. “Em meados dos anos 80, tocamos jazz juntos num festival da Globo. Durante a apresentação na tevê, assobiei por uns dois minutos. Foi impressionante como as pessoas me reconheciam no dia seguinte”.

Raciocínio cruzado

Todos que acompanham Arismar já entendem seu raciocínio cruzado. Não apenas porque cada instrumento que toca é influenciado por outro, mas porque “já teve uma vez, em uma gravação, que errei, tocando baixo pensando que era guitarra. Mas não é que até assim a banda gostou do som?”.

Para ele, os 40 anos de carreira nos ombros só melhoraram sua arte. “Ensaio quatro horas por dia. Essa experiência faz com que minhas mãos sejam mais leves, ágeis. Como se me cansasse menos nos arranjos”. Aliás, arranjos feitos em inspirações quase intuitivas.

“De repente, como uma brincadeira o ritmo vem na cabeça, e começo a causar um ‘pera aí, dá pra criar uma música daí’, e vou buscando harmonizá-la, independente do gênero. A cada dia, aprendo mais”, anima-se o artista, que relaciona o seu trabalho com o de um cozinheiro, que vive testando temperos para novos pratos.

É com essa dedicação que ele produziu as 16 faixas de seu mais recente disco, ‘Roupa na Corda’. Uma obra-prima gravada em apenas três dias, numa fazenda em Itapetininga (SP) – rendendo a segunda indicação consecutiva para o célebre Prêmio Governador do Estado para a Cultura.

Publicado originalmente na A Tribuna em 19 de março de 2014