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2º Santos Film Fest ocorre entre dias 17 e 23; acesse a programação

Por Secult Santos
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O 2º Santos Film Fest – Festival de Filmes de Santos realiza sua segunda edição entre os próximos dias 17 e 23. Serão apresentados 34 filmes, em mostra sem caráter competitivo. A programação também abrange debates, oficinas formativas, apresentações musicais e exposições.
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O tema desta edição, ‘Cultura faz bem’, reflete sobre o momento cultural do País e a importância da cultura na construção de uma sociedade mais justa. Assim, o festival oferece à população uma gama de filmes que discutem questões contemporâneas, históricas e ligadas à cidadania.
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O festival, com programação gratuita, ocorre em nove espaços da Cidade: Cine Roxy 5 (Av. Ana Costa, 443, Gonzaga), Cine Roxy 4 (Av. Ana Costa, 465, Gonzaga), Cinemateca de Santos (Rua Ministro Xavier de Toledo, 42, Campo Grande), Pinacoteca Benedicto Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15, Boqueirão) e Instituto Arte no Dique (Rua Brigadeiro Faria Lima, 1349, Rádio Clube).
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Também estará na Unimonte (Rua Comendador Martins, 52, Vila Mathias), Roxy Premium Lounge (Avenida Dona Ana Costa, 465, 1º piso, Gonzaga), Shopping Pátio Iporanga (Avenida Ana Costa, 465, Gonzaga) e Sesc (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida).
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Homenagens
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O 2º Santos Film Fest homenageia o ator Luciano Quirino. Na abertura, no próximo dia 17, 20h, no Cine Roxy 5, o ator santista, hoje residente no Rio de Janeiro, apresentará o curta-metragem ‘Os Bons Parceiros’, exibido em Cannes. O festival ainda traz filmes em que Quirino atuou, como ‘Detetives do Prédio Azul’, ‘Gonzaga de Pai pra Filho’ e ‘Domésticas’.
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A cerimônia de abertura também homenageará a locadora Vídeo Paradiso, dirigida por Marcelo Rosendo e Rosana Datoguêa, que apoia praticamente todos os festivais e iniciativas cinematográficas na região, e o concerto ‘Música Para Cinema’, da Banda Marcial de Cubatão, regida pelo maestro Alexandre Felipe Gomes.
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No dia 18, 19h, no Roxy 5, a homenagem será para a atriz Ondina Clais. Destaque nos palcos, nas telinhas e telonas, a atriz esteve em filmes de destaque recentes como ‘João, o Maestro’, ‘O Filme da Minha Vida’ e o curta-metragem ‘Noites Brancas em Sábado de Glória’, primeiro trabalho dela no cinema.
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>> 17/out | 19h | Cine Café – Roxy Gonzaga (Av. Ana Costa, 443/Santos) | Happy Hour Cinematográfico com Cigarra Elétrica;
>> 17/out | 20h | Roxy Gonzaga | Cerimônia de abertura homenageando a Vídeo Paradiso e o ator Luciano Quirino e exibição de ‘Os Bons Parceiros’;
>> 18/out | 10h | Arte no Dique (Av. Brig. Faria Lima, 1349/Santos) | ​Bate-papo com ator Luciano Quirino;
>> 18/out | 14h | Roxy Gonzaga | ‘Detetives do Prédio Azul’ ;
>> 18/out | 14h | Roxy Premium Lounge – Roxy Pátio Iporanga (Av. Ana Costa, 465/Santos) | Bate-papo com ator Luciano Quirino;
>> 18/out | 14h | Arte no Dique | ‘Território do Brincar’;
>> 18/out | 14h30 | Roxy Pátio Iporanga | Lançamento da exposição “Além da Cor da Pele”;
>> 18/out | 15h | Pinacoteca Benedicto Calixto (Av. Bartolomeu de Gusmão, 15/Santos) | Gonzaga – de Pai para Filho’;
>> 18/out | 16h | Unimonte (R. Com. Martins, 52/Santos) | Oficina Básica de Edição de Vídeo, com Leonardo Soler, Felipe Spinelli, Rogério Almeida e Mávila Rinara;
>> 18/out | 16h | Unimonte | Oficina básica de produção audiovisual, com Nathan Tiepelmann e Ana Paula Terra;
>> 18/out | 17h | Pinacoteca | ‘Além das Palavras’;
>> 18/out | 18h | Cine Café | Happy hour cinematográfico com banda The Classics;
>> 18/out | 19h | Roxy Gonzaga | Homenagem à atriz Ondina Clais, ‘Noites brancas em sábado de glória’ e ‘O filme da minha vida’;
>> 18/out | 19h30 | Pinacoteca | ‘Sementes de Tamarindo’;
​>> 18/out | 21h30 | Roxy Pátio Iporanga | ‘Âmago’ e ‘Histórias íntimas’;
>> 19/out | 14h | Roxy Premium Lounge | Bate-papo com o cineasta Júlio Lelis;
>> 19/out | 15h | Arte no Dique | Oficina Introdução ao Audiovisual, com Fiama Virgínia, Artur de Abreu e Bruno Landin;
>> 19/out | 15h | Pinacoteca | ‘Domésticas, o filme’;
>> 19/out | 16h | Unimonte | Oficina básica de fotografia, com Vitor Santos de Araújo e Marcelo Colmenero;
>> 19/out | 16h | Unimonte | Oficina de Linguagem Audiovisual, com Giovanna Timon e Victoria Andria;
>> 19/out | 17h | Pinacoteca | ‘Insubstituível’;
>> 19/out | 18h | Cine Café | Happy hour cinematográfico;
>> 19/out | 19h | Roxy Gonzaga | ‘A Plebe é rude’;
>> 19/out | 19h30 | Pinacoteca | ‘Punhal’;
>> 19/out | 21h30 | Roxy Pátio Iporanga | ‘Headbanger Voice – a história da rock bridage’;
>> 20/out | 10h | Arte no Dique | ‘Premiê, quase lindo’ e bate-papo com Alexandre Sorriso;
>> 20/out | 14h | Roxy Premium Lounge | Debate ‘Música em cena’ com cineastas Alexandre Sorriso, Diego da Costa e Wladimyr Cruz;
>> 20/out | 15h | Pinacoteca | ‘Além da estrada’;
>> 20/out | 16h | Arte no Dique | ‘Divinas Divas’;
>> 20/out | 16h | Unimonte | Oficina de tiros e efeitos especiais no cinema, com Delson Matos Gomes e Alexandre Valença Alves Barbosa;
>> 20/out | 16h | Unimonte | Oficina de atuação, com Juliana Fernandes;
>> 20/out | 17h | Pinacoteca | Show de Carla Mariani;
>> 20/out | 18h | Cine Café | Happy Hour Cinematográfico;
>> 20/out | 19h | Roxy Gonzaga | ‘Noitada do Samba – Foco de resistência’;
>> 20/out | 19h30 | Pinacoteca | Vernissage da exposição ‘A Magia do Cinema’, de Waldemar Lopes;
>> 20/out | 21h30 | Roxy Pátio Iporanga | ‘A Garota Ocidental’;
>> 21/out | 15h | Pinacoteca | ‘A Saga da alma de um poeta’;
>> 21/out | 16h | Roxy Pátio Iporanga | Sessão comemorativa dos 35 anos de ‘Vitor ou Vitória?’;
>> 21/out | 17h | Pinacoteca | ‘Redemoinho’
>> 21/out | 18h30 | Roxy Pátio Iporanga | Exposição ‘Julie Andrews: A Nossa Dama’;
>> 21/out | 19h | Pinacoteca | ‘Black & White’;
>> 21/out | 23h30 | Cinemateca de Santos (R. Xavier de Toledo, 42/Santos) | Virada cinematográfica;
>> 22/out | 15h | Pinacoteca | ‘Gaga, o amor pela dança’;
>> 22/out | 16h | SESC Santos (R. Cons. Ribas, 136/Santos) | Debate ‘A crítica de cinema na Baixada Santista’;
>> 22/out | 17h | Pinacoteca | ‘O Cidadão ilustre’;
>> 22/out | 19h | Pinacoteca | ‘Jauja’;
>> 23/out | 16h | Arte no Dique | ‘Nunca me sonharam’;
​>> 23/out | 18h | Cine Café | Happy Hour Cinematográfico com Tha Classic;
>> 23/out | 20h | Roxy Gonzaga | ‘Como Grãos’ e ‘Somos todos estrangeiros’.

Crítica: Em ‘Blitz’, teatro de rua provoca o senso crítico em tempos sombrios

Por Revista Relevo e Simone Carleto | Fotos de Dino Menezes (capa) e Rodrigo Montaldi

Simone Carleto á artista pedagoga, pesquisadora teatral e coordenadora da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos; doutoranda no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Em setembro de 2015, ela assistiu ao espetáculo ‘Blitz – O império que nunca dorme’, peça recentemente censurada pela PM na mesma Praça dos Andradas. Segue a crítica teatral na íntegra.

a9O espetáculo Blitz, da Trupe Olho da Rua, uma das companhias que fazem parte do Movimento Teatral da Baixada Santista, organizador do Festa 57, foi apresentado em 5 de setembro, sábado, já que no dia anterior, para o qual estava previsto na programação, houve chuva que impossibilitou a montagem. Em espaço aberto, desta vez na Praça dos Andradas, entre o Teatro Guarany e a Vila do Teatro, espaço de ocupação de grupos do Movimento, foram colocados os elementos que seriam utilizados em cena.

Bonecos de tecido preto foram colocados como almofadas, formando uma semi-arena, convencionando o espaço de representação com andaime de um lado, instrumentos para a trilha sonora que seria executada ao vido do outro e, ao meio, arquivos e microfones que foram utilizados com funções diversas durante o espetáculo.

A palavra blitz deriva da palavra alemã blitzkrieg, que em português significa relâmpago. Assim, o espetáculo é iniciado com uma intervenção na avenida que ladeia a praça e a Vila, tendo como inspiração crítica formal esse tipo de abordagem repentina de fiscalização realizada pela(s) polícia(s).

a91A temática abordada é a questão da (in)segurança pública, e de como ela é criada, tendo como ponto de vista a busca do estranhamento de procedimentos normatizados socialmente. Atores e atrizes com “roupa de guerra” assumem seu papel de sujeitos históricos na cidade de Santos, estado de São Paulo, Brasil, América Latina. Portanto, em condição periférica, tomam atitude bastante evidente no sentido de lutar por justiça social: ‘Nossos mortos têm voz’.

No que diz respeito à temática, a obra trata da história da segurança pública no País, apresentando evidências de um estado que se configura burocrático, violento, com inúmeras contradições. Assim, é estabelecida narrativa em quadros independentes, que reiteram a ideia da presença do autoritarismo a das formas de coação dos indivíduos.

A estrutura épica e tratamento cômico atribuem ao espetáculo a possibilidade de interlocução com o público e principalmente com jovens, que vivenciam a realidade das cidades (infelizmente, o que o Grupo retrata é bastante comum na maior parte delas). Desse modo, a Trupe utilizou recursos estruturais da linguagem midiática, como é o caso da televisão (programas de auditório, telejornais, programa infantil) e da mídia impressa (jornal, revista, cartazes), deflagrando discursos naturalizados, de modo absolutamente ácido.

Foto: Rodrigo Montaldi

Tomando a crise como elemento constitutivo do processo de decisão a partir da necessidade de transformação, a narrativa coloca em questão e em relação pressupostos ideológicos, como o enfoque da formação escolar e, por exemplo, a presença de atividades “culturais” a serviço da propagação de preconceitos e arbitrariedades. Para elaboração de argumentos coerentes que atribuam sentido para a atuação político-social, diversas situações são sobrepostas para que o público possa refletir.

A frase ‘Quem não vive para servir, não serve para viver’ é proferida pela personagem que apresenta um funcionário público. Este, distante da aquisição de consciência crítica, revela-se vítima do sistema, porém utiliza argumentos inculcados pela formação religiosa. A paz, defendida por Mahatma Gandhi, autor da frase citada, é termo banalizado na boca de muitos líderes governamentais, religiosos e civis da atualidade, como mais um produto de abstração, em que se lança ao vento uma pomba morta esperando que essa possa voar.

a8Expedientes do teatro popular e de outras linguagens artísticas são utilizados pela Trupe Olho da Rua para provocar o senso crítico em tempos sombrios como o que estamos vivendo. Alguns dos exemplos da criatividade do Grupo são: fábula da Chapeuzinho Vermelho adaptada e com a estrutura textual de boletim de ocorrência; comediante da “moda” com “piadas’’ preconceituosas com relação aos trabalhadores; acompanhados de refrigerante de cola, coxinha e sensacionalismo.

Além do grafite sendo feito simultaneamente ao espetáculo, nos tapumes em frente ao prédio histórico, chamando também a atenção para o espaço público que a comunidade espera ser reaberto. A ação cultural do coletivo se complementa com o bate-papo que aconteceu depois da apresentação, e que se caracteriza em parte fundamental do Festival, ligada à oportunidade de julgamento do público, parceiro essencial na busca de atitudes que possam alterar a (des)ordem social.

Workshop ‘Resenha ou Crítica – Falando Mal de HQs… com estilo’ na Gibiteca de Santos

Inscrições abertas para o workshop ‘Resenha ou Crítica – Falando Mal de HQs… com estilo’ do editor Vinicius Carlos Vieira, na Gibiteca Marcel Rodrigues Paes – Posto 5 (Orla do Boqueirão). A atividade acontece no dia 27 de agostos, das 10h às 13h, e apresenta noções básicas e os pontos principais que uma crítica deve ter, da leitura a desenvoltura, dicas de estilo, fluidez e finalização. A inscrição é gratuita e vagas para 20 pessoas. Informações: 3288-1300.

Vinicius Carlos Vieira

1Editor e crítico de cinema dos sites CinemAqui e Qlivros, é formado em jornalismo pela Universidade Santa Cecília e entre textos em jornais da região e trabalhos para portais. Em 2012, criou um site especializado em críticas de cinema, o CinemAqui (www.cinemaqui.com.br).

Em 2015, fundou o Qlivros (www.qlivros.com.br), especializado em resenhas e críticas de livros e histórias em quadrinhos. É um dos realizadores do Nerd Cine Fest Santos, circuito de filmes e atividades para o segmento Geek da região.

*Fábio Tatsubô

 

Opinião: As diferentes liberdades d’A Lenda dos Jovens Detentos’

A liberdade é um destes substantivos que conjugamos em uníssono mas que ressoam diferentes para cada um de nós. Afinal, a palavra me rende significados provavelmente diferentes do seu e de tantas pessoas. Ao meu ver, a independência financeira já me garante este valor, mas em ‘A Lenda dos Jovens Detentos’, ele corresponde a fugir das violências do pai aos olhos de Daniela, ou até de ter uma família na perspectiva de Xilí.

O par desencontrado de jovens paulistas foi feito às cegas, quando o residente da Febem (atual Fundação Casa) habitava por horas o lar de classe média, em que a filha única esperava os pais. O pesadelo de ser rendida e assaltada na própria casa dela se torna no sonho do agressor em escapar da polícia com uma boa grana de sobrevida.

01É este caráter onírico que ronda todo o diálogo do casal, talvez pela inocência realçada de ambos, talvez pelo figurino, mas principalmente pelo cenário mutável e colorido. Há as caixas de madeira que se desmontam em cama, poltronas, estantes de maquiagem e até uma ponte. Ainda o gradil, que sobre rodas, pode passar de uma memória carcerária dele à janela do quarto dela. Toda essa puerilidade está presente na interpretação de Letícia Tavares (Dani) e Bruno Galdino (Xilí).

Ponto para a direção de Diego Andrade, embora às vezes, a dramaturgia de Leo Lama peça expressões mais agressivas do ladrão. Bem, a culpa pode ser dos vizinhos do teatro de rua, já que reclamações ou janelas fechadas é comum quando se entoam palavrões. Filho do santista Plínio Marcos, Lama herda a tensão realista do caos social, mas se aprofunda sem precisar das falas cortantes, secas, dos personagens icônicos do universo do pai.

Acordado por dias rumo a um oásis, Xilí se apaixona pela refém diante de uma infância carecida de afeto e oportunidades – como boa parte dos 32 mil adolescentes presos no Brasil ano passado. Por sua vez, Dani se compadece dos dramas do menor ao mesmo tempo que discorre sobre os abusos sexuais de seu pai – como 40% dos 24 mil adolescentes vítimas desta violência em 2014. Está ali em todo o teatro os traumas e as ilusões do agressor e da refém. E nos identificamos com os sonhos de ambos.

*Lincoln Spada

 

Opinião: ‘Mulheres Negras’ têm relatos sobre inúmeros preconceitos

“Ora, se os negros foram libertos, para onde eles poderiam ir senão para as ruas? Pois se antes da abolição ele tinha, bem ou mal um lugar para dormir, par aficar, ainda que em condições subumanas, agora com a liberdade sequer ele tinham um lugar pra dormir, fazer suas referições quando as tinham”. Com estas palavras, os autores Adeildo Vila Nova e Edjan Alves dos Santos tentam argumentar a causa da desigualdade social que ronda o País.

O livro ‘Mulheres Negras’ publicado pela Afrosan junto ao Governo Estadual é originalmente um trabalho de conclusão de curso de Serviço Social da dupla na Unimonte. Por isso, a pesquisa segue com direito a agradecimentos a colegas e professores, além de considerações finais, como todo bom referencial histórico. A desigualdade econômica, de gênero e de cor é o principal alicerce da obra que versa bem a trajetória do povo negro no Brasil: a escravização, a criação dos movimentos sociais e o início das políticas públicas afirmativas.

01No entanto, as mulheres-título do livro são ofuscadas justamente pelo amplo material que as antecedem. De cerca de 150 páginas, apenas o último terço é reservado às entrevistas de oito negras bem-sucedidas, que ascenderm profissionalmente. São protagonistas de suas próprias trajetórias, já que pelos estudos, alcançaram bons empregos nas áreas da educação, saúde, Legislativo, Executivo e Judiciário, entre outros segmentos.

Em comum, são personagens em que a maioria tem origem nordestina, herdeiras de famílias com cinco membros na prole, e que todas estudaram em colégios públicos. Além da breve apresentação sobre o sucesso profissional, os autores analisam como situações de racismo são obstáculos em suas vidas fora das páginas. “É uma autoestima roubada por séculos: você é ruim, você é negra, você é suja, você é fedida (…). Um dia, uma pessoa em disse: os negros são mais fedidos”, comenta uma entrevistada.

A violência doméstica, o autoritarismo e o machismo também permeiam os diálogos, principalmente porque 62% das mulheres que denunciam essas agressões são negras. Outra entrevistada cita as más consequências da repetição desses comportamentos: “Tudo isso traz problemas enormes e consequências danosas, até a questão psíquica desta mulher, que está querendo ascnder socialmente (…), fica comprometida”.

02O acesso às universidades também contrapõem as vitórias diárias das marias retratadas no título. Segundo pesquisas no Brasil, em 2001, apenas 2% dos alunos universitários são negros, enquanto 70% dos 22 milhões de brasileiros que viviam abaixo da linha da pobreza tinham a mesma cor. “Quantos negros têm na sua sala? na minha sala de aula, tinha duas no curso de Serviço Social e três no curso de Direito”.

Mesmo assim, a questão das cotas, as expectativas de ter uma família e as relações com os pais para a educação são pontos conflitantes nas biografias, o que vale tal diversidade registrada de relatos. Embora bem escrito e referenciado por demais pesquisas (principalmente nos dois primeiros capítulos), não há dúvidas de que o auge das páginas são as raras falas em discurso direto das oito entrevistadas.

Claro que o livro não contemplaria todos os detalhes deste segmento da população. Por isso mesmo, vale-se o incentivo dos próprios autores em suas considerações finais para que mais estudantes possam pesquisar sobre as políticas públicas sociais para a igualdade racial. Vai que um dia, não seja mais necessário no Brasil que as bibliografias justifiquem cenários desiguais da atualidade com a opressão feita há séculos.

*Lincoln Spada

Opinião: O placar de reviravoltas em ‘Hamlet Futebol Clube’

Sábio ou burro, Dunga foi certeiro ao não escalar Neymar para a Copa de 2010. Com 18 anos, ainda iniciava como profissional, não tinha Libertadores, Bruna Marquezine, panicats, contrato antecipado com o Barcelona e personagem-título de gibi do Maurício de Sousa. Por maior que seja o talento, depositar a confiança em jovens promessas é um risco. Nos gramados e nos palcos.

O Teatro do Kaos vai na contramão do técnico da Seleção. Escalou um time de jovens – a se profissionalizarem – para enfrentarem um placar de reviravoltas. De todos os palcos, encenar em plena rua é tão ousado quanto ir a um mundial. Numa releitura da montagem-símbolo do consagrado Shakespeare cheira a uma final. E querer que os atores interpretem uma pelada permanente é levar os ânimos aos pênaltis. O elenco, portanto, precisa estar tão preparado para ‘Hamlet Futebol Clube’ ou para a disputa da taça em 94.

03Na trama célebre de ‘ser ou não ser’, o grupo com direção e adaptação de Marcos Felipe se divide em três núcleos. O central é formado por homens que deixam a bola rolar, em times capitaneados pelo príncipe dinarmaquês Hamlet e pelo seu tio, o rei Cláudio. Laertes e Polônio confabulam com o monarca, enquanto o coveiro e o Horácio jogam com a camisa do herdeiro, entre gols de tabela, chão de giz e lousas como marcador.

Ao longe, o fantasma do pai de Hamlet e um trio gracioso de mocinhas entre espelhos fazem coro por toda a trama. Embaladas numa trilha envolvente de rock e MPB, ora declamam versos no microfone, ora perpassam os cenários com suas coroas de flores enfeitando as faces claras. E claream o público, graças também, à liberdade dada a elas para improvisar as personagens. Para conversar e convidar o público para as cenas seguintes.

02Mesmo do outro lado da praça, ganham olhares da plateia com exceção da trupe que invade periodicamente a peça. Nesta metalinguagem, uma caravana de mambembes circulam à carroça em torno dos espectadores. No meio do campo, lançam confetes, atrevem-se no corpo a corpo, ironizam o teatro e a cidade natal de Cubatão e satirizam o embate e as loucuras da família real. Mais que um respiro cômico, o quinteto por vezes salva a compreensão geral da peça.

Sim, pelo menos duas das três vezes que sentei na arquibancada do teatro que hoje percorre em itinerância pelo Brasil. Se toda a estreia é estranha, a versão que vi dois meses depois estava mais compacta e gostosa. Desde o início da temporada, o cuidado com a cenografia e o figurino se complementam tanto como o texto e as canções. As críticas em relação ao machismo estão ali, vão do despir até depoimentos sobre Ofélias no mundo real. Como se o Brasil de hoje não fosse tão diferente às situações de violência da Europa medieval. Grande acerto da companhia.

01O entrosamento do coro e dos mambembes já garantem a entrada. A minha mais grata surpresa na terceira vez que vi os jovens foi um diálogo mais fluído entre Hamlet, Cláudio e companhia em jogo. Ora com as traições e os devaneios, ora com os duelos por causa do… Nem tem razão de contar os segredos de um clássico, mas torço para que o Teatro do Kaos emplaque mais vitórias noutras sessões.

Projeto Superação

Com direção de Marcos Felipe (responsável pela releitura), ‘Hamlet Futebol Clube’ marca a conclusão do curso de qualificação dos alunos do Projeto Superação II, do Teatro do Kaos, que tem o patrocínio da Petrobras. Tal projeto tem por objetivo qualificar profissionalmente 30 jovens e ministrar oficinas de iniciação cênica para 880 crianças e adolescentes da rede pública e privada de ensino. Em temporada, a companhia visitará 15 cidades, entre elas: São Paulo; Vitória; Fortaleza; Porto Alegre e Distrito Federal.

*Lincoln Spada