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‘Cultura em Crise’ é o tema do 4º Motim Teatral; acesse a programação na íntegra

Por Movimento Teatral

Com o tema ‘Cultura em Crise’, o 4º Motim Teatral reúne 14 coletivos cênicos para apresentações gratuitas no Centro de Santos. Mostra regional do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, a maratona de apresentações acontece inteiramente nesta sexta-feira (dia 23) com 13 horas ininterruptas de grupos artísticos.

Neste ano, trata-se de um ato pela liberdade de expressão dos artistas de rua em Santos; contra o corte orçamentário das Oficinas Culturais do Estado no interior e litoral paulista; e pró-Centro Cultural Cadeia Velha.

O termo ‘motim’ é uma insurreição de grupos contra o autoritarismo, caracterizado por atos de desobediência artística e civil que se opõem a autoridades ou o capitalismo, sendo frequentemente acompanhado de tumulto artístico, vandalismo estético e intervenções de violência poética.

O 4º Motim Teatral é uma realização do Movimento Teatral da Baixada Santista com apoio da Prefeitura Municipal de Santos por meio da emenda parlamentar do vereador Professor Igor Melo. Confira a programação:

>> 13h30 | Praça dos Andradas | ‘Festa das Flores’
Cia Incomodados de Teatro e Música | Roteiro e direção musical: Elias Tomais | Elenco: Ariadne Moreno, Elias Tomais, Juliana Lima, Juliana Sanz.
>> 14h | Praça dos Andradas | ‘É Doce ou Salgado?’
Coletivo Sanatório Geral | Texto: Betinho Neto | Direção: Miriam Vieira e Betinho Neto | Elenco: Sandy Andrade ,Liliane São Paulo, Amanda Franco e Betinho Neto.
>> 15h | Praça dos Andradas | ‘Furdunço no Casamento de Marieta’
Cia Animalenda | Direção: Danilo Cavalcanti | Elenco: Kely de Castro e Vinícius Camargo.
>> 16h | Praça dos Andradas | ‘Blitz – O Império que nunca dorme’
Trupe Olho da Rua | Texto e Direção: Caio Martinez Pacheco | Elenco: Bruna Telly, Caio Martinez Pacheco, Fabio Piovan, João Paulo Pires, João Luiz Pereira Junior, Raquel Rollo, Sander Newton, Wendell Medeiros.
>> 17h30 | Praça dos Andradas | ‘De Repente Thiago’
Esquadrilha Marginalia de Teatro de Rua | Dramaturgia coletiva | Direção: Sander Newton. | Elenco: Luiz Guilherme, Lucas Pereira e Michel do Carmo.
>> 18h | Vila do Teatro | ‘Nó Cego’
Teatro Genoma | Direção: Rodrigo Marcondes | Com Juliana Vicma.
>> 19h | Praça dos Andradas | ‘Tentativa Zucco’
Usina Utópica | Texto: Paulo de Tarso | Encenação: Douglas Lima | Elenco: Lucas Pereira, Julia Alves, Letícia Cascardi, Luana Albeniz, Mayara Andrade | Convidados: Natanael Gomes, Myller Oliveira, Vanessa Souza, Juliana Souza, Rafael Almeida, Rodrigo Alves, Patrick Gois, Udson Santos, Vinicius Ziani.
>> 20h | Vila do Teatro | ‘A Lenda dos Jovens Detentos’
Cia Muninja | Texto: Leo Lama | Direção: Diego Andrade | Elenco: Bruno Galdino e Letícia Tavares.
>> 21h | Praça dos Andradas | ‘Liberdade Prisioneira’
Cia Carcarah Voador | Texto: Cícero Gilmar Lopes | Direção: Vidah Santos | Elenco: Juan Pablo Garcia e Cícera Carmo.
>> 21h | Vila do Teatro | ‘Elogio ao maluco, Beleza?’
Cia Teatral Art e Manha | Texto: Natan de Alencar e Ricardo Oliveira | Direção: Lúcia Oliver | Elenco: Ricardo Oliveira, Natan de Alencar, Katia Lira, Mariana Nunes, Alisson Araújo.
>> 22h | Vila do Teatro | ‘Já que sou, o jeito é ser’
Cia 5 | Texto: Eduardo Ferreira | Direção: Eduardo Ferreira e Angélica Evangelista | Atores-bailarinos: Angélica Evangelista, Eduardo Ferreira, Gisele Prudêncio, Lucas Onofre e Rodrigo Santana.
>> 22h | Praça dos Andradas | ‘Terror e Miséria no Terceiro Reich’
Cia Amoriódio | Texto: Bertolt Brecht | Direção e adaptação: Diego Andrade | Elenco: Beatriz Gonçalves, Caroline Salles, Fellipe Tavares, Luccas Afonso, Nevily Alves e Teco Cheganças.
>> 22h30 | Praça dos Andradas | ‘De Volta ao Luto’
Cia Lorena | Texto e Direção: Diego Saraiva | Elenco: Natalia Marcelo, Vanderlei Abrelli, Paola Borges, Eliana Tavares, Arthur Cordeiro, Wilson Gois.
>> 0h | Catraias da Praça Iguatemi Martins | ‘Zona!’
O Coletivo | Direção: Kadu Veríssimo | Elenco: Caio Martinez Pacheco, Junior Brassalotti, Kadu Veríssimo, Léo Bacarini, Malvina Costa, Mario Arcenjo, Priscila Ribeiro, Raquel Rollo, Renata Carvalho e Thays Bratz. Após o espetáculo, festa com DJ Cigano.

Inscrições para o 4º Motim – Mostra Regional do FESTA até dia 17

O Movimento de Teatro da Baixada Santista vem realizando ações para dar visibilidade e estrutura ao fazer teatral dos grupos da região, com este intuito após a realização do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, abrirá este edital para inscrições da 4ª edição do MOTIM TEATRAL, a ser realizada durante o dia 23 de dezembro de 2016. Esta edição irá acontecer na Praça dos Andradas na cidade de Santos e espaços alternativos.

Até o dia 17 de dezembro estão abertas as inscrições para o 4º Motim Teatral, mostra regional do Movimento de Teatro da Baixada Santista. Após o FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, tal programação tem como objetivo dar visibilidade e estrutura ao fazer teatro dos grupos da região no dia 23 de dezembro. O evento acontecerá na Praça dos Andradas e em espaços alternativos. O edital está na página http://movimentoteatraldabaixadasantista.blogspot.com.br/ e as inscrições devem ser feitas em: festivalteatrosantos@gmail.com.

Entre os principais objetivos do Motim: oferecer ao cidadão um panorama da produção teatral realizada na baixada santista, com ênfase para os espetáculos da região; estimular e apoiar produção e divulgação de espetáculos teatrais na região; estimular o encontro entre os artistas da região para realizar uma discussão e troca de experiências sobre as formas de produção e de incentivo a espetáculos teatrais da região; incentivar a formação de novas plateias para o teatro; e valorizar espaços públicos como praças e espaços em bairros, da cidade de Santos, com atrações teatrais.

O que é Motim?

Motim é uma insurreição de grupos (artísticos) não homogêneos, organizada ou não (pelo movimento de teatro),contra qualquer autoridade instituída (ou não). Caracteriza-se por atos explícitos de desobediências (artísticas e civis) a autoridades ou contra a ordem pública (mercado), sendo frequentemente acompanhado de tumulto artístico, vandalismo estético (em) propriedade pública e privada e atos de violência poética.

 

Entrevista: ‘O teatro poetiza e problematiza seu tempo’, aborda Movimento Teatral sobre o FESTA 58

Por Lincoln Spada | Fotos de Sander Newton

Mais de 8 mil espectadores se concentraram na primeira semana de setembro (dias 1º a 7) na Praça dos Andradas e seus prédios artísticos a fim de participar do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro. Festival de artes cênicas mais antigo em atividade do Brasil, o evento contou com 40 atividades espalhadas na praça, na Cadeia Velha, no Teatro Guarany e na Vila do Teatro. A programação contou com grupos de todo o Estado de São Paulo, com peças infantis e adultas, teatro em palco italiano ou de rua, além de festas, shows, exposições de artes plásticas e visuais, além de outros segmentos culturais.

Com o tema ‘Qual a Democracia que queremos?’, o FESTA 58 foi uma realização do Movimento Teatral da Baixada Santista, contou com apoio da Prefeitura de Santos e Governo do Estado de São Paulo, apoio institucional do Sesc Santos e com os parceiros a Cooperativa Paulista de Teatro, a RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua, a Vila do Teatro, o Diário do Litoral e o Ferreira Filmes. A seguir, a organização do festival, o Movimento Teatral, apresenta o seu posicionamento na entrevista virtual à Revista Relevo.

O primeiro dia do FESTA 58 priorizou uma programação na retomada da Cadeia Velha como centro cultural. Qual a percepção do Movimento Teatral sobre a sua própria participação para a reabertura do prédio?

b7Boa parte das pessoas e grupos que desenvolvem trabalhos pela Região já se apresentou, ensaiou ou tem sua formação ligada àquele espaço, tínhamos o compromisso histórico de lutar pelo espaço. Foi um processo de articulação e união junto de outros segmentos para o embate público da retomada do prédio como centro cultural de artes integradas. O segmento teatral, como todas suas vertentes foi um dos que mais se organizou em torno dessa pauta, levantado desde o fechamento da Cadeia para reforma, até sua reabertura marcada por atrasos e entrega parcial do prédio.

Conseguirmos que o prédio fosse liberado para a realização do FESTA 58 nas suas dependências, com ocupação das celas composta por diversas manifestações culturais, o que mostrou na prática o que todos sabíamos: a vocação plural do espaço para as artes integradas. Esperamos agora da coordenação uma reunião para formação do conselho gestor do prédio juntamente com a sociedade civil, conforme acordado e desburocratização para o uso das dependências pela população e artistas locais para que o Centro Cultural Cadeia Velha seja, novamente, um lugar vivo e de liberdade criativa.

Com o tema ‘Qual a Democracia que queremos?’, o festival ocorreu inteiramente na Praça dos Andradas. Já que os prédios de lá foram palcos de discussões políticas historicamente, a escolha da praça se deu pela temática, pela localização geográfica ou pelo público que os coletivos vêm conquistando com ocupações culturais nesse espaço?

b5Foi isso tudo junto realmente. O período do festival coincidiu com a entrega parcial da reforma da Cadeia Velha, os alunos da Escola de Artes Cênicas (EAC) do Guarany tiveram participação fundamental na organização do evento também, somaram-se às atividades que têm sido realizadas de ocupação na praça a partir da Vila do Teatro.

Foi a primeira vez que todos os espaços culturais dali funcionaram juntos e o festival nunca tinha realizado uma abertura no Guarany ou na própria Cadeia, antiga sede do Movimento. Fica o exemplo para cidade e aos que virão, pois ver aquela praça e seus espaços culturais, o Teatro Guarany da Prefeitura, a Cadeia Velha do Governo do estado, a Vila do Teatro, uma ocupação cultural independente e gestão autônoma e, principalmente, a Praça dos Andradas funcionando juntos pela primeira vez pelo foi histórico.

Pesquisando em Santos, o JLeiva apontou que a população tem como hábito a preferência pela comédia de costumes e stand up. Na contramão, o FESTA 58 apresentou mostras estadual, regional e paralela que, em sua maioria, fogem desse padrão. Por qual razão apostam nesse viés e até que ponto essas peças não distanciam o festival do público?

b2A função de uma ação como o FESTA é ir na contramão disso mesmo. Tivemos um ótimo resultado de público no FESTA, o que indica que tem plateia para todos os tipos de manifestação artística em Santos. A função do teatro não é o puro e simples entretenimento, a televisão e os exemplos que vocês cita acima já cumprem esse papel.

Os espetáculos convidados, por exemplo, tinham um recorte curatorial temático bem definido, o que deu o tom do evento e trouxe o público para esses debates e questões, sinal que as pessoas estão querendo discutir essa tal democracia e ver como os palcos estão representando esse momento de representatividade política, temática tanto do FESTA 58 como do Mirada, só para ficar entre os eventos de artes cênicas, afinal o teatro alienado do seu tempo torna-se irrelevante.

Além do tema do festival, outras duas questões nortearam a maioria das peças da mostra regional: a censura e a segurança pública, abordando desde a ditadura até a repressão policial e o sistema carcerário. Quais fatores no contexto local ou global influenciam este atual panorama teatral?

b0O teatro poetiza e problematiza seu tempo, refletindo em cena questões contemporâneas que estão permeando as discussões e preocupações. Teatro é sempre um farol. Se esses temas estão sendo abordados com mais frequência, é um sinal de tempos maus, pois os artistas, em geral, estão atentos aos sinais do retorno de uma sociedade conservadora e repressora, são nesses momentos em que as instituições falham que o teatro ergue sua espada. Todo mundo tem antenas, mas poucos estão antenados, já diria a poeta.

Com grupos de diferentes cidades de São Paulo, o FESTA 58 propicia um intercâmbio entre os artistas. Também os estudantes de teatro no Senac apresentaram performances e os alunos da EAC colaboraram na produção do evento. Por que é importante que o festival contribua para a aproximação desses diferentes grupos?

b1São momentos de aprendizado e troca efetiva entre os trabalhadores da cultura, porque vemos como nossos companheiros de classe estão refletindo o mundo de acordo com suas filosofias e estéticas através do teatro. Precisamos desse momento para aprender e trazer para cá, grupos com pesquisa e trabalhos desafiadores e instigantes que possam colaborar com nossas pesquisas e formação do olhar. Vendo teatro, aprendo sobre teatro, amplio minha visão sobre a arte em si e sobre o mundo.

Responsável pelo FESTA 58, o próprio Movimento Teatral tem divergências de artistas que não se sentem mais representados. Como os grupos do movimento analisam esta relação e se observa em curto prazo possibilidades de reaproximação ou as diferentes perspectivas são históricas de outros anos?

b2A classe artística é plural e com diversas ramificações. O Movimento Teatral existe com quem se predispõe a participar ativamente das ações, assumindo responsabilidades de realização de ações práticas como próprio FESTA 58 por exemplo ou o Motim [Mostra regional de teatro] e nem sempre as pessoas, pelo seu dia a dia, estão dispostas à enfrentamentos públicos, participar de audiências, ou ativamente do conselho de cultura, reuniões de deliberação de atividades e trabalho em coletivo de forma horizontal ou de participar de exaustivas reuniões com participantes de diferentes correntes de pensamento. Procurar unanimidade não é objetivo e seria até inocente.

Já vimos propostas de movimentos com parte da classe artística, empresários, com pouca interlocução com coletivos artísticos e que não vingaram infelizmente, pois contrapontos são fundamentais. Esse ano por exemplo o festival teria sido inviável sem os alunos da EAC, o que deu outro formato e dinâmica ao FESTA, e colocou a realização evento no colo dos jovens estudantes de teatro de Santos. O novo sempre vem e segue em frente, em movimento. Nas reuniões do Movimento Teatral são feitos chamamentos e todos podem e devem participar de preferência presencialmente, fortalecendo com ideias, críticas e principalmente na prática, com braços e ações.

Entrevista: ‘Sem cultura e educação, não existirá democracia’, diz Matheus Nachtergaele

Com larga trajetória no teatro, TV e cinema, Matheus Nachtergaele fará o espetáculo de abertura ‘Processo de Conscerto de Desejo’ no FESTA 58 – Festival Santista de Teatro. A sessão gratuita será nesta quinta-feira, às 21 horas, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100/Santos), onde o público poderá retirar os ingressos antecipadamente a partir das 13 horas.

Em sua programação, o FESTA 58 terá início desde às 19 horas, com a ocupação artística de diversos grupos da Baixada Santista e do estado de São Paulo na Praça dos Andradas, Teatro Guarany, Vila do Teatro e Centro Cultural Cadeia Velha. Realizado pelo Movimento Teatral da Baixada Santista e com apoio da Prefeitura, Governo Estadual e Sesc Santos, o evento contará com mais de 40 atividades gratuitas voltadas à população até o dia 7 de setembro.

Em entrevista à assessoria do festival, Matheus Nachtergaele relata sobre a montagem de sua peça, a sua carreira nos palcos e nas telas, e sobre o papel da cultura na democracia que vivemos, aliás, tema do FESTA 58 este ano. A seguir, a entrevista na íntegra e para saber mais sobre o festival: festa58.wordpress.com.

5No monólogo ‘Processo de Conscerto do Desejo’, você está junto ao palco com sua mãe a partir dos poemas dela em que interpreta, como também nas canções que ela tinha predileção. Como um tributo a ela, um resgate pessoal ou uma forma de levar ao público a sua história, como você define este espetáculo?

Defino esse recital como uma celebração sacro-profana de dar sentido às tragédias da vida da gente. Ao mostrar a poesia da minha mãe, mostro meu pranto e também meu orgulho por ter sobrevivido à dor de seu precoce suicídio e de ser filho de uma artista de verdade.

Certamente você levou um longo período para amadurecer este espetáculo e até mesmo para se colocar como intérprete dos versos de sua mãe. Noutras vezes, você citou que imaginava uma atriz para esse papel. Qual foi o fato ou o momento em que você assume a missão de subir ao palco nesse monólogo?

Eu teria, um dia, que mostrar os poemas para as pessoas de alguma forma. Em julho de 2015, fui convidado pelo Festival de Teatro de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais a apresentar um monólogo ou algo parecido. Foi a deixa para tomar coragem e ler em público os textos. A emoção da plateia me ensinou, naquele dia, que deveria amadurecer o apresentado e criar um espetáculo.

2Por se tratar dos escritos de sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele, você foi mais exigente no decorrer da montagem desta peça? E a partir da criação e dos ensaios, você chegou a mudar ou reafirmar a leitura que tinha sobre ela enquanto pessoa e autora?

Concebi, dirigi e atuo no espetáculo. Primeiro procurei traçar alguma curva dramática com os poucos poemas que ela deixou. Depois, junto com meus músicos, escolhi as músicas que tingem de emoção a peça e mostram os gostos de minha mãe. As músicas clássicas do repertório mundial tocadas por Luã Belik e Henrique Rohrmann foram escolhidas por nós, no processo. Ainda ajusto coisas, inverto a ordem de poemas e inauguro canções conforme a peça vai amadurecendo. Cada dia é um novo dia, para nós do Conscerto do Desejo!

Na repercussão positiva desta peça, duas características cênicas chamam a atenção. Como você justifica tanto a presença dos músicos, quanto as tintas amarelas que cobrem seu corpo em cena?

Minha mãe tocava violão muito bem, cantava muito bem, e achei bonito colocar isso dentro do retrato poético que faço dela. Poesia, quando bem dita, a música assim, bem, tudo se encaixou. Trata-se de um tipo de Teatro-Dança com a palavra como protagonista. O amarelo em meu corpo é a luz que pretendo jogar sobre as trevas da morte.

3Você sempre fala com muito carinho de Maria Cecília e de que seus poemas o encantaram a ponto de mergulhar mais no mundo da literatura e das artes. A seu ver, este monólogo marca um fim ou reinício de ciclo na sua pesquisa artística e autoral em relação a figuras maternas ou o tema do suicídio, como no premiado ‘A Festa da Menina Morta’?

Sim, espero que sim! E me orgulho muito dos dois trabalhos. A morte da mãe foi explorada por mim de várias formas, e hoje é pura poesia. Me sinto mais livre, agora.

A sua carreira é plural do drama à comédia, de ator de teatro a cineasta, da televisão (‘Da Cor do Pecado’, ‘Sassaricando’, entre outros) e filmes com Chico Assis (com ele, uma parceria retomada pela sexta vez mais recentemente em ‘Big Jato’). O que o move na escolha de seus projetos artísticos?

A vocação dos projetos! Adoro me unir a pessoas que admiro e dizer, seja da forma que for, algo que considere bonito. É bonito rir e chorar do drama humano. E adoro alegrar as pessoas. É preciso alegrar as pessoas.

Aliás, na maioria dos seus trabalhos, você sempre é bem avaliado pelo público e crítica, que sempre esperam vê-lo amadurecer cada vez mais. Isso faz com que na escolha dos seus projetos futuros, você tenha medo do fracasso? E onde o público poderá encontrá-lo nas próximas produções?

Estou na vida, como todos, aprendendo com os erros, procurando não repeti-los e tentando ser mais feliz. Tenho medo do fracasso e da dor, claro. Mas olha, já fracassei muitas vezes, e outras vezes fui mais bem sucedido nos meus projetos, então sei que a caminhada é que importa. O fracasso e o sucesso passam, né? Segue o aprendizado.

Não é a sua primeira vez em Santos, mas não sei se já conhece o Teatro Guarany. Trata-se de um teatro-escola municipal reaberto em 2008, e que foi ainda no século 19 como o principal palco na Cidade de movimentos e intelectuais abolicionistas e republicanos. Nos dias de hoje, como você observa o papel dos movimentos culturais na democracia em que vivemos?

Sem cultura e educação não existirá democracia. Todos temos que pensar juntos nosso destino como brasileiros e seres humanos. Todos. Tô me sentindo muito honrado por poder mostrar esse trabalho tão delicado para a plateia de Santos, nesse teatro tão lindo!

Praça dos Andradas se torna na Praça dos Artistas durante o FESTA 58

A Praça dos Andradas é um dos espaços públicos mais importantes da história de Santos. O antigo Campo da Chácara do século 19 foi se tornando no epicentro dos debates políticos e eventos pró-república com a instalação da então Câmara de Santos no atual Centro Cultural Cadeia Velha. Na mesma praça, foi erguido o Teatro Guarany como palco do movimento abolicionista, reerguido na última década. O local também desde 2011 mantém a Vila do Teatro, espaço de ocupação pública de coletivos de teatro, circo e música, mantendo ações em diálogo com movimentos sociais e artísticos.

Com essa larga história, a Praça dos Andradas se torna nesta primeira semana de setembro (dias 1º a 7) na Praça dos Artistas, enquanto sede de toda a programação gratuita do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro. Com o tema ‘Que Democracia Queremos?’, as mais de 30 atividades do festival do Movimento Teatral da Baixada Santista tratam desde reflexões sobre o panorama político até os dilemas contemporâneos da sociedade.

0“A democracia que queremos é a democracia dos trabalhadores, através de suas próprias organizações. Uma democracia em que cada um que participa das decisões sobre o destino do conjunto da sociedade esteja de fato em pé de igualdade com todos os outros”, argumenta o ator Vinícius Camargo, da Cia Animalenda de Itanhaém. Do grupo santista Os Panthanas – Núcleo de Pathifarias Circenses, o artista Sidney Herzog aponta: “A democracia que queremos é a participativa que da a população o real direito de escolha sobre qualquer decisão a ser tomada”.

Por sua vez, o diretor teatral Jair Moreira do grupo vicentino Teatro No Quintal comenta: “Defendemos uma democracia laica. Uma democracia que garanta, de fato, o respeito à liberdade humana, em que o povo seja prioridade e não os bens privados e seus lucros”. Assim, “o povo deve ser protagonista de sua história, que sua voz seja ouvida, que seus princípios fundamentais, seus direitos básicos de cidadão e o respeito à toda e qualquer manifestação no tocante à valorização da dignidade da pessoa humana sejam observados, garantidos e atendidos”, finaliza o diretor teatral Gerson Rodrigues, do Teatro Elipsoidal de Guarujá. Mais informações: fb.com/festivalsantistadeteatro.

*Lincoln Spada

Com Matheus Nachtergaele, FESTA 58 inicia no próximo dia 1º

A abertura do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro terá como destaque a sessão gratuita do espetáculo ‘Processo de Conscerto do Desejo’, com Matheus Nachtergaele, ator e diretor consagrado no palco, cinema e TV. Monólogo concebido pelo próprio artista, Matheus é acompanhado em cena pelos músicos Luã Belik e Henrique Rohrmann, respectivamente no violão e no violino. A apresentação será na quinta-feira (dia 1º), às 21 horas, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100/Santos).

O espetáculo é uma releitura do ator sobre os versos de sua mãe, Maria Cecília Nachtergaele. Ele era um bebê de três meses quando a perdeu em 1968. Assim, a obra deixada pela poetisa é reverenciada pelo filho, numa peça que mescla recital de poemas e interpretação de canções prediletas de sua mãe: do conterrâneo Paulinho Nogueira ao italiano Sergio Endrigo. Após a peça, haverá o lançamento do livro ‘A Mariposa’ no foyer do teatro. Publicado pela Polvilho Edições, o título reúne 28 poemas de Maria Cecília Nachtergaele e uma poesia assinada por seu filho.

Além do Teatro Guarany, a abertura do FESTA 58 será marcado desde às 19 horas por apresentações artísticas na Praça dos Andradas, na Vila do Teatro e no Centro Cultural Cadeia Velha. Será a primeira vez que estes espaços serão ocupados simultaneamente pelo festival, graças ao empenho do Movimento Teatral e de outros segmentos para a reabertura da Cadeia Velha como centro de artes integradas.

A noite de quinta-feira contará com as intervenções teatrais ‘Zig Zig Zaa’, dos alunos da Escola de Artes Cênicas Wilson Geraldo, ‘Querô – Uma Reportagem Maldita’, da Cia Veritas, ‘A Mancha Roxa’, da Cia Teatral Libero e a performance circense, dos alunos do núcleo Os Panthanas. A agenda também abrange roda do Coletivo Santista de Capoeira, a dança contemporânea com ‘Diálogos Ocultos’, de Natasha Mello, as linguagens do hip hop com ‘Cypher Night’, do Mad Feeling Crew e Prazer Meu Nome É Hip Hop!. Até o final da noite, o local também recebe a festa pop de ocupação artística ‘A Praça é Nossa’, do Coletivo 15..

Mais antigo festival de teatro em atividade do País, o FESTA 58 é uma realização do Movimento Teatral da Baixada Santista, tendo toda a sua programação de 1º a 7 de setembro com entrada franca. Símbolo dos movimentos abolicionista e pró-república noutros séculos, a Praça dos Andradas e seus edifícios sediam o festival que, neste ano, tem como tema ‘Que Democracia Queremos?’. Informações: fb.com/festivalsantistadeteatro.

Matheus Nachtergaele

Iniciou sua carreira em 1989, trabalhando com Antunes Filho e o Teatro da Vertigem, além de ingressar nos estudos de artes dramáticas na USP. Nos anos 90, interpretou nos palcos ‘O Livro de Jó’, ‘Paraíso Perdido’ e ‘Da Gaivota’, entre outros, consagrando-se com os prêmios Shell, Mambembe e APCA de teatro. Desde 1997, atuou em mais de 30 filmes, como ‘O Auto da Compadecida’, ‘Febre do Rato’, ‘Amarelo Manga’ e ‘Big Jato’, recebendo inúmeros prêmios, APCAs e dois Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

Como cineasta e roteirista, estreou em ‘A Festa da Menina Morta’, longa exibido em Cannes e premiado nos festivais do Rio, Gramado e Chicago. Em 2014, dirigiu o espetáculo ‘O País do Desejo e do Coração’, pelo grupo mineiro Entre & Vista. Na TV, destacou-se em várias produções, como as minisséries ‘Hilda Furacão’ e ‘Zé do Caixão’ e as novelas ‘Da Cor do Pecado’ e ‘Saramandaia’.

*Lincoln Spada

FESTA 58 abre edital para grupos de teatro da Baixada Santista

“Qual a democracia que queremos?”. Este é o mote do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, que abre entre os dias 29/jun até 17/jul o edital de chamamento para grupos de teatro da Baixada Santista se inscreverem e participarem do evento mais antigo de artes cênicas em atividade no País. O festival acontecerá de 1º a 7/set com realização do Movimento Teatral da Baixada Santista e parceria com o Sesc Santos e Prefeitura via Secretaria da Cultura.

O FESTA 58 é uma mostra da diversidade teatral, que contempla espetáculos dos mais variados gêneros e formatos, inéditos ou não, para público adulto e infanto-juvenil, em linguagens como o circo-teatro, e teatro musical e teatro de rua. Os espetáculos regionais serão escolhidos por uma curadoria coletiva entre os artistas no dia 24 de julho.

Com o tema “Qual a democracia que queremos?”, este ano o festival também trará grupo nacional e estadual cujo o trabalho reflita sobre o tema. Nesta edição, o festival concentrará suas ações no entorno da Praça dos Andradas, utilizando o Teatro Guarany, a Vila do Teatro e a Cadeia Velha. Informações: http://movimentoteatraldabaixadasantista.blogspot.com.br

*Lincoln Spada