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TEP-Unisanta inicia festa de 50 anos com exposição até dia 28

Por Rodrigo Florentino

O Teatro Experimental de Pesquisas da Universidade Santa Cecília (TEP-Unisanta) iniciará as celebrações do seu 50º aniversário de criação com a abertura da exposição ‘TEP 50 ANOS’. Junto de uma sessão de curta-metragem, a mostra começou no último dia 11 e segue até 28/mar, na Galeria de Arte da Unisanta (R. Oswaldo Cruz, 277/Santos).

A exposição é composta por dois painéis de grandes dimensões criados pelo designer Rafael Branco, que mostram boa parte da trajetória do grupo, documentada por fotos de arquivo, material jornalístico e gráfico sobre suas principais montagens. Também há 50 fotografias de cenas de espetáculos realizados pelo grupo ao largo destes anos, clicadas por renomados fotógrafos. São eles: Antonio Abreu, Biga Appes, Delba Baraldi, Denise Braga, LF Mutti, Rafael Branco, Simone Soffredini e Tito Wagner.

Complementam a exposição 46 cartazes de espetáculos montados pelo grupo, criados em sua maioria pela designer Marcia Okida, e alguns figurinos e adereços, também de trabalhos da companhia, assinados por Lindalva Parorini e Gilson de Melo Barros. A exposição estará aberta ao público até o dia 28 de março, podendo ser visitada nos períodos da manhã e noite. Informações: Gilson de Melo Barros (99172-3122 e gilson61barros@hotmail.com).

O TEP-Unisanta

Criado no final dos anos 60 em plena ditadura militar, o grupo “sobreviveu” à história, passando por vários processos de criação em que se destacaram notáveis montagens teatrais, além de atividades audiovisuais que lhe valeram destaque em eventos cinematográficos. Viagens internacionais e prêmios em festivais locais, estaduais e nacionais também marcaram sua trajetória, tornando o grupo uma das referências do fazer teatral da nossa região.

Neste período, inúmeros artistas passaram pelo TEP . Entre eles, Toninho Dantas (agitador cultural), Domingos Fuschini (figurinista e maquiador) e Zéllus Machado (ator e animador cultural). Valiosas também, entre tantos outros que por seus quadros transitaram, as participações de Nanci Alonso (uma das fundadoras do grupo e criadora do GAPA/BS), Miguel Hernandez (ator de diretor teatral) e Marco Antonio Rodrigues (diretor teatral e ex- secretário de cultura de Santos).

 

TEP/Unisanta estreia ‘Uma Condessa, Uma Cigana, e o Amolador de Facas’

“Depois de um longo tempo de pesquisa, de uma série de leituras dramáticas, chegamos não ao fim, mas sim a uma nova etapa de nosso processo”, diz o ator Tales Ordakji sobre a estreia do texto teatral ‘Uma Condessa, Uma Cigana, e o Amolador de Facas’, nesta quinta-feira (dia 30), às 20h30. O ingresso da montagem do TEP/Unisanta (Teatro Experimental de Pesquisas) será 1 Kg de alimento não-perecível, que será doado ao Gapa – Grupo de Apoio à Prevenção à Aids.

Em tom cômico, acentuado pela tônica melodramática adotada pela montagem, o espetáculo convida à uma reflexão sobre os limites entre a sanidade e a loucura, trazendo em si signos que possam nos remeter tais circunstâncias, além dos apontados pelo texto, como os denunciados pelos figurinos que alardeiam as paixões “insanas” e barrocas de Arthur Bispo do Rosário, as interpretações cubistas dos atores a se perder em labirintos urbanos, a maquiagem em tons de farsa criada pelo artista Fernando Pompeu, e a quase ausência de diálogos – concórdia – tão presentes nestes nossos tempos intolerantes.

A montagem traz entre suas premissas as idéias de rever a nossa história e a de homenagear os precursores do Rádio Santista, com acento especial à rádio novelista vicentina Ivani Ribeiro, cujo centenário de nascimento é celebrado neste ano. Ivani foi uma das primeiras mulheres no Brasil a escrever novelas para o rádio, uma verdadeira pioneira, tornando-se, através de sua reconhecida obra, referência para a nossa dramaturgia.

Para sua consequência, aborda uma série de vertentes do teatro contemporâneo, de forma a se estabelecer em uma narrativa não linear, onde os fatos se embaralham pelos labirintos das recordações, conformadas nos depoimentos dos atores em seus momentos de revelações.

FICHA TÉCNICA
Texto original e direção: Gilson de Melo Barros. Assistência de direção – Bárbara Brawn.
ELENCO: Silvio Roupa, Lindalva Parolini, Cícero Pinto, Gabriela Santana, Bárbara Brawn, Kleber Fernando, Daniel Sette, Tales Ordakji, Isabelle Aparecida.
CONSTRUTIVO: Fisiologia do movimento e Estônia – Arlaine Gomes Andrade Silva. Preparação vocal e Arranjos – Kleber Fernando. Maquiagem – Fernando Pompeu. Figurinos, Cenografia e Sonoplastia – O grupo / Laboratórios de Criação. Fotos – Denise Braga. Design gráfico – Márcia Okida. Secretaria – Tales Ordakji Divulgação – Valdirene Cler / ASSECOM Unisanta. Realização – Teatro Experimental de Pesquisas. Apoio Cultural e Logístico – Universidade Santa Cecília.

*Tales Ordakji

 

Opinião: O teatro documental ‘Marulhos’ como um reduto de um litoral inteiro

“Para mim, acabei de assistir a um documentário no palco”, enfatizava o produtor cultural Ricardo Vasconcellos após a sessão de ‘Marulhos’. E cada sílaba de Vasconcellos tem razão. O espetáculo da companhia homônima garante um litoral inteiro em uma peça teatral de uma hora de duração. Para a sua criação, a peça teve apoio da Secretaria de Estado da Cultura por meio do ProAC.

3É possível se entremear em cada cena construída com recursos simples assinados por Gilson de Melo Barros, como os mais ou menos trinta pilares coloridos que preenchem bem qualquer palco. Todos de tom anil e com pequenas faixas coloridas como as fitas das festas religiosas dos caiçaras conseguem se transformar de rio fechado a bar aberto, de um memorial de mártires a um guichê burocrático para tempos de defeso.

Mas lógico que tudo isso é fruto da boa relação que os artistas-criadores Ernani Sequinel e Fabíola Moraes levam da vida fora da ribalta até os holofotes. Sem precisar de muitas luzes, carregam todo o teatro com as mãos em rabeca e violão, do calçados enquanto percussão e dos olhares a dois em pausas combinados para drama e risos. Com direito a um leve beijo.

4Falando assim, mal dá para perceber o enredo da peça, que é de num entrosamento desigual do par para ressoar as vozes dos caiçaras remanescentes no litoral norte de São Paulo. Por lá, ainda é viva a tradição do caiçara, ‘o homem do mar’, da pesca artesanal tão típica dos índios sincronizada com a piedade popular de Bons Jesus e Nossas Senhoras dos europeus. E ainda as influências dos africanos que povoaram o País durante os tempos de escravidão.

Há o relato da gastronomia local. Há o causo da esposa do pescador que se lança no mar a desbravar. Há o descaso dos idosos, tão sábios, quando sofrem diretamente o efeito colateral da urbanização. Para cada ponto (sem nó), a dupla muda trejeitos, vozes, sem perder o sotaque característico dos moradores do lado de lá. Os figurinos de Kadu Veríssimo já denunciam a boa sintonia que nos remete à tal cultura.

5Além da vivacidade na direção musical e preparação vocal de Carol Bezerra, que se estende pelos cantos populares e dos tupinambás que permeiam todo o espetáculo, este lirismo não se desfaz na estética nos momentos mais incisivos. São as cenas que tratam dos dilemas dos caiçaras, desde a construção da Rio-Santos e os efeitos da modernização no ecossistema, até a violência e os assassinatos contra a comunidade intrinsecamente ambientalista.

Ainda há tempo para a crítica das condições de sobrevivência dos caiçaras quando a pesca artesanal é reduzida a míseras indenizações em tempos de ‘defeso’, ja que a maior parte dos peixes caem na rede dos grandes navios comerciais. Todos os apontamentos e relatos herdeiros direto da larga pesquisa científica e, principalmente, local que Ernani e Fabíola, como artistas-criadores, tiveram a sensibilidade de registrar em cena ao entrevistarem e visitarem os redutos caiçaras.

*Lincoln Spada