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‘Cultura em Crise’ é o tema do 4º Motim Teatral; acesse a programação na íntegra

Por Movimento Teatral

Com o tema ‘Cultura em Crise’, o 4º Motim Teatral reúne 14 coletivos cênicos para apresentações gratuitas no Centro de Santos. Mostra regional do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, a maratona de apresentações acontece inteiramente nesta sexta-feira (dia 23) com 13 horas ininterruptas de grupos artísticos.

Neste ano, trata-se de um ato pela liberdade de expressão dos artistas de rua em Santos; contra o corte orçamentário das Oficinas Culturais do Estado no interior e litoral paulista; e pró-Centro Cultural Cadeia Velha.

O termo ‘motim’ é uma insurreição de grupos contra o autoritarismo, caracterizado por atos de desobediência artística e civil que se opõem a autoridades ou o capitalismo, sendo frequentemente acompanhado de tumulto artístico, vandalismo estético e intervenções de violência poética.

O 4º Motim Teatral é uma realização do Movimento Teatral da Baixada Santista com apoio da Prefeitura Municipal de Santos por meio da emenda parlamentar do vereador Professor Igor Melo. Confira a programação:

>> 13h30 | Praça dos Andradas | ‘Festa das Flores’
Cia Incomodados de Teatro e Música | Roteiro e direção musical: Elias Tomais | Elenco: Ariadne Moreno, Elias Tomais, Juliana Lima, Juliana Sanz.
>> 14h | Praça dos Andradas | ‘É Doce ou Salgado?’
Coletivo Sanatório Geral | Texto: Betinho Neto | Direção: Miriam Vieira e Betinho Neto | Elenco: Sandy Andrade ,Liliane São Paulo, Amanda Franco e Betinho Neto.
>> 15h | Praça dos Andradas | ‘Furdunço no Casamento de Marieta’
Cia Animalenda | Direção: Danilo Cavalcanti | Elenco: Kely de Castro e Vinícius Camargo.
>> 16h | Praça dos Andradas | ‘Blitz – O Império que nunca dorme’
Trupe Olho da Rua | Texto e Direção: Caio Martinez Pacheco | Elenco: Bruna Telly, Caio Martinez Pacheco, Fabio Piovan, João Paulo Pires, João Luiz Pereira Junior, Raquel Rollo, Sander Newton, Wendell Medeiros.
>> 17h30 | Praça dos Andradas | ‘De Repente Thiago’
Esquadrilha Marginalia de Teatro de Rua | Dramaturgia coletiva | Direção: Sander Newton. | Elenco: Luiz Guilherme, Lucas Pereira e Michel do Carmo.
>> 18h | Vila do Teatro | ‘Nó Cego’
Teatro Genoma | Direção: Rodrigo Marcondes | Com Juliana Vicma.
>> 19h | Praça dos Andradas | ‘Tentativa Zucco’
Usina Utópica | Texto: Paulo de Tarso | Encenação: Douglas Lima | Elenco: Lucas Pereira, Julia Alves, Letícia Cascardi, Luana Albeniz, Mayara Andrade | Convidados: Natanael Gomes, Myller Oliveira, Vanessa Souza, Juliana Souza, Rafael Almeida, Rodrigo Alves, Patrick Gois, Udson Santos, Vinicius Ziani.
>> 20h | Vila do Teatro | ‘A Lenda dos Jovens Detentos’
Cia Muninja | Texto: Leo Lama | Direção: Diego Andrade | Elenco: Bruno Galdino e Letícia Tavares.
>> 21h | Praça dos Andradas | ‘Liberdade Prisioneira’
Cia Carcarah Voador | Texto: Cícero Gilmar Lopes | Direção: Vidah Santos | Elenco: Juan Pablo Garcia e Cícera Carmo.
>> 21h | Vila do Teatro | ‘Elogio ao maluco, Beleza?’
Cia Teatral Art e Manha | Texto: Natan de Alencar e Ricardo Oliveira | Direção: Lúcia Oliver | Elenco: Ricardo Oliveira, Natan de Alencar, Katia Lira, Mariana Nunes, Alisson Araújo.
>> 22h | Vila do Teatro | ‘Já que sou, o jeito é ser’
Cia 5 | Texto: Eduardo Ferreira | Direção: Eduardo Ferreira e Angélica Evangelista | Atores-bailarinos: Angélica Evangelista, Eduardo Ferreira, Gisele Prudêncio, Lucas Onofre e Rodrigo Santana.
>> 22h | Praça dos Andradas | ‘Terror e Miséria no Terceiro Reich’
Cia Amoriódio | Texto: Bertolt Brecht | Direção e adaptação: Diego Andrade | Elenco: Beatriz Gonçalves, Caroline Salles, Fellipe Tavares, Luccas Afonso, Nevily Alves e Teco Cheganças.
>> 22h30 | Praça dos Andradas | ‘De Volta ao Luto’
Cia Lorena | Texto e Direção: Diego Saraiva | Elenco: Natalia Marcelo, Vanderlei Abrelli, Paola Borges, Eliana Tavares, Arthur Cordeiro, Wilson Gois.
>> 0h | Catraias da Praça Iguatemi Martins | ‘Zona!’
O Coletivo | Direção: Kadu Veríssimo | Elenco: Caio Martinez Pacheco, Junior Brassalotti, Kadu Veríssimo, Léo Bacarini, Malvina Costa, Mario Arcenjo, Priscila Ribeiro, Raquel Rollo, Renata Carvalho e Thays Bratz. Após o espetáculo, festa com DJ Cigano.

Cadeia Velha: Manifestação artística ‘Até o Fim’ pelos 35 anos do centro cultural

Por Lincoln Spada | Foto: Rodrigo Montaldi Morales

Nós, artistas, ativistas e apoiadores da Cadeia Velha de Santos realizaremos a mostra gratuita ‘Até o Fim – 35 anos do #CentroCulturalCadeiaVelha’ nesta sexta-feira à noite e sábado à tarde (dias 16 e 17). A programação faz referência ao período em que o prédio estadual se tornou espaço da comunidade artística, e ao último fim de semana que o mesmo local estará aberto ao público, sem data anunciada de reabertura.

É que, desde que reaberto, o patrimônio é gerido em convênio do Governo Estadual com a Poiesis para a Oficina Cultural Pagu. Mas tanto essa, como dez unidades regionais de São Paulo serão desativadas, exceto as da capital. Assim, não houve garantia oficial do Poder Público em relação às novas formações culturais, sequer quanto ao uso do edifício.

De modo simbólico, um bolo cenográfico de cristais marcará o evento, que terá cinedebate, sarau lítero-musical, oficina e performance de artes cênicas, e exposição de artes plásticas. A mostra dialoga com as manifestações que ocorrem simultaneamente nas oficinas culturais de Limeira, São Carlos, São José do Rio Preto e Sorocaba.

Programação gratuita
#CentroCulturalCadeiaVelha | Praça dos Andradas
>> Abertura da mostra de artes plásticas
Sexta | 19h | Com Marcelo Madnights e Paulo Teixeira
>> Cineclube Pagu + Mostra Marginal de Cinema Santista
Sexta | 19h30 | Com Carlos Cirne, Dino Menezes e Marcelo Pestana
>> Oficina de improvisação dança-teatro
Sábado | 15h-17h | Com Celso Lima, Marcus Di Bello e Rafael Palmieri
>> Bolo cenográfico de cristais
Sábado | 15h30-18h | Com Alexandre Sylvestre
>> Performance ‘Intolerância’, do Baobá Coletivo de Arte
Sábado | 16h | Com Bruno Oliveira, Christian Malheiros e Larissa Almeida
>> Roda de conversa: Histórias da Cadeia Velha
Sábado | 16h30 | Com Lincoln Spada e Rodrigo Montaldi Morales
>> Sarau dos 35 anos do #CentroCulturalCadeiaVelha
Sábado | 17h | Com Flávio Viegas Amoreira e Theo Cancello
Apoio: Curta Santos, Movimento Teatral da Baixada Santista, Vila do Teatro.

Inscrições para o 4º Motim – Mostra Regional do FESTA até dia 17

O Movimento de Teatro da Baixada Santista vem realizando ações para dar visibilidade e estrutura ao fazer teatral dos grupos da região, com este intuito após a realização do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, abrirá este edital para inscrições da 4ª edição do MOTIM TEATRAL, a ser realizada durante o dia 23 de dezembro de 2016. Esta edição irá acontecer na Praça dos Andradas na cidade de Santos e espaços alternativos.

Até o dia 17 de dezembro estão abertas as inscrições para o 4º Motim Teatral, mostra regional do Movimento de Teatro da Baixada Santista. Após o FESTA 58 – Festival Santista de Teatro, tal programação tem como objetivo dar visibilidade e estrutura ao fazer teatro dos grupos da região no dia 23 de dezembro. O evento acontecerá na Praça dos Andradas e em espaços alternativos. O edital está na página http://movimentoteatraldabaixadasantista.blogspot.com.br/ e as inscrições devem ser feitas em: festivalteatrosantos@gmail.com.

Entre os principais objetivos do Motim: oferecer ao cidadão um panorama da produção teatral realizada na baixada santista, com ênfase para os espetáculos da região; estimular e apoiar produção e divulgação de espetáculos teatrais na região; estimular o encontro entre os artistas da região para realizar uma discussão e troca de experiências sobre as formas de produção e de incentivo a espetáculos teatrais da região; incentivar a formação de novas plateias para o teatro; e valorizar espaços públicos como praças e espaços em bairros, da cidade de Santos, com atrações teatrais.

O que é Motim?

Motim é uma insurreição de grupos (artísticos) não homogêneos, organizada ou não (pelo movimento de teatro),contra qualquer autoridade instituída (ou não). Caracteriza-se por atos explícitos de desobediências (artísticas e civis) a autoridades ou contra a ordem pública (mercado), sendo frequentemente acompanhado de tumulto artístico, vandalismo estético (em) propriedade pública e privada e atos de violência poética.

 

Cadeia Velha: Quatro meses após reabertura, oficina cultural deve ser desativada

Por Lincoln Spada

Após tanto empenho dos artistas da Baixada Santista em reocupar e reabrir o Centro Cultural Cadeia Velha; após audiência e garantias da Secretaria de Estado da Cultura com o projeto de uso proposto pela comunidade: o destino do patrimônio histórico que formou gerações de artistas desde os anos 80 está novamente por um fio. Governo pode pressionar a municipalização do prédio em 2017.

>> A história da versátil Cadeia Velha desde séc 19 
>> Governo de SP anunciou como centro cultural

Fechada desde dezembro de 2011, a Cadeia Velha de Santos só foi reinaugurada em agosto de 2016, com custos de R$ 10,6 milhões do Governo de SP. Mesmo assim, quando reaberto, o equipamento estadual não contava com auditório pronto, tinha pouco mobiliário e recursos para realização de atividades formativas. Parcerias com instituições, festivais e grupos artísticos foram fundamentais para equipar e reavivar o prédio neste período. Ali respectivamente sediou o FESTA, o Mirada, o Curta Santos e o Valongo Festival.

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Contexto das contas públicas

A razão do baixo investimento seria a redução do orçamento da Secretaria do Estado da Cultura nos últimos anos. Entre 2014 e 2016, o orçamento previsto caiu de R$ 929 mi para R$ 822 mi. E se em 2014, foi realmente efetivada a verba de R$ 913 mi, neste ano, a pasta ainda mal atingiu R$ 605 mi. Consecutivamente, diminui também o convênio com a Poiesis, organização social que administra as oficinas culturais em nível estadual. O programa formativo que recebia R$ 25 mi há dois anos, hoje ainda não alcançou R$ 18 mi.

E pelas contas, o valor pode ser ainda menor nos próximos anos. Nesta semana, diversos profissionais estão sendo informados do fechamento das unidades do interior e do litoral, conforme portal de notícias de Jundiaí. Além da Oficina Cultural Pagu, a entidade devolverá outras 10 sedes para o Governo Estadual até fim de dezembro. Assim, a Poiesis manterá em 2017 apenas as unidades da capital (Oficinas Juan Serrano, Alfredo Volpi, Oswald de Andrade e Casa Mário de Andrade), além dos programas de qualificação em artes, seminários de gestão e alguns festivais.

Risco de municipalizar ou perder o uso

A questão é que a Secretaria de Estado da Cultura não mantém outros programas plurais de formação artística, e estudava a municipalização ou tornar o espaço como museu, até antes da audiência pública e do compromisso assumido pela pasta em julho de 2015 – o atual secretário José Roberto Neffa Sadek à época era o adjunto da pasta. Acima, o vídeo do encontro da população com os secretários de cultura Marcelo Araújo (então no Governo Estadual), Welington Borges (então de Cubatão, coordenador da câmara de cultura em nível regional pelo Condesb) e Fábio Nunes (Santos).

Desde o ano passado, o movimento Orla Cultural que agrega cerca de 25 instituições museológicas da Baixada Santista defendeu a vocação plural do centro cultural, junto de outras dezenas de grupos artísticos regionais, como o Movimento Teatral, o Coletivo Sanatório Geral e o então Agrega Cultura. Já a Prefeitura descartou noutras vezes assumir a gestão exclusiva do equipamento.

Toda essa mobilização rendeu campanhas e pautou a mídia, até um projeto de uso assinado por representantes de diversos movimentos, respeitado e garantido pelos gestores públicos. Por sua vez, o Governo de SP sequer nomeou o conselho gestor do prédio – que, afinal, precisa rever todas indicações, já que 2017 garante novas representações no Condesb, no Concult e, provavelmente, da própria Cadeia Velha de Santos.

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Entrevista: ‘O teatro poetiza e problematiza seu tempo’, aborda Movimento Teatral sobre o FESTA 58

Por Lincoln Spada | Fotos de Sander Newton

Mais de 8 mil espectadores se concentraram na primeira semana de setembro (dias 1º a 7) na Praça dos Andradas e seus prédios artísticos a fim de participar do FESTA 58 – Festival Santista de Teatro. Festival de artes cênicas mais antigo em atividade do Brasil, o evento contou com 40 atividades espalhadas na praça, na Cadeia Velha, no Teatro Guarany e na Vila do Teatro. A programação contou com grupos de todo o Estado de São Paulo, com peças infantis e adultas, teatro em palco italiano ou de rua, além de festas, shows, exposições de artes plásticas e visuais, além de outros segmentos culturais.

Com o tema ‘Qual a Democracia que queremos?’, o FESTA 58 foi uma realização do Movimento Teatral da Baixada Santista, contou com apoio da Prefeitura de Santos e Governo do Estado de São Paulo, apoio institucional do Sesc Santos e com os parceiros a Cooperativa Paulista de Teatro, a RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua, a Vila do Teatro, o Diário do Litoral e o Ferreira Filmes. A seguir, a organização do festival, o Movimento Teatral, apresenta o seu posicionamento na entrevista virtual à Revista Relevo.

O primeiro dia do FESTA 58 priorizou uma programação na retomada da Cadeia Velha como centro cultural. Qual a percepção do Movimento Teatral sobre a sua própria participação para a reabertura do prédio?

b7Boa parte das pessoas e grupos que desenvolvem trabalhos pela Região já se apresentou, ensaiou ou tem sua formação ligada àquele espaço, tínhamos o compromisso histórico de lutar pelo espaço. Foi um processo de articulação e união junto de outros segmentos para o embate público da retomada do prédio como centro cultural de artes integradas. O segmento teatral, como todas suas vertentes foi um dos que mais se organizou em torno dessa pauta, levantado desde o fechamento da Cadeia para reforma, até sua reabertura marcada por atrasos e entrega parcial do prédio.

Conseguirmos que o prédio fosse liberado para a realização do FESTA 58 nas suas dependências, com ocupação das celas composta por diversas manifestações culturais, o que mostrou na prática o que todos sabíamos: a vocação plural do espaço para as artes integradas. Esperamos agora da coordenação uma reunião para formação do conselho gestor do prédio juntamente com a sociedade civil, conforme acordado e desburocratização para o uso das dependências pela população e artistas locais para que o Centro Cultural Cadeia Velha seja, novamente, um lugar vivo e de liberdade criativa.

Com o tema ‘Qual a Democracia que queremos?’, o festival ocorreu inteiramente na Praça dos Andradas. Já que os prédios de lá foram palcos de discussões políticas historicamente, a escolha da praça se deu pela temática, pela localização geográfica ou pelo público que os coletivos vêm conquistando com ocupações culturais nesse espaço?

b5Foi isso tudo junto realmente. O período do festival coincidiu com a entrega parcial da reforma da Cadeia Velha, os alunos da Escola de Artes Cênicas (EAC) do Guarany tiveram participação fundamental na organização do evento também, somaram-se às atividades que têm sido realizadas de ocupação na praça a partir da Vila do Teatro.

Foi a primeira vez que todos os espaços culturais dali funcionaram juntos e o festival nunca tinha realizado uma abertura no Guarany ou na própria Cadeia, antiga sede do Movimento. Fica o exemplo para cidade e aos que virão, pois ver aquela praça e seus espaços culturais, o Teatro Guarany da Prefeitura, a Cadeia Velha do Governo do estado, a Vila do Teatro, uma ocupação cultural independente e gestão autônoma e, principalmente, a Praça dos Andradas funcionando juntos pela primeira vez pelo foi histórico.

Pesquisando em Santos, o JLeiva apontou que a população tem como hábito a preferência pela comédia de costumes e stand up. Na contramão, o FESTA 58 apresentou mostras estadual, regional e paralela que, em sua maioria, fogem desse padrão. Por qual razão apostam nesse viés e até que ponto essas peças não distanciam o festival do público?

b2A função de uma ação como o FESTA é ir na contramão disso mesmo. Tivemos um ótimo resultado de público no FESTA, o que indica que tem plateia para todos os tipos de manifestação artística em Santos. A função do teatro não é o puro e simples entretenimento, a televisão e os exemplos que vocês cita acima já cumprem esse papel.

Os espetáculos convidados, por exemplo, tinham um recorte curatorial temático bem definido, o que deu o tom do evento e trouxe o público para esses debates e questões, sinal que as pessoas estão querendo discutir essa tal democracia e ver como os palcos estão representando esse momento de representatividade política, temática tanto do FESTA 58 como do Mirada, só para ficar entre os eventos de artes cênicas, afinal o teatro alienado do seu tempo torna-se irrelevante.

Além do tema do festival, outras duas questões nortearam a maioria das peças da mostra regional: a censura e a segurança pública, abordando desde a ditadura até a repressão policial e o sistema carcerário. Quais fatores no contexto local ou global influenciam este atual panorama teatral?

b0O teatro poetiza e problematiza seu tempo, refletindo em cena questões contemporâneas que estão permeando as discussões e preocupações. Teatro é sempre um farol. Se esses temas estão sendo abordados com mais frequência, é um sinal de tempos maus, pois os artistas, em geral, estão atentos aos sinais do retorno de uma sociedade conservadora e repressora, são nesses momentos em que as instituições falham que o teatro ergue sua espada. Todo mundo tem antenas, mas poucos estão antenados, já diria a poeta.

Com grupos de diferentes cidades de São Paulo, o FESTA 58 propicia um intercâmbio entre os artistas. Também os estudantes de teatro no Senac apresentaram performances e os alunos da EAC colaboraram na produção do evento. Por que é importante que o festival contribua para a aproximação desses diferentes grupos?

b1São momentos de aprendizado e troca efetiva entre os trabalhadores da cultura, porque vemos como nossos companheiros de classe estão refletindo o mundo de acordo com suas filosofias e estéticas através do teatro. Precisamos desse momento para aprender e trazer para cá, grupos com pesquisa e trabalhos desafiadores e instigantes que possam colaborar com nossas pesquisas e formação do olhar. Vendo teatro, aprendo sobre teatro, amplio minha visão sobre a arte em si e sobre o mundo.

Responsável pelo FESTA 58, o próprio Movimento Teatral tem divergências de artistas que não se sentem mais representados. Como os grupos do movimento analisam esta relação e se observa em curto prazo possibilidades de reaproximação ou as diferentes perspectivas são históricas de outros anos?

b2A classe artística é plural e com diversas ramificações. O Movimento Teatral existe com quem se predispõe a participar ativamente das ações, assumindo responsabilidades de realização de ações práticas como próprio FESTA 58 por exemplo ou o Motim [Mostra regional de teatro] e nem sempre as pessoas, pelo seu dia a dia, estão dispostas à enfrentamentos públicos, participar de audiências, ou ativamente do conselho de cultura, reuniões de deliberação de atividades e trabalho em coletivo de forma horizontal ou de participar de exaustivas reuniões com participantes de diferentes correntes de pensamento. Procurar unanimidade não é objetivo e seria até inocente.

Já vimos propostas de movimentos com parte da classe artística, empresários, com pouca interlocução com coletivos artísticos e que não vingaram infelizmente, pois contrapontos são fundamentais. Esse ano por exemplo o festival teria sido inviável sem os alunos da EAC, o que deu outro formato e dinâmica ao FESTA, e colocou a realização evento no colo dos jovens estudantes de teatro de Santos. O novo sempre vem e segue em frente, em movimento. Nas reuniões do Movimento Teatral são feitos chamamentos e todos podem e devem participar de preferência presencialmente, fortalecendo com ideias, críticas e principalmente na prática, com braços e ações.

Cadeia Velha: Cinco espaços museológicos com artes integradas

As novas gestões de museus e institutos se reinventam pelo Brasil para expandir o diálogo com a comunidade. Em São Paulo, há as programações do Museu da Imagem e do Som e do Instituto Tomie Ohtake. Em Minas Gerais, o Inhotim se tornou referência internacional. Unir espaços museológicos e um calendário diferenciado de artes é o maior desafio para quem trabalha neste segmento. Ainda mais quando se tratam de patrimônios tombados.

Desde seu fechamento, a Cadeia Velha de Santos foi epicentro de sondagens do Governo Estadual em torná-la num museu. Em audiência pública, as articulações Movimento Teatral da Baixada Santista, Agrega Cultura e Sanatório Geral foram incisivos no retorno da administração da Oficina Cultural Pagu no espaço. No entanto, também estão em consenso com a Orla Cultural da importância de preservar a história local enquanto espaço museológico – que haja local para pesquisas, atividades educativas e diálogo com a comunidade. O que na prática já ocorria com a programação mantida da OC Pagu no prédio.

Esta é uma da série de três publicações que argumentam em favor do projeto da Cadeia Velha enquanto centro de artes integradas. Nela, aponta-se cinco modelos diferentes e exitosos de patrimônios arquitetônicos que se revitalizaram com as ações artísticas como espaços museológicos. A Secretaria de Estado da Cultura se propôs a responder ao projeto dos movimentos no início de julho. O prédio deve ser reinaugurado em fevereiro de 2016.

> Cinco modelos diferentes de ocupação artística para Cadeia
> Cinco razões para Cadeia Velha sediar a OC Pagu

1) Casa Mário de Andrade em São Paulo

01Projetado em 1920, o imóvel foi a residência do escritor e ex-secretário municipal de Cultura, Mário de Andrade, um dos maiores expoentes do modernismo brasileiro. Situado na capital paulista, o sobrado foi tombado em nível municipal e estadual e hoje abriga a Oficina Cultural Mário de Andrade.

Reaberto em maio, o local mantém ambientes com acervo dos objetos pessoais do escritor, exposições temporárias e tem toda uma programação voltada para a literatura. Seus projetos incluem o estudo e a criação de diversos gêneros literários (conto, romance, poesia e dramaturgia), jornalismo, crítica, interpretação de textos e redação, somados a palestras, ciclos de depoimentos de escritores, leituras dramáticas, recitais, mostras de filmes, lançamentos de livros e saraus.

De acordo com a gestora, “Entre os nomes que já passaram pela programação da Oficina da Palavra estão Marcos Rey, Lygia Fagundes Telles, Ivan Ângelo, José Simão, Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan, Ruth Rocha, João Cabral de Melo Neto, Ignácio de Loyola Brandão e Renata Pallotini, entre outros”.

2) Centro Histórico-Cultural da Santa Casa em Porto Alegre

04Fundada em 1803, a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre é o hospital mais antigo do Rio Grande do Sul. Como patrimônio estadual, o antigo prédio se tornou num Centro Histórico-Cultural (CHC) modernizado com rico acervo sobre a região. “No cenário nacional, o CHC tem a peculiaridade de ser o único equipamento cultural junto a um hospital destinado para este fim”, destaca a entidade.

Além dos espaços ampliados de pesquisa do acervo, de biblioteca e exposições, o CHC também dispõe de salas para seminários, palestras, reuniões de entidades culturais e médicas, e de ensaios para produções artísticas. Financiando a criação de um coral exclusivo, a instituição ainda mantém um teatro de 280 lugares para exibição de filmes e sessões de artes cênicas e música.

Todo ano, a comunidade artística pode participar de um edital para programação de apresentações de espetáculos, como também de ocupação das salas de ensaio e de múltiplo uso. No CHC, ainda se funcionam cursos de restauração e arte-educação, um bistrô e lojas de conveniências.

3) Casa das Rosas em São Paulo

06Concluída em 1935, a casa foi restaurada e transformada pelo Estado de São Paulo em espaço cultural, inaugurado no ano do centenário da Avenida Paulista em 1991. Desde a sua reabertura como Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, o patrimônio recebe 80 mil visitas anualmente com cursos, oficinas de criação e crítica literárias, palestras, ciclos de debates, lançamentos de livros, apresentações literárias e musicais, saraus, peças de teatro, exposições ligadas à literatura.

Por exemplo, entre julho e agosto, a programação compreende curso de literatura em cordel, oficina de percussão para crianças, curso de literatura para vestibular espetáculos musicais e de teatro, lançamento de livros, saraus e até arraial. “É nesse cenário chamado Avenida Paulista que a Casa das Rosas permanece um legítimo representante da arquitetura paulista como símbolo e referência de memória do cotidiano e das transformações da cidade e modos de vida”, cita o Governo Estadual.

4) Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte

05Com 1,2 mil m², o patrimônio tombado em nível estadual tem “estilo eclético, com influências neoclássicas e art déco, o prédio foi inaugurado em 1930 para sediar a Secretaria de Interior e Justiça”, segundo o Banco do Brasil. Ele transformou o prédio cedido pelo Governo Estadual para ser o seu quarto centro cultural (CCBB), inaugurado em 2013.

De lá para cá, o espaço duas salas de exposição permanente; teatro com capacidade para 264 lugares; sala multiuso para atividades audiovisuais, debates, conferências, oficinas, palestras, atividades interativas e educacionais, além de ambientes de convivência, lazer, alimentação e loja. Todo mês, há atividades teatrais, musicais e de cinema. O diferencial são workshops da seção Ideias, que compreende a relação das artes com a cidade.

5) Instituto Ricardo Brennand em Recife

02O instituto leva o nome do colecionador Ricardo Brennand que ergueu em 2001 o Museu de Armas – Castelo de São João. Apesar de ser um edifício recente, o projeto arquitetônico é réplica de uma antiga casa do período medieval em estilo gótico. Considerado em rankings internacionais como um dos 20 melhores museus do mundo, o espaço abriga “coleções de pintura, armaria, tapeçaria, artes decorativas, escultura e mobiliário” dos séculos 15 e 17 da Europa, Ásia, América e África, de acordo com a fundação.

O patrimônio ainda reserva uma biblioteca de 20 mil itens, entre livros, partituras, fotografias e discografias raras. Com 1200 m², o salão expositivo tem capacidade de receber até duas mostras simultaneamente. Embora não tenha uma programação de apresentações artísticas, o prédio compreende com oficinas e cursos periódicos voltados à história da arte.

*Lincoln Spada

Cadeia Velha: Cinco razões para o retorno da Oficina Cultural Pagu

A Cadeia Velha de Santos encerrou as últimas atividades artísticas ainda em dezembro de 2011, enquanto sede oficial da Oficina Cultural Pagu (OC Pagu). Com o equipamento público em reforma prevista até fevereiro de 2016, o Governo Estadual já recebeu em audiência uma proposta de vários movimentos artísticos da Baixada Santista para o retorno da Oficina na reabertura do prédio centenário.

A proposta apresentada pelas articulações Movimento Teatral da Baixada Santista, Agrega Cultura, Sanatório Geral e Orla Cultural é que a Cadeia Velha seja o epicentro de formação e ocupação de artes integradas, sem perder de vista a preservação de sua memória. O espaço tombado em nível federal, estadual e municipal é um dos principais modelos de antigas casas de câmara e cadeia no Brasil Império.

> Cinco modelos diferentes de ocupação artística para Cadeia

Esta é uma da série de três publicações que argumentam em favor do projeto da Cadeia Velha enquanto centro de ações integradas. Nela, aponta-se cinco justificativas para o retorno da OC Pagu ao equipamento público. A Secretaria de Estado da Cultura se propôs a responder ao projeto dos artistas no início de julho.

1) A vocação regional da OC Pagu

07]As Oficinas Culturais compreendem num programa estadual que atua desde 1996 na formação e na vivência da população no campo das artes, administrado pela organização social Poiesis. Cada sede do programa é voltado a uma das regiões administrativas do Estado. Na Baixada Santista, a OC Pagu foi inaugurada em março de 1994 na Cadeia Velha.

Por sua vez, o prédio é localizado em Santos, ao lado do terminal de ônibus municipal e da rodoviária que recebe diariamente estudantes e trabalhadores do litoral sul e de Bertioga. Em seu quarteirão na Praça dos Andradas, a Cadeia é rodeada de dois pontos de ônibus intermunicipais, reunindo moradores de Cubatão, Praia Grande e São Vicente (área insular e continental). A área central de Santos é a mais próxima de catraias, ligando com Guarujá.

Ou seja, a Cadeia Velha está numa das principais praças que garantem acessibilidade para todos os 1,8 milhão de moradores da Baixada Santista. Isso não ocorre a depender da localização das outras duas sedes da OC Pagu – até 2013 no Centro Comunitário São Judas, no Marapé, e mais recente na Rua Espírito Santo, no Campo Grande. Por mais que esteja em boas condições, a atual casa está numa área que limita o acesso dos moradores da região em relação ao prédio tombado.

2) A sede da OC concentra programação

02A sede administrativa das OCs é o ponto que reúne a maior diversidade de oficinas gratuitas para formação permanente de artistas da região. Por mais que trimestralmente se listem workshops e atividades em todas as nove cidades da Baixada, cada município recebe, em média, de uma a duas ações da OC Pagu, enquanto a sede pode dispor neste trimestre oito atividades, incluindo espetáculos teatrais e até um cineclube.

Portanto, por mais que o programa estadual contemple periodicamente todos os municípios, a metade de toda a programação estará situado na cidade com sede da OC. Esta situação é semelhante em toda a dezena de OCs no interior paulista. E garantir um espaço de fácil acesso para todos os interessados – neste caso, para toda a Região – é uma ação importante, ao entender que todos os governos estabelecem esse objetivo como uma política pública.

3) A vantagem econômica da sede

04O conceito de economicidade é o de garantir maior eficácia num programa com o menor custo. Será que o custo de reformar e manter a OC Pagu na atual casa alugada no Campo Grande não é maior se comparado a se instalar num equipamento com dois mil metros quadrados e já pertencente ao Governo Estadual, como a Cadeia Velha?

Ainda mais na situação atual, que a verba do Governo Estadual à Poiesis este ano reduziu em 20%, obrigando a redução de funcionários e o fechamento oficial de cinco sedes das OCs – quatro instaladas em prédios alugados. Em 2013, a Poiesis mantinha 21 equipamentos, sendo um terço deles alugados.

4) Espaço ampliado para novas oficinas

03A Cadeia Velha apresenta uma área de dois mil metros quadrados com cerca de vinte cômodos. Em funcionamento, os mais de três mil alunos da OC Pagu recebiam a sua formação artística em oito antigas celas, transformando-se em salas de aula com amplo espaço para atividades de dança e circo, mantendo até uma Escola de Circo. Atualmente, ações desses dois segmentos não conseguem ser contempladas nas mesmas condições na atual sede, por se tratar de salas menores.

Mesmo que na atual sala central, a OC Pagu possa mesclar lançamentos de exposições e espetáculos teatrais de pequeno e médio porte, o espaço pouco se compara com a grandiosidade do antigo ambiente de galeria e do auditório com palco para centena de espectadores no prédio público.

5) Ponto de referência de boas trajetórias

06Desde 1994, criou-se o hábito da Cadeia Velha ser um ponto de referência cultural, a partir das ações da OC Pagu. Por vezes, a instituição administrava o local com a possibilidade de receber grupos cênicos – teatro, dança e circo – para uso de ensaios, centralizar discussões e debates de movimentos e artistas, além de colocar o equipamento na rota dos principais festivais da Baixada Santista – como o Fescete, o Festa e o Curta Santos.

Claro que o Governo Estadual não orienta que o papel da OC seja além de formação artística, como, por exemplo, de contribuir para a formação e ocupação de grupos. Entretanto, é inegável que com seu bom histórico e em constante diálogo com artistas e a comunidade, a OC Pagu tem possibilidade de assumir com louvor o centro de atividades integradas.

*Lincoln Spada