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Patrimônio industrial de Cubatão é tema de seminário

Por Lincoln Spada

A historiadora Celma do Carmo de Souza Pinto ministrará o seminário ‘Desafios para a Preservação do Patrimônio Industrial de Cubatão’, iniciativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Prefeitura de Cubatão. O evento gratuito será na próxima terça-feira (11/dez), das 9h às 12h e das 14h às 17h, na Câmara de Vereadores (Praça dos Emancipadores, s/nº, Centro/Cubatão).

Celma é mestre em Teoria e História da Arquitetura e doutoranda em Teoria, História e Crítica (ambas na Universidade de Brasília, UNB) e atualmente trabalha no Iphan. Realizando pesquisas nas áreas de patrimônio cultural e na relação de paisagem e patrimônio industrial, ela já publicou três livros sobre Cubatão, ‘Anilinas’, ‘Meu lugar no mundo: Cubatão’ e ‘Cubatão, história de uma cidade industrial’.

O seminário visa a participação de especialistas e membros dos conselhos de Turismo, de Defesa do Patrimônio Cultural e de Políticas Culturais, além de demais interessados da comunidade.

Aimar Labaki: ‘Teatro é comunicação de dois inconscientes, público e palco’

Aimar Labaki é dramaturgo, diretor e tradutor de teatro e roteirista de TV e cinema. Atua também como crítico, curador, consultor e ensaísta na área de artes cênicas. É autor dos livros “José Celso Martinez Corrêa” e “Stanislavski: Vida, Obra e Sistema” (este em coautoria com Elena Vássina). Foi jurado do Prêmio Shell por 17 anos e assessor de teatro da Secretaria de Estado da Cultura entre 1989 e 1990.

No seminário “Olhares da Gestão Cultural”, realizado pelas Oficinas Culturais do Estado de São Paulo em junho em Limeira, Aimar abordou sobre os desafios de formação de público para o teatro. Ele fala sobre o diferencial das artes cênicas: “Há uma coisa específica no ao vivo que se perde no que é gravado. É a experiência, o contato ao vivo com as pessoas, mas atualmente estamos sendo formados por uma comunicação mediada o tempo inteiro por uma máquina, pela tecnologia, como os celulares”.

Ele complementa: “E nesse caso, hoje o teatro é a mais cruel das artes, porque há dias em que ele acontece, ou não no palco, porque ele é a comunicação de dois inconscientes (público e palco). Isso é uma sinuca de bico. O teatro vem do casamento do ao vivo, da linguagem do palco que precisa se incorporar na linguagem deste novo público”. A seguir, o depoimento de Aimar Labaki durante o seminário.

Relato de Aimar Labaki

O público de teatro como conhecíamos morreu nos anos 80, desse público criado do início dos anos 40 e que seguiu até os anos 70 por paixão. Até que esse público percebeu que, nos anos 80, que o teatro que se fazia já era para outro público, não para eles. (…)

Hoje há uma relação de consumo, do que cai ou não no gosto da mídia. (…) Se antigamente, você sabia o que era um teatro comercial, um teatro experimental, um teatro de escola, hoje está tudo misturado. (…)

Utilizando-se de uma definição de arte que vale só até o final do século 19, a arte é uma atividade humana que consiste em reorganizar elementos do sensível, numa estrutura que é lúdica. Se reorganiza palavras, faz literatura; se reorganiza ações humanas, faz teatro.

Hoje chamamos de teatro duas tradições que são completamente diferentes – uma é a que vem do teatro como gênero literário, da dramaturgia que vem a ser vivido em público por um ator; outra é o teatro como linguagem que se articula no palco, em que o texto é só um elemento a mais, e que, a partir dos anos 60 com a hibridação com as artes visuais, é como uma audiovisual ao vivo, que é como se fosse uma instalação ao contrário; no palco, ao contrário da instalação das artes plásticas, na qual você está imerso e usufrui no seu próprio tempo e espaço.

Arte x Entretenimento

A arte é necessariamente um processo. Entretenimento é evento. A arte necessariamente precisa de um espectador ativo, o entretenimento por sua vez tem uma outra função, que é de nos fazer esquecer de nós mesmos, com um espectador passivo. Ambos são absolutamente necessários.

A arte pode ter função política, pedagógica ou terapêutica, mas estas não podem estar acima da sua função de jogo, lúdica. (…)

Todo mundo precisa e quer entretenimento, mas nem todo mundo quer a arte, embora todos precisem dela.

Porque a arte faz você se lembrar de você a cada vez que você, como espectador, tem uma relação ativa com ela. (…) Teatro só acontece junto.

Hoje no Brasil, o financiamento público via incentivo só financia o teatro do entretenimento, não o teatro de arte. Isso precisa ser revisto. Não por acaso a gente vive uma efervescência e uma quantidade de produção teatral no Brasil inteiro, mas o ator precisa dar aulas, não sobrevive do palco.

Além de que antigamente, as temporadas eram lotadas de terça-feira a domingo. Hoje em dia, a lógica obriga a fazer todo o trabalho de produção gratuitamente pra depois se apresentar somente nos fins de semana.

Contrapartida é a própria arte

O problema é que pra formar uma plateia, ela deve ter acesso permanente e com periodicidade garantida a coisas de qualidade. E aí chegamos no terceiro problema, quem define qualidade?

Arte uma vez por mês não resolve o problema, por isso o incentivo público deve ser para arte, não com o entretenimento, e fazer com que o artista se sustente pra viver como artista, porque a arte que ele faz tem relevância.

A contrapartida social do artista é produzir o melhor que pode e tornar seu trabalho acessível ao maior número possível de pessoas.

*Lincoln Spada

Susana Ventura: ‘Aliar o interesse da comunidade com o incentivo à leitura’

Susana Ventura é Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, lecionou em universidades do Brasil, Portugal e França. Com atores, músicos e artistas visuais, realizou projetos de democratização da literatura. Foi consultora do Programa Mais Cultura do MinC (formação de bibliotecas) e curadora da exposição “Linguaviagem” (Itamaraty/Museu da Língua Portuguesa).

No seminário “Olhares da Gestão Cultural”, realizado pelas Oficinas Culturais do Estado de São Paulo em junho em Limeira, Susana abordou sobre sua trajetória, como também ações de formação de público na área da literatura. Um exemplo foi o programa Versos e Provas, do Sesc Santos, que reunia um público de 90 pessas em eventos mensais de literatura com alunos de Ensino Médio, tendo apoio principalmente da ONG Educafro. “Houve a criação de um ciclo de leitores com ações de integrar a literatura pedida nos vestibulares com bate-papo, rodas de conversas, e junção com artes cênicas”.

Ela também conta de outra iniciativa, sobre uma ação de leitura continuada por uma semana, “em que havia pessoas de boa vontade fazendo leituras e contação na Pinacoteca, na Orla da Praia. Esse tipo de ação simples muda as pessoas. Acredito muito em equipes multidisciplinares para as ações culturais. Não se trata de inventar a roda, mas de chegar a formatos possíveis que se mostram bem relevantes”. A seguir, o relato de Susana Ventura.

Relato de Susana Ventura

Penso que a área da literatura, onde comecei a trabalhar desde 2007, é uma das mais difíceis de trabalhar no segmento cultural, mas é uma das áreas que pode propiciar grandes alegrias. Lembro que, numa vez, uma secretária de cultura disse com ar triste que no município de 4 mil pessoas, apenas 70 participavam das ações de incentivo à leitura. Nossa, na capital, a gente comemora se houver o mesmo público, porque em cidades grandes, a gente divide o mesmo público com centenas de atividades simultâneas.

Na área de incentivo à leitura, a adesão espontânea é ainda pequena e um grande desafio, porque há outras atividades lazer a diversão. Na área da literatura, essa relação deve ser construída por várias razões. Uma delas é que a sociedade brasileira vem fortemente ligada à oralidade, não somos um sociedade fundada na escrita. Por exemplo, na Alemanha, que é uma sociedade mais ligada ao universo letrado, é muito comum ver que os livros de lá mais procurados são tutoriais, que ensinam a fazer coisas. Há livros que ensinam desde a fazer redes de pesca, a cozinhar, conservar o pescado, fazer comportas. No Brasil, este suporte é muito mais visto na área audiovisual.

Unir acervo com interesse do público

Um tipo de desafio, portanto, é descobrir o interesse do seu público na sua cidade e criar atividades a partir desses anseios, tentando construir pontos entre o que é desejado e o que é ofertado. Baseando-se nos versos de Gilberto Gil – “o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe” -, é preciso ter esse olhar nas bibliotecas. O equipamento cultural não precisa ter toda uma coleção de autores, mas um da Thalita Rebouças, outro do Paulo Coelho, outro da Zíbia Gasparetto, e depois trabalha com o acervo que ele tem. Por exemplo, ouvi outra vez de um bibliotecário: “Olha, descobri que uma pessoa vinha procurar sempre o romance da Zíbia. Gostava tanto que montei uma estante com os livros dela, e também de romances históricos, porque na próxima vez que a pessoa vier, pode buscar um similar”.

E é importante também encontrar aquele agente cultura, aquele professor mais animado, que te ajude a detectar esse público. Talvez você tenha um escritor morando na sua região, por exemplo, que pode vir a participar de um encontro na sua biblioteca. Num programa em Ribeirão Preto, por exemplo, começou chamando Lucília Junqueira de Almeida Prado, depois noutro ano Tatiana Belinky, depois Ricardo Azevedo, entre outros. Há também rodas de leitura, clubes de leitura, piqueniques de leitura, este como ocorre na Biblioteca Monteiro Lobato em São Paulo, além de lançamento de livros com apresentações, palestras.

Bom uso das redes sociais

Agora estão voltando à tona os saraus poéticos, e também oficinas, como de leitura em voz alta, de interpretação de textos, de leitura de imagens, de escrita criativa. Um empurrãozinho bacana é o bom uso das redes sociais e blogs para divulgar as atividades nestes equipamentos culturais, e gerar interesse, impulsionar público. Isso ajuda muito a comunidade a sair de casa para ir às atividades, desde que haja um bom uso antes, durante e no pós-evento, postando aquilo que está acontecendo ou que já aconteceu. Funciona e funciona mesmo.

*Lincoln Spada

Maria Alice Gouveia: ‘Criação de plateias deve se tornar um hábito na gestão cultural’

Maria Alice Gouveia possui vasta experiência nas áreas de empreendedorismo cultural e de políticas públicas para a cultura: coordenou o curso de pós-graduação em Administração da Cultura da FGV, trabalhou nas Secretarias Estadual e Municipal de Cultura de São Paulo, foi diretora de Cultura de Bragança Paulista e atuou como assessora para cursos sobre leis de incentivos do Ministério da Cultura.

No seminário “Olhares da Gestão Cultural”, realizado pelas Oficinas Culturais do Estado de São Paulo em junho em Limeira, Maria Alice abordou sobre a sua trajetória e os desafios para as políticas culturais e para a gestão cultural desenvolvida pelos artistas, produtores e demais profissionais do segmento.

Relato de Maria Alice

Trabalhei durante mais de 15 anos no serviço público e, antes de ir para área da cultura, trabalhei na Fundação Seade em dados estatísticos e metodologias de pesquisa. Enfim, um setor bem árido, mas que também faz com que a gente aprenda muito na teoria sobre a realidade de todo o Estado de São Paulo. Quando fui para a área da cultura, acabei conhecendo o Estado pelo outro lado, na prático, indo aos lugares. Então realmente conheci muito os municípios e as suas situações.

O que quero compartilhar é o processo de gestão, que é o de tomar decisões a partir de objetivos e dos recursos das instituições. Quando lemos, geralmente entendemos que a gestão engloba algumas funções, como a liderança. Existe uma vastíssima literatura sobre este tema e o planejamento estratégico que o gestor precisa ter, além é claro da gestão de pessoas, que significa basicamente em resolução de conflitos. Ou seja, para ser um bom gestor, precisa ter uma certa formação em psicologia, especialização em administração, e assim por diante. Além da própria gestão financeira.

Criação de plateias

Uma das grandes acusações contra os artistas é a questão da lei de incentivo, como se o ator fosse vagabundo porque ganhou dinheiro através da lei. O que acontece é que há uma falta de comunicação. Muitas vezes, o artista ou produtor fica tão preocupado com a produção, que esquece a divulgação. Não que não haja crise de público, nem sempre a falta de público é culpa do produtor cultural. Nas pesquisas, vemos que 70% da população não frequenta cinema e centros culturais, perderam o interesse ou nem tiveram esse hábito.

Criar plateias é algo muito mais cultural do que questão financeira ou acesso ao espaço. Então não vamos imaginar que dando o ingresso ou o vale-cultura ou um ônibus na porta do teatro, que o cara irá aparecer. Creio que é a questão de trabalhar com educação, não uma escolarização da cultura, mas que haja um trabalho de que não se trate de uma obrigação da população em ter cultura, mas um merecimento.

Avaliação de impacto

O gestor cultural é aquele cara que junta num mesmo trabalho a mediação da direção artística e a gestão de negócios. Ao contrário dos anos 70 onde havia o artista-gestor, hoje cada vez mais há a profissionalização do gestor cultural, que nada mais é do que aquele que precisará juntar os artistas e o público. No caso do gestor público, é da mesma forma essa atenção que ele deve ter com a sua administração direta e eventualmente indireta (bibliotecas, fundações, etc).

O que é importante é a questão da avaliação de impacto que teve a gestão. É uma forma de expressar uma visão muito mais completa, subjetiva, interessante, e por isso a importância das pesquisas, do sbaer, do conhecer, através dos olhares dos múltiplos agentes. Um exemplo é que um dos trabalhos de avaliação que fiz, uma ONG oferecia cursos profissionalizantes para jovens e cerca de 20% dos alunos conseguiam empregos. Você pode entender que 20% é um baixo índice, mas quando analisa no setor, aquela situação era muito importante, era um índice muito alto em relação às outras organizações, e, por isso, conseguiu continuar com seu patrocinio junto à uma empresa. Ou seja, é um material que serve de respaldo e embasamento.

Financiamento da cultura

A questão financeira da área da cultura atinge principalmente hoje as artes performáticas, em um mundo em que as tecnologias estão imperando. As novas tecnologias trouxeram uma possibilidade de economia muito grande em uma série de tarefas, e de multiplicar os ganhos com velocidade. Mas uma ópera demora o mesmo tempo hoje de ser produzida em relação à ópera do século 18. Ou seja, as tecnologias não podem ser aplicadas nas artes. Não tem como apressar um concerto ou processo criativo. Se as novas tecnologias aumentaram a produtividade e reduziram os custos, as artes performáticas vão continuar deficitárias financeiramente.

E como tentar contornar esta situação? Aí pode se criar produtos subsidiados, como o CD, o DVD, a transmissão direta, na tentativa de refazer este déficit. E entender que a cultura precisa ser subsidiada, os equipamentos culturais por exemplo. Então precisa primeiro pensar nas receitas, depois nas despesas e ter um acompanhamento contínuo do fluxo de caixa e do cumprimento do orçamento. É interessante lembrar também que, enquanto os governos indicam menos de 1% do orçamento para a cultura, dentro do orçamento familiar, essa atenção chega de 10% até 15% dependendo do estrato econômico. Hoje a sociedade investe muito mais com cultura do que o percentual estatal.

*Lincoln Spada

Movimento teatral busca lei de iniciativa popular em Santos

Uma lei de iniciativa popular com 16 mil assinaturas. O grandioso foco do Movimento Teatral da Baixada Santista, a partir de seminário recente na Praça dos Andradas, é para a criação de uma legislação que fomente o segmento para Santos. As discussões no Teatro Guarany e na Vila do Teatro foram inspiradas em modelo semelhante implantado em 2001 na capital paulista.

Por lá, R$ 18 milhões estão selecionados anualmente no orçamento municipal para serem destinados em editais semestrais para contemplar, cada um, 30 grupos espalhados pela Cidade. A verba de R$ 400 mil para cada projeto contemplado permite aluguel de espaços, material cenográfico e cachê do núcleo artístico e equipe técnica, o que permite que grupos possam desenvolver seus espetáculos e pesquisas durante até dois anos.

Assim, mesmo com impedimento de participar do edital do ano seguinte, os artistas conseguem manter o ritmo para suas produções, além de ampliar a rede teatral, seja dividindo espaços para ensaios e apresentações, seja na realização de mostras, temporadas e debates gratuitamente à população.

20150719_174326“O que me preocupa muito é como ter a garantia da verba para realização anual do edital em Santos”, comentou o diretor da Cia. Ciclocênico, Platão Capurro Filho na mesa de debate do seminário, realizado no domingo na Vila do Teatro. Da Trupe Olho da Rua, o ator Caio Martinez Pacheco complementou: “Precisamos sentar com a secretaria de Finanças para buscar no orçamento municipal quais as possibilidades destes recursos não virem apenas da Secult e do Fundo de Assistência à Cultura”.

A presidente do conselho de cultura da Cidade, Jam Pawlak ressaltou a necessidade da lei de fomento “pela questão da democratização e descentralização”, incluindo como desdobramento natural formação artística dos jovens. “Vocês não sabem o quanto os movimentos sociais se surpreendem e crescem quando estão articulados com as ações culturais”, foi outra consequência apontada por Débora Maria da Silva, coordenadora do Movimento Mães de Maio.

“Sem falar que esta lei permitiria o trabalho continuado dos artistas, ela é muito importante. É uma forma da gente continuar produzindo”, refletiu o ator Pablo Bailoni, do Núcleo Os Panthanas. Recém-formada pela EAC Wilson Geraldo, a atriz Letícia Tavares prosseguiu: “A partir dela, também é possível a maior aproximação dos grupos com o público, porque ela tem como foco perceber o que a sociedade está precisando enquanto artes”. Enfática, Kaylane Souza, da Cia do Elefante, concluiu: “Precisamos agora é promover esta mensagem para toda a população”.

*Lincoln Spada