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Encontro de Criadores chega à 6ª edição alavancando economia criativa em Santos

Por André Azenha

O termo Economia Criativa foi criado para designar modelos de negócio ou gestão originados em atividades, produtos ou serviços desenvolvidos a partir do conhecimento, criatividade ou capital intelectual de indivíduos com vistas à geração de trabalho e renda. Segundo o Relatório de Economia Criativa, divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o comércio mundial de serviços criativos mais do que dobrou na última década.

Santos é uma das poucas cidades do país detentora de um selo da Unesco como Cidade Criativa. Sua história, o Porto, a proximidade com São Paulo e, principalmente, seus talentos, a tornam referência em diversas áreas. Tendo em vista esse potencial do município que o produtor cultural Heitor Cabral, 25 anos, criou o “Encontro de Criadores”. A iniciativa se firmou como uma das principais no âmbito cultural da Baixada Santista e atrai pessoas não só da região, mas de São Paulo e do interior do estado. Assim, promove o intercâmbio cultural e artístico, estimula o turismo, a geração de renda local e contribui para o resgate do Centro Histórico.

O projeto, realizado em média a cada três meses de maneira itinerante, chega à sexta edição de 5 a 7 de maio, na Casa da Frontaria Azulejada, no Centro Histórico, com diversas atrações. Dessa vez, a iniciativa envolverá mais de 200 profissionais das áreas de Moda, Decoração, Gastronomia (food bikes e food trucks), Música, Cinema, Produção Cultural, Artesanato. Serão cerca de 30 estandes onde empreendedores podem vender seus produtos, além de debates, palestras, exposições e apresentações musicais. É esperado um público rotativo de 6 mil pessoas durante os 3 dias do evento. A entrada é gratuita, mas a organização pede a gentileza de um livro ou um agasalho, que serão distribuídos respectivamente para a biblioteca do Instituto Arte no Dique e o Fundo Social de Solidariedade de Santos.

Entre os destaques dessa edição, está o show de lançamento do primeiro CD solo do músico Rafael Costa, mais conhecido como Bola, vocalista da Banda Zimbra. Também ocorre uma série de debates, palestras e workshops com nomes dos segmentos de cultura e comunicação, em parceria com a produtora Selo Criativo. “Nessa edição chegamos ao nosso auge de profissionais da Baixada como de outras cidades. E também esperamos atingir nosso maior público, que encontrará nessa data, inclusive, ótimas alternativas para presentearem suas mães na semana seguinte”, ressalta o produtor Heitor Cabral.

EXPOSITORES

O 6º Encontro de Criadores já tem confirmados os seguintes expositores: Moda: Ativa (moda masculina e feminina) linha + underground; Meus 3 pontos (pop store, loja no furgão); Soul Ser (produtos feitos com algodão orgânico); Bia que Fez (vestuário feminino exclusivo com conforto, estilo e criatividade); All Berg (vestuário masculino e feminino com diversas linguagens de outras culturas); Invictus (vestuário tropical masculino e feminino); e Lanai (marca criativa que passeia dos calçados ao vestuário com itens criativos e minimalistas).

Arte: A Forca (zines + colares) e Arthink (estúdio de tatuagem). Acessórios: Pantala (calçados produzidos sem nenhum tipo de produto com origem animal); Vis Design (colares, acessórios); Pé de Louro (marca sustentável de acessórios); Karina Murao Designer; Donas Florindas (acessórios focados no sereísmo); Zay Joias (joias produzidas em resina e com elementos geométricos). Decor; Piba Puppet (placas decorativas feitas com madeira descartada); Barbara Anderáos (lindas peças de cerâmica); Matriz (xilogravura em colaboração com artistas).

Gastronomia: Geleias Lowe (mais de 100 sabores de geleias artesanais com combinações incríveis e um sabor único); Vitta e Succhi (sucos naturais incríveis numa linda bike); Miss Docinho (doces, bolos e cafés numa charmosa food bike); Ui Not (culinária mineira); Smorrebrod (sanduíche aberto dinamarquês vegano) e Crazy Dude (food truck de hambúrguer/ lanches artesanais).
Mr Pie (tortas doces).

PROGRAMAÇÃO

Sexta-feira, 5 de maio
>> 16h – Bate-Papo sobre cultura, criatividade e outros papos com – José Virgílio Leal de Figueiredo
(Arte no Dique), Rodrigo Savazoni (Pr comum), André Azenha (Culturalmente Santista), Ludmilla Rossi (MKT Virtual e TIP) e Diego Brigido (Revista Nove Cidades). Cada convidado falará durante dez minutos, nos moldes do TED, e depois haverá roda de conversa com todos.
>> 18h – Apresentação de Monique da Rocha.
>> 20h – DJ
>> 21h – Batalha de Hip Hop (rimas)

Sábado, 6 de maio
>> 14h – Workshop Customização de Eco Bag, com Martha Baldan
>> 16h – Workshop Produção e Degustação de cervejas artesanais, com Lucas Bento, do Mucha Breja)
>> 17h – Apresentação do projeto Komboio Cultural
>> 18h – Workshop de Xilogravura, com Rachel Midori
>> 19h – Frida Julgadora
>> 20h – Jazz Big Band
>> 21h – Futuráfrica

Domingo, 7 de maio
>> 14h – Workshop de Gamification, com Danilo Costa -TIP/MKT Virtual
>> 16h – Workshop de Processo Criativo, com Cleber Boadilla – TIP/MKT Virtual
>> 16h – Show: Jazz de Roda
>> 18h – Show: Bola – Zimbra
>> 19h – Cabana Jack

 

Opinião: A saga inovadora de ‘Os Sapatos que Deixei pelo Caminho’

O homem-cabra não nasceu para as cidades grandes, não, senhor. E se o cabra não for tão macho, nasceu para lugar nenhum. Poim é mais um desses inveterados migrantes, que adolescente e órfão de pai parte para Santos (SP) nos anos 70. O diferencial é que seus medos e sonhos são recontados de maneira inovadora nos palcos em ‘Os Sapatos que Deixei pelo Caminho’, estreado em 2014 pelo Teatro do Kaos.

É comovente o argumento de Lourimar Vieira em recordar os preconceitos que entornam o personagem principal, em texto de Cícero Gilmar Lopes. E a direção segura de Marcos Felipe pincela a montagem com as principais características de ‘Luís Antônio-Gabriela’, teatro premiado que ele protagonizou pela Cia. Mugunzá. A metalinguagem e a mescla de linguagens, como as referências no cordel, no mamulengo e na xilogravura, além da divisão explícita de capítulos em ordem não-cronológica.

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‘Os Sapatos que deixei…’ vai além. Desde ofertar pipoca à plateia até torna-la em uma classe de bullying acolhe o público a ponto dele vivenciar o lúdico e perceber que todos são Poins, cabras ou preconceituosos. Está lá o quinteto a trocar de personagens, dizeres e até servir de coreto. Por mais que Lourimar tenha Poim sobre os ombros, o poder da peça se dá pelo envolvimento coletivo: Camila Sandes, Diego Saraiva, Fabiano Di Melo, Levi Tavares.

Cada um tem seu auge, a primeira é Camila logo em melodias tristes na abertura. Fabiano rege boa parte das narrativas. Diego e Levi complementam com humor e até os bonecos-primos e as imagens criadas na tela ganham o devido destaque. Além, é claro de uma preocupação acertada com figurino e cenário.

01A estética reforça todo o drama. Agoniei na cadeira quando via Poins berrando em silêncio, boquiabertos com os sapatos deixados pela sua mãe. Os significados dos calçados variam em cada sequência. Representam admiração atordoada, sinais de xingamentos ou as dores familiares a serem abandonadas. Como um casamento perfeito para contemplarmos os traumas de vítimas da intolerância, da xenofobia e da homofobia.

Em ‘Os Sapatos que deixei…’, casa-se a cena de desejo e paixão de Poim em um beijo camuflado por camisas. Casa-se a sequência em que ele sofre o preconceito na escola paulista. Casa-se a cena da rotina trabalhadeira dele como um bate-estaca no escritório, subindo escadas, remexendo em relatórios, datilografando. Até poder, enfim, casar abraçado com o sonho da veia artística, da sua própria vocação, da sua identidade. De fazer sua travessia em quaisquer lugares.

*Lincoln Spada